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    História da Maré

   A história de constituição da Maré remonta ao início do século XX. A construção do Instituto Soroterápico Federal (atual Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ), em 1900, chamou a atenção da cidade para esta região, que necessitava de melhores meios de transporte e maior infra-estrutura, devido à importância daquela instituição.

   Inicialmente, a Fiocruz tinha o objetivo específico de ser um espaço destinado à produção de soro e vacina contra a peste bubônica, que se espalhava pelo Rio de Janeiro, exigindo respostas das autoridades públicas. Rapidamente, o Instituto foi se destacando na produção e criação de importantes vacinas e medicamentos, tornando-se um dos mais conceituados centros públicos de pesquisa em saúde.

   Devido à importância alcançada pela Fiocruz, pouco a pouco a região que hoje constitui a Maré foi assumindo relevância na constituição e na organização do espaço urbano carioca, a demandar maior atenção e maiores investimentos do poder público. Isso passa a acontecer a partir da reforma do centro da cidade, realizada pelo prefeito Pereira Passos, quando parte dos moradores do centro foi deslocada para o subúrbio mais próximo. Assim, o espaço da Leopoldina e de Manguinhos, até então caracterizado como periferia rural, ganha núcleos urbanos que passam a se expandir.

   O complexo de favelas da Maré teve início na década de 30 e 40, com a chegada dos primeiros moradores à comunidade hoje conhecida como Morro do Timbau.  A partir daí, o processo de ocupação foi se expandindo de tal forma que, no início deste século, este já era considerado o maior complexo de favelas do Rio de Janeiro.

   Outro importante aspecto da constituição da Maré é o êxodo rural, característico da segunda metade do século XX. Parte da população deste complexo de favelas é formada por nordestinos, que vieram em busca de melhores condições de vida e de trabalho. A Maré é um dos mais significativos redutos da cultura do Nordeste na cidade do Rio de Janeiro.

   Situada entre a Avenida Brasil e a Linha Vermelha, à margem da Baía de Guanabara, a Maré é hoje um dos principais espaços da Zona da Leopoldina. A visibilidade decorrente da localização geográfica, bem como o fato de sua paisagem, durante muitos anos, ter sido dominada por palafitas (habitações precárias suspensas sobre a lama e a água) contribuiu, em geral, para a percepção da Maré como um local miserável, violento e destituído de condições dignas de vida. Apesar do exagero dessa representação, é forçoso reconhecer que se trata de um lugar proletarizado, onde predominam populações nordestina e negra, em condições sociais e profissionais subalternas e com baixa escolaridade.


    Dados e descrição da Maré

   A Maré possui cerca de 132 mil habitantes, com uma média de 3.4 habitantes por domicílio . Média esta bastante próxima daquelas encontradas em nível nacional, regional e municipal. Mas na comparação das taxas de densidade demográfica, verifica-se que o complexo possui cerca de 21.400 hab/km², enquanto o município do Rio de Janeiro apresenta uma média de 328 hab/km². O processo intenso de ocupação é um fator básico para se definir alguns aspectos da paisagem da Maré. Destacam -se, em particular, a ausência de árvores, a escassez de espaços vazios, a verticalização das residências e a intensa circulação de pedestres e de diversos meios de transporte.

   A população se distribui por cerca de 38 mil domicílios, em 16 comunidades: Marcílio Dias, Praia de Ramos, Roquete Pinto, Parque União, Rubens Vaz, Nova Holanda, Parque Maré, Nova Maré, Baixa do Sapateiro, Morro do Timbau, Bento Ribeiro Dantas, Conjunto Pinheiros, Vila dos Pinheiros,  Novo Pinheiros, Vila do João e Conjunto Esperança.

   As comunidades que compõem a XXXa Região Administrativa representam 2,3% da população do município do Rio de Janeiro e 0,97% dos habitantes do estado do Rio de Janeiro. O bairro possui um número de habitantes superior ao de cidades como Cabo Frio, Araruama, Angra dos Reis, Resende, Queimados, Itaguaí etc. Caso recebesse o status de município, ele ocuparia a 18ª posição no estado e a 11ª na região metropolitana.

   No que concerne às características ecológicas e da paisagem, o sítio original da área hoje ocupada pela Maré era, em grande parte, composto por terrenos alagadiços e de mangue, além de pequenas ilhas. Com o passar do tempo, a região foi aterrada ou dominada por palafitas. A ocupação efetiva da parte central da Maré data de 1946, ano da inauguração da Av. Brasil e da implementação do novo eixo industrial Zona Norte. A avenida materializava, então, a política de desconcentração produtiva e populacional da cidade do Rio de Janeiro.

   Se compararmos o percentual de analfabetismo, trabalho infantil e renda da Maré com o de outras favelas, poderemos encontrar grandes semelhanças. Porém há de se ter cuidado para não generalizar, caracterizando todas as favelas de forma homogênea. Elas se constituíram de forma diferenciada, e se organizam a partir das particularidades e especificidades locais.

   A Maré, diferentemente de outras favelas como a Rocinha, o Vidigal e o complexo do Alemão, se caracteriza por um território plano em sua quase totalidade, possuindo apenas duas áreas em declive. Quase todas as suas áreas possuem água, luz, esgoto, arruamento e coleta de lixo, o que contrasta com o discurso da ausência que durante muito tempo caracterizou as favelas, como nos mostra o trecho abaixo, do caderno do Censo Maré 2000.



“A ausência torna-se, portanto, o eixo paradigmático da leitura e interpretação dos espaços populares, indiferenciadamente denominados como favela. Desse modo, define-se a favela pelo que ela não é ou pelo que não tem em relação à cidade. Nesse caso, a favela é apreendida como um espaço destituído de serviços urbanos- água, luz, esgoto, coleta de lixo; sem ordem – arruamento, numeração domiciliar, pavimentação; globalmente miserável; sem lei- antro de marginais e desocupados; sem cidadania- baixa escolaridade e fraca participação política; sem moral- famílias desagregadas e pessoas inclinadas a todo tipo de vício; enfim, expressão do caos social mais brutal.” (23:2003)
As manifestações culturais mais populares também são raras, resumindo-se a pouquíssimos blocos carnavalescos e uma pequena escola de samba. Outras, como a Folia de Reis, grupos musicais ou agrupamentos culturais diversos, se caracterizam pela ausência de continuidade e pela pequena difusão de suas atividades, que não contam também com o apoio do poder público.



   Hoje, das 16 comunidades da Maré, apenas oito possuem postos de saúde, que dispõem de atendimento nas clínicas básicas, com os Programas de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) ou de Saúde da Família (PSF). Há também um Centro Municipal de Saúde com algumas especialidades médicas que servem de referência para toda a área da Maré.

   Embora não existam mais na Maré as palafitas, que marcaram sua imagem durante muitas décadas, suas moradias ainda hoje se mantêm precárias; casas muito pequenas, com cômodos que cumprem duplas funções (sala e cozinha; sala e quarto etc.) e de paredes geminadas, o que impede qualquer tipo de privacidade.

   Ressalte-se, ainda, que serviços de utilidade pública como bancos e agências de Correios não estão disponíveis no bairro, apesar de sua população ser maior do que a de 80% dos municípios do Brasil.

   Existem na Maré 16 escolas públicas e sete creches comunitárias, além de várias escolas privadas de pequeno porte, voltadas para a Educação Infantil e para o Ensino Fundamental. O Ensino Médio, cuja demanda cresce de forma explosiva, é contemplado com a oferta de três escolas públicas para toda a região – incluindo os bairros próximos à Maré.

   Segundo o Censo Maré, o percentual de moradores analfabetos e maiores de 14 anos chega a quase 10%. Este número está um pouco abaixo da média brasileira (13,3%), mas é muito superior ao do município do Rio do Janeiro para o ano de 1999 (3,4%). Quanto aos rendimentos, menos de 1/3 dos seus trabalhadores afirma receber mais de dois salários mínimos por mês. No que concerne ao trabalho infantil, 2% das crianças de 10 a 14 anos residentes na Maré exercem alguma atividade de trabalho; no município do Rio de Janeiro este índice é de 0,6%.


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