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Coluna • Quem Tece a Redes

Por Jéssica Pires e Julia Bruce

Esta é a coluna Quem tece a Redes, um compilado das histórias de pessoas que constroem a nossa organização e que tecem todos os dias o que fazemos de melhor: ações e projetos para moradores da Maré. Conheça aqui essas histórias, trajetórias, experiências e a própria história da Redes da Maré - e como esse trabalho e os desafios enfrentados a partir da pandemia os têm transformado.

 

 


Conectando Olhares

Por Julia Bruce

Lucas Ferreira (27), conhecido como “Lucas Buda”, e cria do Parque Maré, tem como sua paixão a capoeira. Desde os 6 anos, participa de projetos sociais de arte e cultura no território. Aos 10, iniciou as aulas de capoeira e chegou a viajar pelo país dando cursos. Seu talento o motivou a promover o ensino da capoeira para crianças e adolescentes mareenses e a trabalhar na favela, para que eles possam ter as mesmas oportunidades. Hoje, Lucas é formado em Educação Física e é coordenador da Lona Cultural Municipal Herbert Vianna, palco referência de arte, lazer e formação na região.


“Tio da capoeira, quando vai ter aula?”. Essa é uma frase que o Lucas escuta frequentemente. “Quando eu chego na Lona, as crianças vêm correndo, me abraçam, fazem um círculo em volta de mim. Eu amo crianças, tem um ímã que atrai”, conta o professor de capoeira sobre a relação de muito carinho e respeito com as crianças. Ele, que desde pequeno, vive a capoeira de perto, entende as reações delas e sempre reforça o quanto a cultura e o esporte são fatores de transformação na vida de cada uma. “Meu primeiro aluno, hoje, é professor de capoeira, e sustenta a família dando aula com apenas 17 anos. Ele queria muito fazer isso”, relata.

A força de vontade foi essencial durante sua trajetória e a mãe o influenciou a crescer nessa área, pois sempre fazia questão dele estudar e participar dos projetos de cultura e esporte da Maré. Foram inúmeros do qual Lucas fez parte, como a Orquestra de Flautas da Maré, aulas de hip hop no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM), aulas de canto coral na Vila Olímpica, entre outros. Quando chegou no Ensino Médio, fez o Curso Pré-Vestibular da Redes da Maré e passou de primeira para Educação Física, na UFRJ, curso que sempre teve vontade de fazer. “Minha primeira aula na faculdade foi de capoeira, assim, retomei minha paixão, comecei a estudar, a treinar e a viver disso”, explica Lucas, que ensinou capoeira em escolas particulares e projetos, até chegar na Lona. “Eu tinha um tempinho livre na minha semana e queria doar para as crianças aqui da favela”.

Em 2019, Lucas chegou com um projeto de aula de capoeira para o projeto “Maré de Capoeira” e começou a atuar como voluntário e, logo depois, como oficineiro da Lona, por dois anos. Em 2020, participou da Chamada Pública - Novas Formas de Fazer Arte e Cultura, em que escreveu videoaulas que já estava fazendo para a Lona acerca de personalidades negras da capoeira na perspectiva antirracista. Para as crianças da Lona, essas aulas eram feitas em forma de fantoche, com linguagem infantil, para praticarem capoeira ao ouvir as histórias. Além disso, foi mentor do Marégrafia: Cartografia das artes e artistas na Maré, que integra o projeto Maré que Queremos, do Eixo de Desenvolvimento Territorial, e tem como propósito dar visibilidade às produções de artistas locais. Lucas fez mentoria para direcionar a pesquisa, selecionar os artistas, e dialogar com o território.

Na campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’, chegou como voluntário em abril deste ano para distribuir cestas básicas de porta em porta e reflete como isso fez com que se tornasse uma pessoa diferente: “Isso me ajudou a entender que é um trabalho, mas que também é uma missão de ouvir histórias, de parar e poder oferecer um ouvido atento. Me ajudou nesse sentido de colocar mais humanidade no meu trabalho, de olhar mais olho no olho”, descreve. E é justamente esse olhar que ele espera das pessoas em um breve futuro.

 

 



 


Reconhecendo Lugares

Por Júlia Bruce

Everton Pereira (35) nasceu e cresceu no Parque União, antes mesmo de saber que era morador da Maré. O reconhecimento do próprio território e tantos outros encontros individuais e coletivos aconteceram durante o curso pré-vestibular da Redes da Maré. Por conta de toda a influência política no território, seu avô, Manoel Pereira da Silva, conhecido como “Manoel da Luz” e que ganhou nome de rua, foi inspiração para sua trajetória até aqui. Everton é formado em Geografia pela UFRJ, participou como agente de campo do Censo de Empreendimentos (2011), como coordenador de campo do Censo Populacional da Maré (2012), é professor do CPV da Redes desde 2012 e atual coordenador do projeto Conexão Saúde.


Pertencer ao território desde pequeno foi significativo na vida de Everton. As primeiras lembranças e sentimentos que vêm à cabeça se resumem nas “memórias de rua”. Ele lembra como eram os espaços na Maré durante sua infância: “A rua era vazia, não tinha carro circulando como tem hoje, e costumo citar isso nas minhas aulas de geografia quando falamos sobre o crescimento econômico do Brasil e como isso se reflete na favela. Meu avô tinha um bar grande na Rua Ari Leão, com duas mesas de sinuca, e eu brincava muito na rua, nesse espaço do bar. Não tinha tecnologia, não tinha outra coisa para se fazer a não ser ir para a rua e jogar bola, brincar de pique, bola de gude, pipa, garrafão”, explica.

Todas essas experiências e processos de aprendizagem durante sua trajetória contribuíram para a formação de Everton. Aos 12 anos começou a trabalhar: foi cobrador de van, atuou em laboratório farmacêutico e precisou conciliar trabalho e estudos. Mas chegou um momento na vida em que notou que não sentia mais motivação e queria encontrar uma realização pessoal. Foi quando conheceu o CPV da Redes da Maré por um cartaz colado em um poste e se matriculou no curso. “Eu nem sabia como funcionava o vestibular, era algo inalcançável para mim. Entrei no CPV para conseguir uma bolsa em uma particular em 2009 - o primeiro ano em que as faculdades aderiram ao ENEM como forma de entrada. Eram 45 vagas para o curso de Geografia e depois tinham mais 45 para a prova específica. Passei na minha primeira tentativa para a UFRJ, e nas minhas aulas explico sobre a falta de confiança que vão colocando na gente durante a trajetória escolar”, relembra o tecedor, que reconheceu sua identidade mareense durante o curso, pois via o Parque União como parte de Bonsucesso: “precisava voltar pra cá e retribuir tudo o que fizeram por mim”.

Além de lecionar no CPV desde 2012, ele começou a trabalhar no Censo de Empreendimentos, em 2011, como licenciador e agente de campo, batendo de porta em porta dos comerciantes. Depois, passou pelo Censo Populacional como coordenador de campo, articulando e facilitando os trabalhos para os pesquisadores. “Conseguimos colocar mais de 1.200 crianças para estudar a partir dos dados do Censo Populacional; mapeamos crianças que tinham síndrome de Down para receberem atendimento médico e psicossocial, além de suas famílias. Por meio do Guia de Ruas, achamos os endereços das pessoas e disponibilizamos para os carteiros, porque não existia cartografia de favelas na época”, relata.

Na campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’ chegou como voluntário em maio de 2020 e, em julho, no Conexão Saúde, onde começou a coordenar a frente da testagem e, logo depois, se tornou coordenador geral do projeto com a Luna Arouca. “É impressionante como a pandemia mexe com a cabeça das pessoas, com a nossa vida, com os espaços. Foi um tempo de muito aprendizado”, conta Everton, que espera que todos saiam dessa mais fortalecidos e valorizando atitudes básicas como afeto e contato. Ele complementa que tem sido uma experiência rica para sua formação pessoal: “Coordenamos tudo, desde a gestão de pessoas até fazer tudo funcionar, atender o público, tirar dúvidas. É uma coordenação ampliada no sentido de formação também”.

Dessa forma, ele reflete sobre a própria atuação da Redes nesse contexto de pandemia e resume em transformação. “Passamos a atuar com uma habilidade e uma competência que não vi em nenhuma outra favela, é inédito o que estamos fazendo. Não é somente dar cesta básica, é colocar na universidade, estimular os outros membros da família a entrarem. A Redes conseguiu se transformar e entender: “Qual é a urgência agora?”.

 

 




 


Empatia para educar

Por Jéssica Pires

Aline Araújo (35), nascida e criada na Vila dos Pinheiros, é formada em Letras pela UERJ e educadora, desde então. Na Redes da Maré, chegou para trabalhar no projeto Programa Criança Petrobrás, atuando como facilitadora de leitura e com complementação escolar. Atualmente, colabora com o projeto Nenhum a Menos, que acontece na Lona Cultural Herbert Vianna e tem o objetivo de fortalecer o vínculo de crianças e jovens com a escola e processos de aprendizagem, além de atuar no Educação para Jovens e Adultos (EJA).


A motivação para trabalhar com Educação veio da referência de bons professores e da paixão pela língua portuguesa. A princípio não sabia muito bem como realizar o sonho de ser professora, mas ao acessar o pré vestibular, passou a entender as dinâmicas das provas e das universidades. “Meu desejo sempre foi (e ainda é) de contribuir para que a favela seja um local de oportunidades. Tenho muitos ex alunos alcançando novos rumos, se especializando, fazendo cursos técnicos, faculdade e isso me deixa muito feliz porque educação é um direito de todos, não só de alguns”. Para Aline, é muito significativo que as pessoas da Maré acessem esses lugares e possam sonhar e aprender.

Sobre os processos de aprendizagem, ela acredita que “a partir do momento que você entende as dificuldades e limitações do outro, você consegue estabelecer uma relação justa e horizontal. A Educação tem esse caráter, é preciso saber ouvir o que o outro diz”. Aline ainda destaca outra realidade bem presente na Maré: há muitas pessoas que não deram continuidade aos estudos porque precisaram trabalhar. “pensar o projeto EJA na Maré é dar acesso à Educação a esse público. É transformar a realidade dessas pessoas e, assim, do território”.

Na campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’, ela trabalhou, inicialmente fazendo ligações para as pessoas que se inscreveram para o recebimento das cestas básicas. Depois, agendou a entrega dos cartões e a distribuição das cestas nas casas das famílias. “Foi um processo importante para mim, pois pude me doar e ser útil em um momento de muita vulnerabilidade social, por conta da pandemia”.

Para Aline, o que a organização realizou na pandemia foi incrível, pois muitas famílias não conseguiram nenhum auxílio do governo. “O trabalho da Redes, em todos os eixos de atuação, é de extrema importância para o desenvolvimento humano e territorial da Maré”.

O maior desejo da educadora para o momento é que o coronavírus possa ser controlado a partir da vacinação em massa e que as pessoas que perderam alguém tenham força para prosseguir. “Meu desejo para o nosso país é que possamos ter um governo que vise a melhoria na vida de todos os habitantes e que tenha empatia, respeito e um olhar atento à justiça e aos reais problemas sociais”.

 

 




 


Pertencimento e articulação

Henrique Gomes (38) é assistente social em formação pela Escola de Serviço Social da UFRJ. Peixes com a lua em gêmeos, como pediu que registrássemos. Apesar de carioca, é filho de dois paraibanos, de Massaranduba, como tantos moradores da Maré. Foi aluno do Curso Pré-Vestibular (CPV) em 2009 e se interessa desde sempre por pesquisas e música, o que fortaleceu uma importante capacidade de articulação territorial, que representa muito o trabalho de Henrique na Redes da Maré e em todo o território.


Desde de que acessou a Redes da Maré por meio do CPV, foram muitas as experiências: entre outras, foi distribuidor, articulador e coordenador de Distribuição do jornal Maré de Notícias, assistente de produção e produtor na Lona Cultural e na ECOM, articulador dos projetos Maré sem Fronteiras e Maré que Queremos, pesquisador no Núcleo Memórias e Identidades da Maré, redutor de danos do Espaço Normal, e agora é coordenador da frente de Isolamento Seguro do projeto Conexão Saúde.

As primeiras lembranças e sentimentos sobre o território são sobre pertencimento: “uma relação de compartilhamento, com os vizinhos, amigos, parentes. A sensação de estar com alguém, da relação de comunidade é muito forte. Minhas primeiras lembranças são de cuidado coletivo”. Por isso, conta Henrique, foi muito natural trabalhar na Redes da Maré, já que foi um local importante para o processo de formação como morador.

Para o articulador, é marcante a possibilidade de vivenciar o impacto do próprio trabalho da Redes da Maré. A partir da produção de dados, por exemplo, é possível perceber a mudança local, a melhoria de vida e o impacto direto das ações da organização na vida dos moradores, que são seus próprios vizinhos, amigos e família. ”É um impacto em comunidade, direto”.

Henrique também acompanha a coordenação do eixo Desenvolvimento Territorial da Redes, e destaca: “É importante pensar nesse desenvolvimento do território, e de uma maneira estruturante, que é como a gente pensa o eixo. Pensar no desenvolvimento territorial é pensar em uma mudança de estrutura em saneamento básico, em educação, e outras frentes.

Na campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’, começou trabalhando na distribuição das quentinhas do projeto Sabores e Cuidados, colaborando com a distribuição diária de trezentas refeições nas cenas de uso de drogas da Maré; trabalhou também em um novo modelo de atendimento aos frequentadores do Espaço Normal, na distribuição de álcool em gel e máscaras para moradores da Maré e fortalecendo a comunicação no território, com a colagem de cartazes e articulação com associações de moradores.

Henrique finaliza esse ‘Quem Tece a Redes’ destacando a importância que o trabalho da Redes da Maré tem em dar visibilidade às questões que sempre foram invisíveis ao poder público e à sociedade. “Sobretudo dessa produção de dados, dessa mobilização, de articulação com os serviços públicos, de pensar esse acesso dos moradores da Maré a esses serviços e direitos”.

 

 




 


Tecendo olhares

Douglas Lopes (30) é o responsável pela maior parte das imagens e olhares que contam histórias e tecem a Redes da Maré. Nascido e criado na Maré, iniciou seus estudos de fotografia analógica e digital na adolescência, e atualmente é fotógrafo e produtor de vídeos na Comunicação Institucional da Redes da Maré, além do seu importante trabalho independente de fotografia.


Em 2013, começou a frequentar a Biblioteca Jorge Amado, na Lona Cultural Municipal Herbert Vianna, e a partir dessa aproximação desenvolveu peças gráficas para divulgação das atividades do espaço. Logo foi convidado para integrar a equipe como fotógrafo e desenvolvedor de conteúdos criativos. No ano seguinte, Douglas ministrou oficinas de fotografia e iniciação audiovisual com crianças do projeto Nenhum a Menos. Em 2017, foi convidado para integrar a equipe de comunicação institucional como social media e fotógrafo da Redes da Maré e do Jornal Maré de Notícias “para comunicar com o fotojornalismo a pluralidade da favela, as queixas, potências e direitos do território com um novo olhar na fotografia”.

As suas primeiras lembranças do território são de um lugar de ensino, de acolhimento, de lutas, diferenças e esperança. Que mesmo em tempos difíceis, ele identifica a capacidade de reinvenção, de força, e com o seu trabalho, espera criar reflexões sobre essa realidade: “se uma fotografia que eu fiz mudar um pouquinho o pensamento de alguém, fizer pessoas olharem questões, paisagens, acontecimentos e situações com novos olhos de empatia, de acolhimento e de compreensão, isso pra mim já é tudo”, comenta.

Para Douglas, ver de perto o trabalho desenvolvido pela Redes na Maré muda a vida das pessoas. “Diversas vezes eu me emocionei com histórias e trajetórias que se entrelaçam com o trabalho da Redes, acompanhando atividades da instituição e reportagens do Jornal Maré de Notícias.” A mais recente situação de emoção para ele foi na instalação de placas na Favela da Galinha: “dois meninos se abraçaram e comemoraram que a partir daquele momento a rua que eles moram passaria a ter um nome e uma placa. No momento o pessoal achou bobo, mas eu vi uma inocência, uma verdade e uma conquista ali naquele abraço”, conta.

Na campanha ‘Maré Diz NÃO ao Coronavírus’, Douglas trabalhou pensando a comunicação e fazendo a cobertura fotográfica das ações. “Todo dia sair para fotografar, editar vídeo, pensar formas de comunicar as ações da Redes no território foi um novo desafio”.

Para o pós pandemia, o fotógrafo espera que as pessoas tenham aprendido a respeitar as diferenças, que tenham mais empatia umas com as outras e sejam mais tolerantes a fim de diminuir as desigualdades de nossa sociedade. Que a justiça de crimes praticados contra favelas e periferias desse país seja feita “e que favelades desse país nunca se esqueçam de que somos potência e jamais permitam que firam a nossa existência”. “Você nunca tem seus direitos, até que todos tenham seus direitos”, é a mensagem final de Douglas nesse Quem Tece a Redes, fala de Marsha P. Johnson, ativista trans de Nova Iorque, nos anos 60, importante lembrança nesta semana que marca o Orgulho LGBTQIA+.

 




 


Encontro de territórios e lutas

Carlos André do Nascimento Silva (45), mais conhecido como Cazé, nasceu em São Gonçalo, no bairro de Neves, e é formado em direito. A sua formação política se deu início em um grupo da Pastoral da Juventude da igreja católica, movimento muito comum na década de 80. Após ter passado por algumas experiências profissionais em escritórios, chegou à Redes da Maré em 2009, para uma vaga no setor financeiro administrativo que estava em formação na época. Até então, conhecia o território apenas pelo trajeto cotidiano que fazia pela Av. Brasil.

Naquela época, Cazé era estagiário e rodava o estado do Rio. “Nesse período eu não tinha noção da quantidade enorme de histórias fortes e o quanto esse território é dominado por gente potente”, afirma. Era a primeira vez que ele entrava na Maré e o que mais impactou foi o tamanho e estrutura do comércio local, além da “barreira imaginária daqueles que moram e de quem não mora na Maré”. Apesar da formação política iniciada ainda na juventude, antes de trabalhar na Redes da Maré, ele não conhecia os impactos do trabalho realizado por uma organização social: “com o tempo fui entendendo o impacto positivo que elas causam na estrutura do lugar e na vida das pessoas. Beneficiários ou colaboradores. Além de provocar e cobrar, constantemente, o Estado na realização legal do seu papel”.

Apesar do debate racial sempre estar presente nos projetos da Redes da Maré, foi em uma provocação feita por Cazé, em um encontro interno com tecedores em 2019, que surgiu a ideia da Casa Preta da Maré. A Casa tem como objetivo criar um espaço de formação teórica-metodológica e política para trabalhar as questões étnico raciais na Maré, como forma de enfrentar o racismo estrutural que caracteriza a sociedade brasileira. “Entendi que era hora de sugerir a aplicação permanente deste debate para que ele se torne mais amplo (...) Oxalá, daqui um tempo sejam formadas novas lideranças negras da Maré para promoção de debates de enfrentamento ao racismo estrutural, ao racismo recreativo, para promoção da saúde do homem negro, e outras pautas caras desse tema.”

Durante a campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’, Cazé trabalhou na gestão dos projetos e das doações que recebemos de pessoas físicas e empresas para compra e distribuição das cestas básicas, material de segurança e higienização. “Assim como todos, fiquei assustado com as incertezas do futuro, paranóico com a saúde, e tentando dar conta de uma demanda urgente com leveza e empenho. Pensar na transformação a partir do coletivo é o caminho possível para passarmos por esse momento”, comenta.

Cazé chama a atenção para o trabalho do Espaço Normal e a entrega das cartas pelas crianças da Maré para o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, como ações que representam bem a caminhada da Redes da Maré de pensar em mudanças estruturais e que provocam o poder público a cumprir seu papel de cuidar da cidade. Para o futuro, ele torce para que a cidade se torne menos agressiva e mais acolhedora, “espero que a alegria volte, e que ela venha transformada para melhor e seja ampliada para todos. Que possamos valorizar e ter mais carinho pela vida e pelo outro.”

 




 


Produzindo conhecimento e vivências

Camila Barros (33) é mãe do Arthur e Guilherme, assistente social, graduada e mestre pela Universidade Federal Fluminense e doutoranda na UFRJ - a primeira pessoa da família a ingressar em uma universidade pública. A moradora do Mutuá, em São Gonçalo, conheceu a Redes da Maré também em um espaço acadêmico, no Núcleo de Ensino e Pesquisa Sobre Favelas e Espaços Populares (NEPEFE) e em 2019 passou a fazer parte da equipe do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, onde hoje coordena a frente de produção de conhecimento.

“Qualquer produção de conhecimento só é válida se fizer sentido na realidade” é uma das reflexões feitas pela assistente social que acompanha e sistematiza a produção dos dados dos importantes Boletins Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça. Antes de vir para a Redes da Maré, Camila atuou na política de assistência social de São Gonçalo e Duque de Caxias e também no Centro de Cidadania LGBT de Niterói. Também teve uma relação muito próxima com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST, a partir de uma ocupação que aconteceu em São Gonçalo.

A primeira coisa que Camila relata que viu na Maré quando chegou aqui foi gente. “Muita gente!”. Comércio, crianças, moto, feira, “a favela nunca para. Todo o tempo tem uma diversidade de pessoas tentando ganhar a vida e sobreviver de diferentes formas”. E a possibilidade de aprender, produzir conhecimento a partir dessa realidade do território e conseguir mensurar resultados positivos, é o que motiva a pesquisadora no trabalho na Maré. “Acho que a política de segurança pública atravessa todas as outras políticas e todas as dimensões da vida de quem vive o cotidiano da Maré”, complementa, sobre a atuação com segurança pública no território.

No início da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus Camila trabalhou nas ligações de agendamento para entrega de cestas de alimentos e kits de higiene e limpeza, e respondendo às demandas do canal do WhatsApp criado naquele momento para comunicação com os moradores; fez atendimentos presenciais no Centro de Artes da Maré, participou da entrega de cestas, das entrevistas sociais com as famílias. “A campanha me deu a possibilidade de conhecer outras Marés e ter a dimensão real dos impactos da pandemia, não só na saúde, mas em todas as dimensões da vida das pessoas”. Para Camila a campanha mostrou também o quanto o trabalho coletivo tem uma potência incrível e a Redes da Maré foi gigante neste processo.

Mas a maior parte da energia da tecedora foi dedicada à produção das mais de 34 edições do “Boletim De Olho no Corona!”, que apresenta dados e análises sobre o comportamento do vírus e impactos da pandemia no Conjunto de Favelas da Maré. “O processo do boletim talvez tenha sido um dos maiores desafios para mim. A pandemia é extremamente dinâmica e a produção de conteúdo também precisava ser”.

“Acho que mais para frente vamos poder colocar um marco da Redes antes e depois da campanha.” Para Camila, a Redes da Maré já era uma instituição de referência no planejamento e execução de diversas ações em favelas na cidade. A base comunitária e a metodologia que envolve produção de conhecimento, mobilização, atendimento e incidência política é o grande diferencial da instituição, de acordo com ela. Mas a pandemia e consequentemente as respostas que foram criadas para minimizar os impactos para os moradores, tornou a Redes ainda maior, não só no sentido de acessar um número maior de pessoas, mas de mobilização e de fortalecimento dos laços da instituição com o território.

 




 


Arte que transforma

Marcos Diniz (34) é um escritor e ator mareense, nascido e criado no Parque União. A primeira aproximação com a Redes da Maré aconteceu na oficina de extensão da Cia Marginal, companhia que tem uma trajetória marcada pelo compromisso político de levar a arte da favela para o resto da cidade, do país e até do mundo, e que deu origem ao Grupo Atiro. Hoje, ele trabalha como assistente de produção e mediação cultural no Centro de Artes da Maré, espaço que é sede da Cia.“ O Centro de Arte é de certa forma um oásis para o território”, resume.

A participação na oficina não foi a única experiência de Marcos em projetos sociais. Ele integrou o “Rap da Saúde”, um projeto de promoção de saúde voltado para jovens; o projeto internacional chamado Bairros do Mundo, que consistia em criar ações e dar voz aos jovens em seus territórios; fez um curso de monitores e estagiou no Museu da Vida, na Fiocruz e foi jovem promotor de saúde do projeto Adolescentro, projeto que o levou a conhecer e participar das oficinas de artes da Redes, segundo ele.

Porém, antes mesmo de acessar o Centro de Artes para participar da formação em teatro, Marcos já frequentava o espaço para assistir espetáculos com amigos e via o equipamento como um “local para ter acesso à arte”. Esse reconhecimento é o que continua motivando o ator a integrar o trabalho dessa equipe. “Sendo uma pessoa da arte, fico extremamente feliz e realizado em ver que no território da Maré existe um espaço que pensa e propõe levar arte para a favela em que ele está inserido, já que não é toda favela que tem um local que possa proporcionar cultura aos seus moradores.”

Marcos destaca também a importância do investimento em arte nos territórios periféricos. "Nas favelas se produz teatro, música, literatura, audiovisual, artesanato, grafite, gastronomia, design, costura e muito mais coisas", enfatiza o escritor. “Somos potência, e mais que tudo, fazemos resistência com a nossa arte, então mais do que nunca acredito que devemos investir na arte e na cultura nas favelas”. Para ele é importante que a cidade passe a consumir também o que a favela produz, e não apenas o movimento contrário que geralmente é pensado.

Na campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, Marcos trabalhou junto à coordenadora do eixo Arte, Cultura, Memórias e Identidades, Pâmela Carvalho, no acompanhamento e recebimento diário das doações. Também participou do atendimento ao público, e da entrega de cestas de alimentos e kits de higiene e limpeza. Ele conta que mesmo já tendo experiência de trabalhar com o público, foi desafiador e gratificante lidar com as pessoas numa situação de extrema fragilidade e necessidade: “para mim foi atravessador em muitos aspectos. Tinha dias que era impossível sair a mesma pessoa que eu era quando cheguei”. Para Marcos, era impossível não refletir sobre o quanto aquele território está abandonado pelo Estado.

O ator e escritor acredita que a Redes da Maré tem desenvolvido um papel importante de transformação do território em um lugar de direitos assegurados, e espera que com esse trabalho a Maré passe por menos danos, neste período difícil. Anseia pelo momento em que moradores e artistas da Maré possam retornar com segurança a ocupar o Centro de Artes da Maré e espera conseguir estar perto da família o mais breve possível. “Que consigamos usar nossa indignação para lutarmos por tempos melhores e que não fiquemos conformados”, finaliza.

 




 


Sabor e a tradição para romper com as desigualdades

Mariana Aleixo (33) nasceu no Parque Maré e, a partir da vivência com o território, fez suas escolhas acadêmicas e profissionais. Uma das mais antigas lembranças de Mariana são temperadas com o sabor e a tradição de uma cultura muito predominante na Maré: a de reunir e celebrar com a comida nordestina: “meus pais foram empreendedores da Maré, então eu e meus irmãos sempre estivemos juntos com eles na loja ou na casa dos nossos avós, que era temperada de comida nordestina.”

Logo após finalizar a graduação em gastronomia, trabalhou em restaurantes que atendiam a um público com uma realidade bem diferente da Maré. Essa experiência provocou Mariana a pensar em outras alternativas de atuação com a profissão e possibilitou também a aproximação com a Redes da Maré. Em 2010, começou a ministrar oficinas de gastronomia para moradoras, o que se transformou em seguida no curso de qualificação Maré de Sabores. De um grupo de alunas da primeira turma do curso nasceu o buffet Maré de Sabores, “que reconhece como as mulheres estão em um processo de tomar de volta nosso protagonismo na manutenção das culturas, e que inclui uma alimentação ligada a nossa ancestralidade”, comenta Mariana. “Investir nas mulheres da Maré é estruturalmente romper com as desigualdades” 

Mariana destaca o protagonismo das mulheres na garantia de direitos nas favelas, inclusive na segurança alimentar, sobretudo neste momento em que a situação de muitas famílias é muito grave. Esse cenário também motivou a Redes da Maré a criar a Casa das Mulheres da Maré, espaço que desenvolve atividades de qualificação profissional, enfrentamento das violências contra as mulheres, acolhimento psicológico, atendimento sociojurídico e pesquisas que visam transformar em dados o cotidiano da mulher da Maré, espaço co-coordenado também por Mariana. “É urgente potencializarmos economicamente as mulheres. Dessa forma, poderemos ter mais autonomia, ampliar possibilidade de escolhas e reivindicar acesso à uma alimentação saudável e romper com ciclos de violências.”

Na Campanha “Maré diz Não ao Coronavírus”, Mariana coordenou as ações desenvolvidas pela Casa das Mulheres da Maré e pelo Maré de Sabores. Mulheres que já trabalhavam nas atividades da casa e voluntárias produziram 65 mil refeições que foram distribuídas para a população em situação de rua na Maré. A distribuição das refeições continua em 2021, dentro do acompanhamento oferecido pelo projeto Conexão Saúde, no qual o Maré de Sabores acompanha e garante alimentação saudável para moradores.

A Mari ganhou um prêmio super importante pelo seu trabalho à frente do Maré de Sabores. Ela entrou na lista ‘50 Next’, que elege jovens que estão moldando o futuro da gastronomia. Em sua primeira edição, a iniciativa é promovida pelo World's 50 Best, considerado o Oscar do setor! Parabéns, Mari. Que continuemos lutando juntas!

 




 


O encontro de lutas

“Eu não nasci na Maré, mas renasci na Maré”, foi como Pamela Carvalho resumiu o encontro com o território. Ela nasceu no Morro do Juramento e veio morar na Maré já adulta. Residiu na Nova Holanda e no Parque União, onde vive há alguns bons anos, até hoje. Antes desse passo conhecia o território pelos bailes que frequentava. “O trabalho da Redes me fez mergulhar na Maré, e hoje sou cem por cento apaixonada por esse lugar e sem nenhuma pretensão de ir pra nenhum outro lugar do mundo”, comenta.

A historiadora e pesquisadora tem uma trajetória antiga de participação em movimentos sociais e de garantia de direitos. Desde o ensino médio, é muito engajada em movimentos pela garantia da educação, igualdade racial e de gênero. “Quando cheguei na Maré encontrei, dentre outras, uma luta com um histórico muito forte, muito potente: a luta por igualdade de direitos das populações de favelas, sobretudo da Maré”. Outra pauta importante para Pâmela é a garantia do direito à arte.

Foi por meio da arte, inclusive, que aconteceu a aproximação com a Redes da Maré. A primeira ocupação da educadora na organização foi no Centro de Artes da Maré, em uma exposição da escritora Conceição Evaristo, uma parceria com Itaú Cultural. Ela era responsável por receber os visitantes na exposição, principalmente grupos escolares: “foi a melhor porta de entrada para a Redes". Depois deste trabalho atuou como produtora do CAM, Coordenadora da Lona Cultural Municipal Herbert Vianna, e atualmente coordena o Eixo Arte e Cultura, Memórias e Identidades, da Redes da Maré

“Se eu pudesse sintetizar o trabalho da Redes da Maré em uma palavra seria ‘inspirador’. Para Pâmela, o trabalho da organização se tornou uma referência no Rio de Janeiro e no Brasil e hoje inspira outros coletivos, organizações e até mesmo o poder público a olhar os espaços de favelas em suas potências e na criação de metodologias de trabalho de extrema qualidade.

No começo de março do ano passado, Pâmela já estava trabalhando nas primeiras ações da campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’: “ainda estávamos entendendo o que seria o ano de 2020, o que seria a pandemia”. Ela trabalhou na recepção, contagem e armazenamento de doações, distribuição de álcool em gel e das cestas de alimentos e kits de higiene , e também na frente de apoio aos artistas da Maré com a coordenação da chamada pública ‘Novas Formas de Fazer Arte, Cultura e Comunicação nas Favelas'. Pâmela conta que viu e viveu muita coisa durante esse processo: “hoje não consigo andar na Maré sem ser reconhecida como uma pessoa que trabalha em uma instituição que está engajada em apoiar moradores e moradoras” e complementa “a Redes da Maré se engajou em apoiar a população, mas em dar autonomia também.”

Para Pamela é difícil prospectar o que vai ser do mundo no pós pandemia. “Espero que a sociedade passe a ver a favela como um lugar que cria metodologias que apoiam o país como um todo”, diz e reforça: “por muito tempo a sociedade viu a favela como um lugar dos grandes problemas sociais, mas foi das favelas que saíram as metodologias para garantia de segurança alimentar e estratégias de comunicação. Ao contrário do que se diz, as favelas são espaços propositores de soluções, não só para a favela, mas para a cidade como um todo”.

“Não nasci na Maré e renasci na Maré” porque foi o primeiro lugar onde me reconheci como mulher favelada e onde eu consegui consolidar um trabalho e ser conhecida por ele, finaliza a pesquisadora.

 





Juventude inquieta e mobilizada

Arthur Vianna é um jovem mareense de 23 anos. Morador da Nova Holanda, por boa parte da vida. A história do Arthur e da família perpassa a Redes da Maré inclusive no histórico de residência: a família morou na ocupação que hoje abriga o prédio da Redes da Maré - “minha ligação com esse lugar e essa instituição começou antes mesmo da Redes de Desenvolvimento da Maré existir”. A inquietação que move a luta de tantos moradores por direitos foi um dos sentimentos que moveu o jovem a trabalhar também por essa luta.

A mãe do Arthur, Fernanda Viana, também foi uma importante referência na trajetória de vida e trabalho do jovem. A assistente social que atualmente coordena o polo de testagem do projeto Conexão Saúde: de olho na covid, foi aluna do Curso Pré Vestibular da Redes da Maré, e levava o filho ainda adolescente para acompanhar as aulas. Arthur também participou do Curso Preparatório para o 6º ano. Mas foi um fruto da articulação de moradores, organizações locais e associações de moradores, pelo debate e construção de caminhos pelo direito à segurança pública na Maré, o Fórum Basta de Violência Outra Maré é Possível, que viabilizou a aproximação e convite para que ele integrasse a Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça. A mãe, Fernanda Viana, também foi a ponte para a aproximação com esse espaço de construção coletiva. “Desde então tem sido um desafio, mas principalmente uma honra poder fazer parte dos processos de luta em uma pauta tão importante”, comenta Arthur.

A partir do trabalho com o eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, Arthur destaca a importante atuação com o trabalho na mobilização das cartas da Maré, ação que tinha como objetivo cobrar do poder judiciário do Estado do Rio de Janeiro, a retomada da Ação Civil Pública da Maré e o fortalecimento e mobilização pela ADPF 635, ou ADPF das Favelas, em 2019. “Não existem palavras para mensurar o quão é gratificante para um jovem, preto e favelado está ocupando esses espaços que interferem diretamente na vida de pessoas como eu”.

Na campanha "Maré Diz NÃO ao Coronavírus", Arthur atuou na linha de frente do Centro de Artes da Maré, local central na logística da campanha, conferindo e controlando o carregamento dos carros e de cestas básicas. Atuou também na digitação do banco de dados das famílias apoiadas, entregou cestas básicas e kits de higiene e limpeza, realizou entrevistas sociais e supervisionou a execução de pesquisas sobre o impacto da pandemia na vida dos moradores. “Foi desafiador, obviamente, nunca tínhamos atuado com a frente de segurança alimentar. Mas era gratificante saber que estávamos conseguindo alcançar famílias que antes não se viam no escopo da instituição”, comenta o jovem. Para o pós pandemia Arthur espera que a população da Maré não só consiga acessar cada vez mais as oportunidades ofertadas pela Redes da Maré, mas que consigamos estar mobilizados para demandar nossos direitos.

 





Um encontro com a luta por direitos na Maré

Andreia Martins (49) chegou na Maré em fevereiro de 2001, direto da cerimônia de sua colação de grau na Graduação de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisadora em educação não conhecia nossa região e não tinha experiência em instituições da sociedade civil. Hoje, integra a direção da Redes da Maré e não se vê sem essa proximidade com o território: “sou muito grata a tudo e a todos que permitiram que eu fizesse parte desse projeto de luta e garantia de direitos para moradores da Maré”.

Andreia nasceu e cresceu em Duque de Caxias e ingressou na universidade aos 23 anos, depois de ter começado a trabalhar. Ela veio para a Maré para dar aulas de redação em algumas escolas daqui, e com essa oportunidade foi conhecendo o território e percebeu que sua trajetória na vida acadêmica foi parecida com a de muitos jovens mareenses. Fez mestrado na PUC-Rio, estudou qualidade de ensino, e também fez doutorado, sempre com base no trabalho ligado às questões da educação na Maré. Atualmente, acompanha os projetos de Educação da Redes da Maré, um eixo estruturante e ligado à origem da organização.

Durante a campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’, Andreia trabalhou em muitas frentes: ajudou as equipes do banco de dados, das entrevistas sociais e de captação de recursos, além de organizar e realizar entregas das cestas básicas e kits de limpeza. “Hoje, a Redes da Maré se consolidou como uma instituição de referência no setor para outras instituições que trabalham por um mundo mais justo”, comenta.

Mais do que o reconhecimento, para Andreia, a Redes da Maré é uma instituição legitimada pelos moradores da Maré. As iniciativas desenvolvidas pela organização seguem uma metodologia que inclui mobilização social e produção de conhecimento, “o que faz com que haja maior legitimidade no diálogo com o poder público e com parceiros que se sensibilizam e expressam o desejo de apoiar nossas ações”, observa a pesquisadora, e conclui: ”a Redes da Maré é gigante como a Maré, traz a potência e o poder de mobilização e de luta dos moradores.”

Nesse momento, com o aumento dos números de casos e de óbitos por COVID-19, para a pesquisadora, fica difícil pensar no que esperar do momento pós-pandemia pois teremos um longo caminho de luta contra a covid pela frente. Um agravante é um cenário ainda pior quanto a desigualdade social no país e no mundo. O que se espera é que a população de favelas e periferias sofra ainda mais com a negação de direitos básicos como moradia, saúde, educação, segurança pública. “Essa situação exigirá de todos aqueles que trabalham pela garantia de direitos mais articulação e trabalho em rede para, de forma coletiva, mitigarmos os efeitos devastadores que teremos nos próximos anos, não só por conta da pandemia mas por todo um contexto político nacional”. (Foto Yasmin Velloso / Fundo Malala)

 





Reconstrução pessoal e acadêmica

Maykon Sardinha (31) é cria da região que chamamos de “divisa”, entre a Nova Holanda e a Baixa do Sapateiro. Passou a primeira infância morando no Parque Maré, e depois, a partir de um processo de violência vivido naquela área e pela necessidade da mãe de trabalhar, se mudou para Baixa do Sapateiro, onde passou a maior parte da vida. Atualmente é morador da Vila do João, formado em Geografia pela PUC-Rio e pesquisador do projeto De Olho na Maré, do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré.

Com o fim da graduação, Maykon iniciou um mestrado na mesma universidade, porém a academia não foi o local onde se sentia confortável pelo “abismo muito grande entre teoria e prática” que encontrou. Foi em 2018 que entrou para a equipe de mobilização do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça. “De cara, foi a experiência que mais fazia sentido pra mim. A gente cresce na Maré com o peso de uma violência institucional que nos faz acreditar que um direito fundamental, como o direito à segurança pública, pode ser suprimido dentro da favela.” Segundo Maykon, o processo de sensibilização do tema dentro do território foi importante para uma reconstrução, pessoal e acadêmica. “Essa experiência me fez querer voltar para a academia e atualmente sou mestrando no programa de Saúde Pública na ENSP (Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca/Fiocruz).”

Logo no início da pandemia, Maykon atuou na distribuição de cestas básicas e kits de higiene por meio da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, junto às associações de moradores do Conjunto de Favelas da Maré. “Era um momento em que ninguém entendia muito bem toda a dimensão da pandemia”. O pesquisador apoiou também o desenvolvimento e organização do banco de dados de famílias que vivem em vulnerabilidade social e foram apoiadas pela campanha mobilizada pela Redes da Maré; e no atendimento presencial na central de distribuição das cestas. “Muitas coisas foram marcantes nesse processo, uma delas foi perceber que, mesmo após a flexibilização e a volta gradual das atividades econômicas, muitas famílias ainda dependeriam desse apoio. A pandemia intensificou as desigualdades sociais e colocou um número maior de famílias em situação de vulnerabilidade.“

Para Maykon, a campanha foi um processo desafiador, mas o resultado foi lindo. “A Redes, enquanto organização de base comunitária, mostrou a importância da atuação coletiva no território, juntando associações de moradores, coletivos, grupos, voluntários etc. e criando uma estratégia de enfrentamento dos impactos da pandemia que não existia”. Segundo Maykon a campanha também implicou numa maior visibilidade da Redes da Maré dentro do território.

A pandemia ainda não acabou e os efeitos dela vão se fazer sentir por muito tempo, como bem sabemos e repetimos e também afirma e lembra o jovem morador e tecedor da Redes da Maré. “No momento atual, é importante que a Redes continue apoiando nas necessidades mais urgentes, e, futuramente, construa estratégias de atuação que envolvam a superação da crise social que ficará como legado da pandemia”, finaliza.

 





Conhecer potências

Luna Arouca (33) fez serviço social na UFRJ e se envolveu com movimentos sociais, como o Movimento Sem Terra, ainda na universidade. Essas e outras experiências a levaram para trabalhar no Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, na área de política de drogas, colaborando com a formação inicial do grupo Drogas, Juventude e Favela, que acredita em uma nova política de drogas, e que também resultou em uma maior aproximação da assistente social com a Maré.

Foi em uma das articulação do Movimentos que Luna conheceu o trabalho ainda em construção do Espaço Normal. Logo em seguida, em maio de 2018, veio trabalhar no espaço para estruturar essa metodologia e relatou sua experiência:
“O trabalho no Espaço Normal é profundo. Trabalhar com pessoas que estão em situação de extrema vulnerabilidade exige ressignificar o nosso olhar, reconhecendo as especificidades e potenciais de cada um”. Para Luna, o processo de trabalho com o Espaço Normal possibilita uma escuta e visibilidade dos desejos e das demandas dessa população.

Na campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’, logo no início, ela trabalhou na entrega de cestas básicas e kits de higiene e quentinhas, e depois na articulação com Clínicas da Saúde, devido ao vínculo já construído com esses equipamentos públicos no território, antes da pandemia. Ajudou na construção do ‘Boletim De Olho no Corona’, e na criação da plataforma de atendimento online da Redes da Maré, que possibilitou um avanço muito importante na sistematização da comunicação com os moradores.

Com as cada vez maiores demandas de moradores por cuidados em saúde, a Redes da Maré também mobilizou parceiros para a criação do ‘Conexão Saúde: de olho na covid’, e a Luna foi peça fundamental nesse processo. “A organização da campanha exigiu muito esforço de todos os tecedores. Mas também produziu uma sensação de entrega. Na Redes, tive a oportunidade de sentir que a minha energia estava sendo útil para um trabalho de transformação, de impacto!”. Atualmente o projeto oferece testagem gratuita, teleatendimento médico e um programa com cuidados para o isolamento seguro de moradoras e moradores da Maré.

Pensando nos próximos passos, Luna acredita que “a Redes deve aproveitar a visibilidade já constituída, o envolvimento dos novos parceiros, para expandir suas ações e incidências para que os moradores da Maré tenham seus direitos garantidos”. Mas a expectativa da assistente social para os próximos meses ainda é de muito sofrimento e perdas. “Estamos tendo uma falta de coordenação a nível federal gigantesca que tem impactos negativos para a população de todo o Brasil. Espero que tudo isso que estamos vivendo agora nos dê forças e subsídios para seguir lutando e não permitir que isso aconteça novamente.”

 





Infância na Biblioteca

A jovem Lorena Froz (19) nasceu em Belém do Pará, e chegou na Maré ainda bebê. A família, natural do interior do Maranhão, buscava melhores condições de vida e oportunidades de emprego. Durante boa parte da infância, morou na Rua São Jorge, na Nova Holanda, e depois na Rua Principal, ambas bem próximas da sede da Redes da Maré. “A maior parte das minhas lembranças são com a Redes”, conta.

O primeiro contato que Lorena lembra de ter tido com a organização foi aos 9 anos. “Conheci a Redes no ano em que a Biblioteca Escritor Lima Barreto abriu. Na época em que nem existia ainda a sala de leitura infantil”. A jovem conta sobre sua paixão pela leitura e a dificuldade no acesso a livros, pois além do custo elevado, não existia, até então, uma biblioteca no território: “passei a ir todos os dias para a biblioteca. Na época eu já tinha lido quase todos os livros da sessão infanto-juvenil”.

Depois dessa intensa aproximação com a organização, ela não se afastou mais. Fez o Curso de inglês, de espanhol, de grafitti e de desenho. Lorena resolveu, então, se matricular no nosso Curso Preparatório para o Ensino Médio, uma decisão que gerou impactos positivos em sua vida acadêmica: em 2017 iniciou o Curso Técnico em Meio Ambiente no Colégio Pedro II.

Nos últimos anos, Lorena participou também do Festival WOW - Mulheres do Mundo, fazendo intervenções artísticas; do Projeto CRIA, quando conheceu o EcoMaré e o Muda Maré; e do Encontro de Saneamento na Maré, onde teve a oportunidade de conhecer profissionais que trabalhavam com sua pauta favorita. Em 2020, foi convidada para retornar aos espaços dos preparatórios da Redes da Maré, mas neste momento, como Educadora Ambiental do projeto: “Foi muito legal! Fiquei com o coração quentinho de dar esse retorno.”

Logo no início da campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’, Lorena também chegou junto para dar apoio: trabalhou na distribuição de cestas básicas e kits de higiene, no call center, colhendo informações e mantendo contato com moradores. Com o fim da campanha, participou do Lab de Memórias Ambientais, uma iniciativa que trouxe a importante pauta para o contexto de jovens da Maré, além de participar do Edital Maré que Queremos.

Atualmente, Lorena segue também na equipe do Maré Verde, projeto da Redes da Maré que tem como objetivo contribuir com a luta pela justiça ambiental por meio de diferentes abordagens. A jovem destaca o quanto a precariedade do saneamento básico na Maré contribuiu negativamente com o avanço da disseminação do vírus nesse momento de pandemia. “Tem gente aqui que até hoje não tem água encanada. Estamos em 2021 e ainda tem gente morrendo de doenças decorrentes da falta de saneamento e a gente só foi se dar conta disso recentemente. Espero muito que em um pós pandemia as pessoas continuem se preocupando com o meio ambiente como estão se preocupando agora.”

 





Memória e reconhecimento

Patricia Vianna (67) é educadora e uma das importantes memórias da Redes da Maré. Chegou na organização no fim do ano 2000 para trabalhar no Programa Criança Petrobrás (PCP), realizado na época com a Secretaria Municipal de Educação e com a Petrobras. O convite para participar do projeto veio da mãe de um aluno da escola onde trabalhava, mas o encontro com o território surgiu espontaneamente e perdura até hoje.

O que Patrícia conhecia da Maré, na época, era o que a mídia propagava - a violência e a ausência: “o que mais me marcou foi ver esse potencial humano enorme, dentro da Maré”, conta. Participar do Programa Criança Petrobrás também foi um marco na vida da educadora: “foi muito importante pra mim porque ele acontecia em várias favelas diferentes, então me fez conhecer de fato a Maré como ela é, conhecer a população, os moradores, um pouco da história de cada uma das comunidades e de fato quais são às demandas desse território”.

Depois dessa experiência Patrícia já colaborou com o trabalho de alguns eixos da Redes da Maré: fez parte do corpo da direção, foi secretária geral e atualmente coordena a articulação dos projetos em parceria com o Colégio João Borges de Moraes e o Curso de Espanhol, pelo Eixo Educação. Já pelo Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça coordena o Curso Falando Sobre Segurança Pública e colabora com os plantões em dias de operações policiais. “A gente vê que a falta da segurança pública interfere diretamente na vida das pessoas. É preciso que o estado do Rio de Janeiro repense suas estratégias de atuação dentro das favelas”.

Na campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’, ela trabalhou realizando ligações, verificando endereços, agendando entregas de cestas básicas e kits de higiene e limpeza, além de fazer entrevistas sociais com moradores. Para ela, esse contato direto, mesmo que remoto, foi o que mais marcou o trabalho. “Vi como o trabalho da Redes foi marcante, gratificante e importante nesse período da campanha. Entendo e gostaria que nem fosse necessária a existência de uma instituição como a Redes, que o poder público deveria estar fazendo esse trabalho.”

Para o futuro, Patrícia espera que a Redes da Maré continue trabalhando pela garantia dos direitos da população das 16 favelas da Maré. “Espero que a gente continue nosso trabalho, como a gente sempre fez, tentando contribuir para a garantia desses direitos para a população”.

 





Ampliando possibilidades

Myllene Fortunato (27), jornalista e assistente de coordenação da Casa das Mulheres da Maré é mais uma cria que tece nossa Redes da Maré! Ela morou na favela Rubens Vaz na infância e no Parque União até o ano passado. Costuma dizer que a sua trajetória começou na organização, pois como tantas jovens mareenses, foi aluna do nosso Preparatório do Ensino Médio e do Curso Pré Vestibular, garantindo acesso à ampliação de possibilidades escolares e de qualificação profissional.

Driblar dificuldades históricas é comum para muitas mulheres que vivem em favelas.

Myllene lida com essa realidade diariamente com o trabalho na Casa das Mulheres da Maré - espaço concebido pela Redes da Maré para fomentar o protagonismo das mulheres da região. “Acredito que o principal significado de trabalhar em um espaço como a Casa das Mulheres é o acolhimento que conseguimos dar para elas. Não só quando elas vêm com suas demandas no atendimento, mas também quando passam pela casa e querem apenas conversar. É saber que temos na Maré um local de troca que atua em várias frentes contribuindo para o protagonismo dessas mareenses”.

Durante a pandemia Myllene também trabalhou bem próxima de mulheres mareenses que fizeram diferença na vida de muitos. Ela fez parte da ação “Tecendo Máscaras e Cuidados” que compôs a frente de Geração de Renda da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus. “Ter participado dessa frente e ter me envolvido com essas 54 costureiras da Maré, me fez ver um potencial que nem eu mesma havia percebido em mim. A pandemia nos fez mais sensíveis e passamos a ter mais cuidado com o próximo e essas mulheres me ensinaram muito com suas histórias de vida.“ Foram 54 mulheres da Maré que produziram mais de 200 mil máscaras que foram distribuídas no território.

“Não só hoje, mas sempre, a Redes é fundamental para a população mareense”. Para Myllene a organização acaba assumindo demandas como geração de renda, educação, cultura, que deveriam ser supridas no território por meio de políticas públicas específicas e neste período de pandemia isso ficou muito evidente. “Essa articulação de entrega de cestas básicas, geração de emprego para mulheres produzirem máscaras, por exemplo, foi a salvação para muitas famílias, onde em muitas delas, todas as pessoas ficaram desempregadas”.

Para o pós-pandemia, Myllene espera que possamos seguir com todo aprendizado que esse momento nos trouxe. ”Nunca levamos tão a sério o ato de cuidar de si, e principalmente, do próximo. Mesmo sabendo que dentro de uma favela é quase impossível seguir com todas as recomendações. Mas conseguimos nos reinventar.”





Sempre presente na trajetória

Liliane Santos (32), é cria da Maré (da Baixa do Sapateiro) e já começa o papo desse ‘Quem tece a Redes’ falando sobre a importância do território na formação da sua identidade. A assistente social trabalhou em outras favelas como Acari e Vila Cruzeiro, mas retornou para a Maré em 2018 para desenvolver o trabalho com o Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça. Liliane é uma das tecedoras da Redes da Maré que acompanhou boa parte do processo de construção e desenvolvimento das nossas lutas: trabalhou e fez parte de diversos projetos e também reconhece a importância da Redes da Maré na sua trajetória.

Liliane foi jovem aprendiz, técnica na equipe de monitoramento e avaliação, entrevistadora do censo de empreendimentos, supervisora de campo, digitadora, técnica de extração e análise de dados, estagiária, assistente social e atualmente é coordenadora do Maré de Direitos, projeto do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça que busca interferir nas práticas sociais que dificultam o acesso à justiça das moradoras e moradores das Maré. Como aluna, participou das oficinas do programa de criança da Petrobras, fez preparatório para as escolas técnicas e foi aluna do pré vestibular. “A redes sempre esteve presente na minha trajetória de vida", destaca.

A escolha profissional também teve ligação com o trabalho da Redes da Maré. Quando aluna, a família foi acompanhada por assistentes sociais que acolheram um cenário que fragiliza muitas estruturas familiares em favelas e periferias: o alcoolismo. Ela lembra do processo de fortalecimento da autonomia da mãe, ajudado pelas profissionais.”Eu também queria fazer a diferença na vida das pessoas, às vezes a pessoa que chega para atendimento não precisa de muito, precisa de uma palavra, precisa ser ouvida e foi assim minha inspiração pela profissão.

"Acredito na potência institucional da Redes, vivi muitas coisas marcantes nessa organização, mas nada se compara à experiência da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavirus”. Para Liliane, essa campanha veio à tona para nos mostrar o quanto o trabalho da Redes da Maré e a capacidade de se reinventar durante os desafios pode nos surpreender. “Foi impressionante como em pouco tempo as equipes se organizaram e conseguiram construir métodos de atendimento aos moradores que nem existiam. Essa experiência foi surpreendente”. Na campanha, ela trabalhou na produção das listas de entregas, na organização das equipes e no atendimento aos moradores. “Estar presencialmente no fronte sempre me fazia pensar que não tínhamos escolha, pois diversas famílias dependiam do que estávamos fazendo naquele momento, ali tínhamos a dimensão do quão necessário era esse trabalho”.

Para um momento pós pandemia, a assistente social espera que não esqueçamos apenas do quanto perdemos, mas também do quanto aprendemos. “Lavar as mãos nunca foi tão importante, pensar em higienização, pensar em desemprego, em fome e em tudo que se complexificou durante a pandemia” e conclui: “não esquecer nos preparará para outros desafios, mas sobretudo não esquecer sempre mostrará para a Redes da Maré o quanto é fundamental e necessário se reinventar diante dos desafios que surgirem daqui pra frente."

 





Acompanhando o desenvolvimento da Maré

Elisangela Rangel (40) nasceu no Hospital Federal de Bonsucesso na década de 80. Ela é filha de um carioca que, como muitos, veio morar na Maré por conta da remoção da Favela do Esqueleto (espaço onde existe atualmente a Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ), e uma paraibana. Elisangela participou do Curso Pré Vestibular da Redes da Maré, fez curso de línguas, sempre participou de atividades e ações, e conta que acompanha as lutas que movem a organização até mesmo antes disso tudo, desde sua infância.

Uma das memórias mais antigas da mareense é a participação do pai e tia nas reuniões que aconteciam na Escola Nova Holanda, convocada por mulheres e moradores da Maré para organização e mobilização das lutas por melhores condições de vida para o território. Desde então, ela acompanha o trabalho da Eliana Sousa, diretora da Redes da Maré. Para ela, essas mobilizações são responsáveis pelo notável desenvolvimento da Maré: “eu lembro quando aqui só existiam 6 favelas: Parque União, Nova Holanda, Baixa, Morro do Timbau, Vila do João e Vila dos Pinheiros. Tínhamos muito pouco. Não existia acesso a equipamentos, como por exemplo a Vila Olímpica, e sei que isso tudo foi resultado da luta dessas pessoas”.  

Em 2013, quando buscava oportunidades de trabalho, entrou na equipe do nosso setor administrativo e financeiro, onde continua atuando. Na campanha, continuou trabalhando com as atividades do setor que foi um dos que não parou durante a pandemia. Também colaborou na digitação dos cadastros das famílias que receberam cestas, kits de limpeza e na distribuição de álcool em gel.

No início da pandemia, foi acometida pelo vírus. “A gente dá mais importância às coisas simples, aos pequenos detalhes”. Apesar de não ter confirmação pelo teste, teve todos os sintomas da covid-19, e como mora com a mãe, que é idosa, diabética, cardíaca e hipertensa, teve muito medo. 

Sobre a atuação da Redes da Maré durante o período da pandemia, Elisangela destaca: “foi um trabalho de excelência, se não fosse a Redes, muitas famílias estariam passando fome.” Ela se preocupa com a situação atual dessas famílias e os desafios que podem surgir nos próximos meses, sem políticas públicas que auxiliem e garantam o mínimo para a sobrevivência, como foi o auxílio emergencial do Governo Federal. “Eu só acredito na mudança pela luta dos moradores e organizações daqui que buscam pela nossa qualidade de vida”, destaca. 

 





Dançando em um ritmo diferente

Suelem Carvalho (22) é uma dançarina cria da Vila do João. O interesse pela dança surgiu ainda na infância, e foi o que a trouxe para perto da Redes da Maré: um amigo a indicou às aulas da Escola Livre de Dança da Maré, que acontecem no Centro de Artes da Maré. Em 2016, Suelem ingressou na turma no Núcleo 1 (turma aberta aos moradores com oficinas contínuas de dança de salão, dança de rua, dança contemporânea, ballet, yoga, consciência corporal e danças afro-brasileiras) e, pouco tempo depois, participou de uma audição para integrar o Núcleo 2 (aulas técnicas, profissionais e artísticas para jovens da Maré).


Logo no início da pandemia, Suelem se voluntariou para trabalhar na entrega de cestas com a campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’. Além da entrega, ela trabalhou atendendo moradores, realizando cadastros e descarregando os caminhões que chegavam com os insumos. Com o fim das entregas e a criação do Conexão Saúde: de olho na covid, Suelem foi convidada a participar do projeto como comunicadora do território, informando moradores sobre a realização dos testes gratuitos, o teleatendimento e também o apoio às famílias com casos de covid. “A campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’ nos fez ter novas perspectivas, nos direcionou para um outro olhar, nos fez entender a importância de ter políticas públicas voltadas para esse povo - para as pessoas da favela”, comentou.

Apesar de participar do Núcleo 2 e já ter sido aluna do curso de Educação para Jovens e Adultos (EJA) da Redes da Maré, ela contou que a campanha trouxe também a oportunidade de ter maior dimensão do trabalho desenvolvido pela organização e o papel dela como tecedora desse trabalho: “isso ampliou meu olhar de que eu posso, de que meu corpo pode ocupar vários lugares para além da dança, e que eu posso dançar em formas diferentes, em um ritmo diferente, para fora dos palcos”.

Suelem comentou que o que mais a marcou nesse processo com a campanha foi o valor e a importância que os moradores davam ao trabalho desenvolvido pela equipe, sobretudo com a entrega de cestas básicas. “A Redes ganhou uma nova dimensão, colocou uma semente que vai dar frutos inimagináveis agora e espero que eu seja um desses frutos que faça diferença na vida das pessoas”, complementa. “Que a gente tenha uma população mais consciente com relação ao cenário político que vivemos, sabendo a importância de escolher bem em quem votar. Não votar pensando nas dificuldades do agora, pensar no impacto que aquela escolha vai ter nas nossas vidas. Uma população mais consciente em relação ao seu lugar como cidadão.” Foi o que Suelem compartilhou sobre sua expectativa para o futuro e o pós pandemia, finalizando esse olhar de “quem tece”.

 





Mobilização que inspira

Luciene de Andrade (36), chegou na Maré em 2005 para desenvolver um trabalho voluntário na Creche Comunitária Cleia Santos de Oliveira, equipamento público presente no Maré pelo resultado da forte organização e mobilização comunitária do território. Essa mobilização foi o que encantou Luciene ao conhecer o Conjunto de Favelas da Maré, um processo de organização diferente da que ela já conhecia, “a riqueza de trocas entre a juventude, entre os moradores, a potência que existia na luta comunitária foi o meu grande encantamento com esse lugar”. 


A relação próxima da creche com a Redes da Maré possibilitou que ela conhecesse os cursos, ações e oportunidades da organização. Participou do curso de informática, aula de consciência corporal e dança de salão no Centro de Artes da Maré, e do Curso Pré Vestibular. Em 2014 foi convidada a integrar a equipe da Biblioteca Popular Escritor Lima Barreto, onde atua como coordenadora.

Apesar da relação com a Maré já existir desde o início do trabalho voluntário com a creche, foi em 2016 que Luciene decidiu também vir morar na Maré, na Nova Holanda. Mas foi ao longo da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus que Luciene acessou muitos lugares na Maré. Ela conta que circulava praticamente dentro de um mesmo eixo, pelas ruas do Parque União, Nova Holanda e Rubens Vaz. “A campanha me fez perceber o quanto a Maré é rica em sua diversidade, mas também senti o sofrimento das pessoas, ficou gritante a vulnerabilidade social em que muitas famílias se encontram”

E para Luciene, acessar essas famílias mais pobres, que já sofriam com a ausência de direitos e que se intensificou com a pandemia, também evidenciou a importância do trabalho da Redes da Maré e o legado de mobilização da organização que é muito importante para o território da Maré. “Fazer parte disso é extremamente gratificante e motivador como ser humano.” Na campanha Luciene trabalhou na entrega de álcool em gel nas residências, na entrega de cestas básicas e kits de higiene, fez entrevistas sociais por telefone e presencialmente. Para ela foi marcante a certeza de que todo o trabalho, mesmo com o cansaço físico e psicológico em meio a pandemia foi essencial e era necessário participar do trabalho na campanha, mesmo sabendo dos riscos de estar na linha de frente do contato com as pessoas: “hoje a gente grita pela vacina, mas naquele momento as famílias gritavam porque tinham fome”.

Para o futuro ela espera que esse mundo tão desigual e incoerente, seja mais justo, mais igualitário. Que as pessoas possam ter acesso à direitos básicos, que hoje ainda são negados, como o direito à alimentação. “Que a população da favela possa acessar lugares que hoje são negados e as pessoas possam valorizar coisas simples da vida como estar com os amigos, e familiares, tendo um olhar mais acolhedor e menos egoísta”.

 





Impulso para contribuir com a mudança

Eliana Sousa chegou na Nova Holanda numa época em só existiam seis, das 16 favelas da Maré. Veio de Serra Branca, cidade do interior da Paraíba que vivia uma forte seca no início da década de 70, época em que a família, composta pelos pais e mais 5 irmãos, veio para a Maré em busca de condições de vida mais favoráveis. Ao chegar no Rio, nesse movimento comum a tantas famílias nordestinas, Eliana sentiu o estranhamento da nova realidade, mas percebeu questões parecidas às do Nordeste, como a falta de água, de saneamento e eletricidade.


"Um desejo de contribuir para mudar determinados cenários que a gente encontra por conta da desigualdade social”. Assim Eliana classificou o impulso que a levou a se envolver com ativismo e lutas comunitárias. Sobre a campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’, ela conta que “quando a pandemia começou e as necessidades de distanciamento social foram colocadas, me preocupou o fato de muitas pessoas não terem condições mínimas para responder a essa demanda”.

Durante a pandemia, vindo todos os dias para dentro da campanha, Eliana acompanhou de perto uma parcela dessa população de mais de 140 mil moradores, desassistida pelo Estado. Vivenciar de perto o quanto as pessoas estavam precisando de ajuda no campo da segurança alimentar foi muito marcante para ela. Sobretudo, conhecendo mulheres que perderam seus trabalhos. “Ver que pessoas realmente estão passando fome, lidar com essas pessoas, ter que fazer escolhas, e ver que os governos não tiveram uma atuação robusta é muito cruel.”

Por outro lado, Eliana esteve com pessoas que viviam em situação de rua e que encontraram sentido para suas vidas; viu o envolvimento dos moradores que antes não se envolviam com questões sociais; percebeu o número de voluntários que apoiaram a campanha. Assim, acredita que o trabalho da Redes da Maré sai mais fortalecido desse período “pela articulação que a campanha possibilitou com algumas organizações, associações de moradores, coletivos e isso trouxe uma força importante para o trabalho.”

Para o futuro e um possível momento pós pandemia, Eliana espera que a gente consiga continuar a missão de pensar projetos estruturantes com mais experiência, clareza e engajamento. “Espero que a gente consiga manter a nossa capacidade de construir trabalhos e possibilidades juntos, de forma coletiva”.

 





Tecendo possibilidades

Maria Helena (33) é nordestina, assim como 25,8% dos moradores da Maré: veio da Paraíba para o Rio de Janeiro, em 2011. Chegou no Parque União para morar com os tios, buscando novas oportunidades de emprego e melhores condições de vida. Ela conheceu a Redes da Maré em 2015 a partir de um convite para fazer um sopão para frequentadores da cena de uso de crack, na Rua Flavia Farnese. Nesse mesmo ano, teve a oportunidade de iniciar o trabalho na organização colaborando com a equipe de apoio.


Em 2016, depois de fazer o Curso de Drywall da Redes da Maré, que tem como objetivo oferecer aos jovens uma qualificação técnica na área da construção civil, foi convidada para integrar a equipe da manutenção e se tornou a primeira mulher a trabalhar nessa função na organização. Com esse aprendizado e experiência, que inicialmente não estava nos planos da Helena, ela enxergou a possibilidade de trabalhar com manutenção de forma autônoma, fortalecendo outras pessoas e garantindo uma renda extra.

Helena conta que a campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’ foi uma oportunidade de conhecer mais da Maré, porque sua rotina ficava muito restrita ao trabalho e casa: “aprendi muitas coisas e vi de perto a necessidade das pessoas que moram aqui”. Ela trabalhou na distribuição das cestas básicas e kits de higiene e de limpeza e na descarga de doações que chegavam ao Centro de Artes da Maré. "Não foram uma nem duas cenas que marcaram, foram diversas em diferentes lugares: a esperança de muitas pessoas era que a gente chegasse com orientação, ajuda.” Ela reforça que a carência das pessoas, muitas vezes, não era só financeira, mas também afetiva.

Maria Helena conta sobre pessoas que fazem parte da organização e que ela acabou considerando como parte da família ao longo desses anos, e espera continuar nessa luta junto com elas. “No meu ponto de vista, a Redes não pode parar. É um trabalho fundamental e muito importante.” O que deseja para o futuro? Que a organização cresça e se expanda para ajudar muito mais pessoas. “Falar do futuro, às vezes, é complicado em meio às coisas que estamos vivendo, mas espero que eu possa contribuir de alguma forma com esse trabalho”. A gente também espera que vocês esteja conosco!

 





Família que incentiva

Paulinho, como é conhecido por nós, fez 53 anos recentemente. Nasceu na Nova Holanda, na rua 4. Com a perda do pai ainda bem jovem, passou um tempo morando fora, mas voltou em 1994. Chegou a morar na Vila do João e na Vila dos Pinheiros com os irmãos, para retornar à Nova Holanda, onde vive até hoje. Na Redes da Maré, ele começou em 2007, quando o prédio recém reformado ainda estava sendo organizado para o início das atividades: “Cheguei no dia 10 de fevereiro, véspera do Carnaval, as salas ainda estavam todas empoeiradas, um monte de cadeiras”. A família de Paulinho é grande como a de tantos mareenses. Mas certamente, para ele, cresceu com os amigos que fez durante esses 13 anos de trabalho na Redes da Maré. Na conversa para esse ‘Quem tece’, ele citou diversos tecedores que fizeram e fazem parte de sua vida em diversos momentos.   

 

Alguns professores e colaboradores foram os maiores incentivadores para que ele buscasse realizar um sonho pessoal e também da falecida mãe: a graduação. Porém, apesar de estar indo bem, abandonou o Curso Pré Vestibular por conta de questões pessoais. A vontade era de cursar Geografia ou Administração “trabalhando na Redes você vai vendo outras possibilidades”. Paulo destacou a importância do trabalho da ONG com o Curso Pré Vestibular, que ajudou muitos jovens a entrarem na faculdade e garantirem melhores condições de vida para si e muitas famílias: “hoje tem casas aqui que tem 3 ou 4 cursando a faculdade por conta do trabalho da Redes”. Esse ano ele se inscreveu no ENEM e não pretende desistir do sonho. Paulinho atualmente é um importante braço de apoio da Lona Cultural Municipal Herbert Vianna, administrada pela Redes da Maré.

Durante a campanha, atuou como suporte fixo na Lona, que também funcionou como base para distribuição de cestas básicas. “Eram centenas de famílias, mas atendemos todos com muita atenção e carinho, como sempre fizemos na organização. Foi maravilhoso! Foi um momento em que a gente começou a refletir e se aproximar do próximo, porque parece que as pessoas não se preocupavam com o que o próprio vizinho estava passando ou precisando”, reforçou.

Apesar do momento de incertezas, não só com a pandemia mas também pelas graves questões ambientais e de intolerância (como o racismo e o machismo), para o futuro, a expectativa de Paulo é de que as pessoas sigam se cuidando e cuidando do outro, que as coisas melhorem e que o trabalho de organizações como a Redes da Maré se fortaleça “se não tiver alguém pra resistir, a tendência seria piorar.”






Persistência nos sonhos

Zeneida Duarte (40) é mais uma das nossas tecedoras que tem a trajetória de vida acolhida no nosso território: é nascida e criada na Maré. Morou no Rubens Vaz por 18 anos, depois mudou-se para o Parque União, onde vive com o marido e dois filhos até o momento. Chegou na Redes da Maré em 2011, para colaborar com o nosso Censo Populacional e a partir dessa aproximação, iniciou no projeto Vínculos Solidários, trabalho que influenciou sua escolha acadêmica.  

 

Por necessidade da atenção aos filhos, Zeneida teve que se afastar dos estudos, mas com o início do trabalho na Redes da Maré, ela ingressou no Curso Pré Vestibular da Redes, em 2015. Nessa primeira tentativa, conciliar os estudos com as outras demandas de trabalho foi um desafio e não foi possível acessar a universidade. Em 2018, Zeneida decidiu tentar mais uma vez, com a companhia e incentivo da filha Giovana, que também prestaria vestibular naquele ano. O sonho de ingressar em uma graduação já existia em Zeneida, mas foi o trabalho com as visitas domiciliares a famílias do território no projeto Vínculos Solidários que a fez optar pelo curso de Serviço Social: “com as visitas domiciliares vi como era a vida das pessoas de verdade. VI a falta de direitos, muitas pessoas nem têm o conhecimento de que uma boa escola, um lazer são direitos’. “Consegui passar em 3º lugar em Serviço Social na UERJ, uma profissão que eu me identifico bastante”. Zeneida cursa no momento o 3º período do curso e faz parte de 2,3% da população mareense, que de acordo com o Censo Maré, ingressou no ensino superior.

No início da pandemia, logo no primeiro dia de entregas de cestas básicas, Zeneida chegou junto para colaborar. Porém a suspeita de um caso no trabalho do marido a obrigou a colaborar de casa. A vontade era grande de poder atuar na campanha: ”é um trabalho muito bonito, todo mundo se empenhando, isso contagia muito”. Com esse contratempo inicial ela realizou entrevistas sociais com famílias para recebimento das cestas básicas e cartões de alimentação, virtualmente.

Para a tecedora, esse momento que vivemos é de aprendizado. Oportunidade de olharmos para o outro de maneira diversa, sobretudo respeitando as diferenças. Sobre o trabalho da Redes da Maré, ela espera que os moradores se apropriem cada vez mais, para que também entendam seus direitos. O recado que deixa para todas e todos é que foi com persistência e perseverança que ela realizou sonhos de trabalhar com o que queria e ingressar na universidade, e esse é o caminho que ela acredita ser possível para conquistar objetivos.






Espírito coletivo que move

Carlos Marra (32) veio com a família do Espírito Santo para a Maré com apenas três anos de idade, e aqui construiu sua vida e traçou os objetivos pessoais que tanto reverberam no coletivo. Carlos colabora com o trabalho da Redes da Maré na gestão da Lona Cultural Municipal Herbert Vianna desde 2014. É produtor cultural e mobilizador territorial e foi eleito em 2019 como um dos conselheiros tutelares responsáveis pelo atendimento na região da Maré. 

 

Segundo Carlos, ele herdou do pai a característica de agregar pessoas. Já o senso político e ativista, da mãe, que participou inclusive da nossa importante e histórica “Chapa Rosa’. Pela experiência pessoal e também pela profissional, ele destaca o poder de influência que uma estrutura familiar tem na trajetória de crianças e adolescentes. O esporte também exerceu um papel muito significativo na vida do produtor, que lembra que frequenta a Vila Olímpica da Maré desde seus 11 anos. A noção de coletividade e colaboração vem dessa época, dos dois pilares na vida de Carlos - o esporte e a família, e ressoam muito no que hoje ele desenvolve como projeto profissional e prática pessoal: “não gosto de fazer nada sozinho, é muito mais potente e interessante quando a gente faz as coisas coletivamente”.

O gestor cultural fala sobre a importância de construir trabalhos que deem protagonismo às pessoas pretas, LGBTI e jovens de favelas e espaços periféricos: “meu trabalho dentro da Redes da Maré tem muito a ver com sacudir essas pessoas para que elas vejam as suas próprias potências”, comenta. No trabalho de conselheiro tutelar, que ele considera um marco em sua vida, Marra vê a possibilidade de acessar ferramentas para garantir o que já vinha realizando no trabalho com crianças e adolescentes.

Na campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, Carlos chegou logo no início, e trabalhou em algumas frentes: no recebimento dos insumos no Centro de Artes da Maré, na entrega de cestas básicas e nas entrevistas sociais. Sobre o trabalho desenvolvido pela organização: “a campanha fez com que a Redes chegasse em lugares e territórios que não tinha chegado antes”. Enquanto tecedor, Carlos acredita que podemos agregar mais aos moradores para que eles sejam protagonistas dos nossos projetos a partir da experiência com a campanha.

O que fica de aprendizado e expectativa para o futuro para Carlos é o autocuidado. Ele destaca o quanto é comum ver pessoas que trabalham com assistência ou com o cuidado com o outro esquecendo do autocuidado. A pandemia e a necessidade de trabalhar e olhar para o próximo o fez priorizar também o fortalecimento pessoal. Ele espera que cada vez mais a favela ocupe espaços de poder e de tomada de decisão “para que a gente mude efetivamente muitas coisas que estão sendo distribuídas de forma desigual e que não chegam para a nossa população”.






Transformação pessoal e profissional

Helio Euclides (46) é o nosso jornalista-memória. Ele chegou na organização junto com um dos primeiros projetos, o Nenhum a Menos, e segue na missão de informar e contar histórias sobre nosso território com o trabalho no Jornal Maré de Notícias. Dessa vez, a história que ele contou foi a dos laços que criou com a Redes da Maré e a transformação que esse trabalho proporcionou em sua vida pessoal e profissional. 

 

Helio nasceu no Hospital Federal de Bonsucesso, como muitos mareenses e viveu boa parte da vida na Rua Bela, no Parque Maré. Depois, se mudou para a Rua Ivanildo Alves, na Baixa do Sapateiro, e por último na Vila do Pinheiro. Foi a aproximação com o trabalho social que o fez optar pelo curso de jornalismo. Antes mesmo de trabalhar com o Maré de Notícias, Helio contribuiu com o jornal O Cidadão, ainda em formação na profissão.

Os principais momentos da vida profissional e pessoal Helio passou junto da organização, que ele considera como uma família. Ele também conheceu sua companheira no trabalho: Viviane coordenou o ‘Nenhum a Menos’ e o casamento aconteceu no ano que o jornalista começou a trabalhar na Redes, em 2008. “Eu me transformei muito na Redes. Eu e minha esposa nos conhecemos e crescemos aqui.” A filha deles, Angela Maria, herdou o espírito comediante do jornalista, ela brinca: “o que é um pontinho roxo na nova holanda? É a Redes da Maré”.

Durante a pandemia, Helio trabalhou com a produção de informações no Maré de Notícias e para ele o maior desafio foi o de transmitir as informações corretas diante de tanta novidade que o vírus trouxe para a vida das pessoas; além do combate às fakenews. Nos dias que colaborou com a distribuição de cestas básicas, também viu e ouviu coisas que o impactaram.

Para o jornalista, o trabalho da Redes da Maré é fundamental e preenche uma lacuna no território. “Quando se pensou da Maré ter UPP, ouvi que seria difícil porque aqui temos muitas instituições, como a Redes. E acho que elas têm um papel fundamental, pois os governantes não olham como deveriam para a Maré, falta muita coisa”. Helio destaca a pluralidade de organizações que atuam no território e contemplam iniciativas de esporte, educação, cultura, entre outras. Lembra que a Redes tem o diferencial de trabalhar com vários eixos, além da comunicação. Ele destaca um momento de extrema importância para o território que contou com a atuação da organização: a mobilização para garantia de mais escolas públicas, com o projeto Maré que Queremos.

Sobre o futuro, Helio avalia: “acho que o Brasil está dividido: existem pessoas que estão se cuidando, mas outras não. É muito difícil sabermos como tudo vai ser em 2021, mas economicamente vai ser muito ruim, o desemprego vai continuar sendo grande.” Vamos lutar juntos para melhorar esse cenário, Helio!






O olhar pelo cuidado

Kamila Camillo, 31 anos, é ‘cria’ da Maré e também da Redes. É moradora da Vila dos Pinheiros, mas foi na região mais conhecida como “Tijolinho”, na Nova Holanda, que passou a maior parte da vida. Depois de ter feito os cursos Preparatório para o 9º ano e Pré-Vestibular, ambos da Redes da Maré, veio trabalhar com a gente como secretária e agora integra, como psicóloga, o eixo Educação. Foi uma experiência na família, de síndrome do pânico, o principal fator para a sua escolha acadêmica e profissional. 

 

Para Kamila, a psicologia atravessa todas as outras atividades que desenvolve, como a fotografia, sua grande paixão. Na Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, conseguiu unir as duas atividades que mais gosta. Ela começou a atuar na organização e distribuição das cestas básicas e kits de limpeza e na digitação dos cadastros, até somar psicologia à fotografia em uma só ação: os registros fotográficos das entregas e a colheita de depoimentos de famílias. “Foi onde presenciei não só as entregas, como também as histórias”.

Kamila guarda muitos momentos sobre a pandemia e a campanha, que a transformaram. “O trabalho da Redes da Maré sempre tem um impacto no território, sempre vem para balançar algumas estruturas”. Ela acredita que durante esse período de campanha as pessoas entenderam que a Redes não é só um dispositivo que fica em determinado espaço da favela, é um lugar de acolhimento. Kamila destaca que a organização se transformou para combater o coronavírus, “foi criando vida e sentido” para as ações pensadas. “A Redes é uma mãe”, comenta”.

No futuro, a tecedora espera que as demandas mais emergenciais da população da Maré sejam atendidas. E lembra: “dentro dessa campanha eu vi a fome gritando de uma maneira muito forte”. O desejo da mareense para um momento pós-pandemia é que essa fome, que ela viu de perto, não exista mais. Kamila, vamos juntos nessa!






Trabalhar e acolher

Alessandra Lima (42) é o tipo de pessoa que não para. Assim como muitas mulheres mareenses, corre atrás de uma vida mais tranquila para ela e os dois filhos. Durante a pandemia esse espírito de arregaçar as mangas somou e fez a diferença para a Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus! E trabalhar na campanha também fez diferença na vida da Alê, ou como ela via o território.

 

Alessandra nasceu no Parque União e aos 7 anos foi morar com a família, na Vila dos Pinheiros, em uma das casas do Banco Nacional de Habitação (BNH), onde vive até hoje. Chegou na Redes da Maré, quando soube da vaga para trabalhar na equipe de apoio, por indicação do amigo e vizinho, o nosso colaborador Helio Euclides. Ele já conhecia uma qualidade da Alê que acabou ficando famosa aqui na Redes da Maré, o tempero da comida dessa mareense. 

“Antes de trabalhar aqui, eu nem conhecia o trabalho da Redes. Nunca me senti tão bem trabalhando em um lugar”, comenta ela, que em março completará três anos aqui com a gente. Além da segurança que sente por trabalhar perto de casa e ter sua renda própria, ela destaca a forma como é acolhida por todos, da direção aos visitantes: “aqui a gente se sente acolhida e abraçada pelas pessoas”. 

Durante a pandemia, Alê trabalhou na Casa das Mulheres da Maré na produção das refeições, que nesses últimos sete meses chegou a cerca de 50 mil e seguem sendo entregues à população em situação de rua. “Desde março, foi todo mundo somando junto. Ninguém correu de nada”. Uma das coisas que mais chamou a atenção dela durante a campanha foi esse espírito de trabalho com força e em conjunto. 

Tem sido marcante para ela também poder se aproximar e conhecer melhor a situação do território. Uma cena que a marcou muito foi durante a distribuição de cestas básicas, na Praia de Ramos: quando chegou em um prédio ocupado por muitas famílias, um menino, de cerca de 7 anos, comemorou demais a chegada dos alimentos. “Nem a gente que mora aqui sabe as condições que muitas famílias vivem”, desabafa. 

Com tudo o que ouviu e viu durante esses meses, o que Alê espera para o pós-pandemia é “que o ser humano seja mais compreensivo, mais amigo, que ajude mais o outro“ e que todo esse olhar de solidariedade continue. Tomara, Alê!






Garra para trabalhar pela Maré!

Elivanda Canuto (42), ou Vanda, chegou na Maré com 9 anos, mais precisamente na Vila do Pinheiro, e ali construiu sua vida. A cearense tem dois filhos e desejos pessoais em prol do coletivo. O trabalho como redutora de danos no Espaço Normal é um deles. Ela sempre quis ajudar pessoas, e poder fazer isso como trabalho, no território onde mora, faz toda a diferença.

 

Apesar do longo período morando na Maré, Vanda começou a circular nas outras favelas do território somente a partir do trabalho que iniciou em 2016, quando começou a trabalhar nas cenas de uso de drogas, locais que tinha medo de passar, como muitas pessoas. Foi através do Fórum de Drogas da Maré que conheceu o trabalho da Redes da Maré: “todos os espaços para pessoas que fazem uso abusivo de álcool e outras drogas são fora das favelas, ou seja, o acesso é mais difícil. Quando eu soube do Espaço Normal, me apaixonei pela ideia desde o início. Percebi que era onde eu queria estar”, comentou. E foi onde começou, em janeiro de 2019: “pra mim, é importante estar trabalhando no território onde eu moro, é o que eu preciso”.

O início da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, que já previa uma frente pra seguir acompanhando essa população, mesmo na rua, encheu a Vanda de medos e dúvidas sobre os riscos de trabalhar na rua, e a exposição que isso poderia representar para a própria família. Mas o passar dos dias e a sensação de que “não podia ficar em casa sabendo que tinham outras pessoas precisando” a fez arregaçar as mangas e ir para as ruas: “Eu tinha que estar na batalha pra ajudar as pessoas que não podiam se proteger”. Vanda segue trabalhando diretamente na prevenção com a população em situação de rua e nas cenas de uso de álcool e outras drogas da Maré - e dos beneficiários do Espaço Normal, agora que o espaço está fechado por conta da pandemia.

Ela nos contou um pouco das visitas que realizou para entender as condições em que alguns frequentadores do Espaço, que são domiciliados, se encontravam. Nessas visitas, viveu algumas das cenas que mais a marcaram nesse momento. "A desigualdade e a vulnerabilidade fazem com que o domiciliado prefira o Espaço (Normal) ou a própria rua”, destacou.

Antes da pandemia, Vanda já tinha iniciado um processo para conquistar outro objetivo que certamente será canal de mais frutos para a população da Maré: ela participava do Curso Pré-Vestibular da Redes da Maré, que não conseguiu dar continuidade durante a pandemia, mas pretende retornar. Vanda quer fazer faculdade de Serviço Social. E para os moradores da Maré, o que espera para frente: “que tenham mais garra, mais vontade de lutar pelo que é nosso de direito”. Que se inspirem em você, Vanda!

 






Ter noção na prática o que é ter empatia

O Eduardo da Silva é o tipo de cara que a gente pode chamar de “mareense raiz”: dos seus 53 anos de vida, apenas dois ele não viveu na Maré. Toda trajetória de vida do Edu, como é chamado, tem endereço na Rua das Rosas, na Nova Holanda. Também não é de hoje que ele conhece o trabalho da Redes da Maré: ele acompanha especialmente as lutas da nossa querida diretora Eliana Sousa Silva há muitos anos. O que é novidade na vida desse mareense é a possibilidade de ajudar pessoas.


“Sempre achei muito importante ajudar as pessoas, mas nunca tive oportunidade, mas foi muito gratificante poder ajudar”. Antes da pandemia ele trabalhava como cozinheiro, mas com o início das ações da campanha resolveu chegar junto para se voluntariar. Ele trabalhou abastecendo os carros e distribuindo cestas básicas e kits de higiene; recepcionando moradoras e moradores no centro de testagem; e agora é um dos articuladores das ações de isolamento seguro, do Conexão Saúde - de Olho na Covid.

Durante a nossa conversa, Edu enumerou alguns momentos marcantes ao longo do trabalho na campanha, sobretudo no contato com as famílias. Ele disse que com o trabalho que desenvolveu pôde “ter noção, na prática, o que é ter empatia”. Ele destacou uma situação em que o casal contou estar pedindo a Deus solução para o momento que viviam - os dois e mais três filhos não tinham nada dentro de casa para se alimentar quando a cesta básica chegou. “Trabalho desde os meus 9 anos de idade, sempre fui da paz. Esse período me transformou muito”.

Perguntamos para o Edu o que ele espera de um momento ‘pós-pandemia’: só espero que as pessoas sejam melhores umas com as outras. Ninguém vive sem o outro, mas as pessoas não entendem isso. A maioria só pensa em si próprio, é complicado demais. Não tenho nem palavras pra falar da Redes. O trabalho da Redes já era extraordinário, mas se superou, pois acolheu uma coisa que nem era da sua alçada”.

O Edu é mais uma das forças que foram fundamentais para o trabalho da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus. E por ele, a caminhada junto à Redes da Maré só está começando! Bom pra gente!

 






Equilibrando lutas

Fernanda Viana (40), mareense desde a barriga da mãe, começou na Redes da Maré em 2002 como aluna do Curso Pré-Vestibular, trazida pelo “sonho sempre pulsante” de fazer faculdade. Ao mesmo tempo que deixara esse sonho adormecido, os desafios e lutas como mulher, profissional e mãe de três filhos também foram as molas que a ajudaram a conquistá-lo. Esses obstáculos e inquietações a fizeram criar alternativas em casa com os cuidados de três filhos, Arthur, Fernanda e Fernando, e se encontrar na faculdade de Serviço Social. A rede de apoio e de cuidados que ela teve em casa e a ajuda de vizinhos fez toda a diferença. Fernanda nos brinda com suas visões, hoje atuando no nosso eixo de Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça.


Assim que a pandemia se instaurou no Rio de Janeiro, Fernandinha sentiu que quando o vírus chegasse na Maré, ia dar de cara com a ausência de políticas públicas para as demandas do território. Então, não teve dúvidas: chegou junto, logo ali em março, para somar na campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’. Passou por diversas frentes: atendimento ao público no Centro de Artes da Maré, atendimento do Maré de Direitos, distribuição e organização da logística das cestas básicas e kits de higiene, fez visitas domiciliares, colaborou na organização do banco de dados e, por fim, em ações de saúde na Maré.

A tecedora achou positiva e de muita sensibilidade a iniciativa da Redes da Maré de atuar, desde o início da pandemia, para amenizar os danos da insegurança alimentar. Mesmo tendo nascido e vivido toda a vida na Maré, esse tempo de trabalho com a campanha a fez perceber que esse momento evidenciou muitas mazelas que existem aqui e a importância desse trabalho para tantas pessoas. “A minha vida toda foi permeada por uma rede de cuidados, que me garantiu, inclusive, a sobrevivência em muitos momentos. Ter essa rede de apoio é muito importante para o favelado, mas e quando esta também está fragilizada, quem te assiste? Infelizmente não foi o Estado, que era quem deveria ter feito. Fomos nós mesmos, que fizemos com muita boa vontade”, comentou.

Para Fernandinha, foi uma surpresa boa ser convidada para assumir a coordenação do polo de testagem do Conexão Saúde - de Olho na Covid, projeto realizado em parceria com outras organizações. Mas foi seu empenho e vontade de fazer e fortalecer seu caminho que a fez conquistar esse lugar. Na Redes da Maré e em casa. Ela conta com orgulho que agora é a outra Fernandinha, sua filha de 12 anos, que chama a sua atenção para muitas questões sociais. Arthur Viana, seu filho mais velho, também está nesse caminho e integra o eixo como mobilizador territorial.

É impossível para Fernandinha sair desse momento de pandemia da mesma forma que entrou. Ela destacou a percepção sobre como lidamos com o próximo. “Olhar o outro tá sendo diferente na pandemia”. Apesar de não estar otimista com o cenário pós-pandemia, ela espera que os sentimentos de empatia e paciência permaneçam: “que a gente passe junto e nos cuidando”.

 




Gratidão que inspira

O recifense José Gerson da Silva (39) é mareense desde os 5 anos de idade, morador da Vila do Pinheiro. Há 2 anos, perdeu um membro da sua família e acabou se afastando da convivência com seu próprio território. Mas a aproximação com a campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus o fez repensar sua presença e relações com a Maré.


Gerson trabalhou como motorista nas entregas e agora acompanha a equipe nas visitas às famílias com pacientes de Covid-19 pelo Conexão Saúde - de Olho na Covid. Não se vê voltando à atividade de pedreiro, que tinha antes da pandemia. Ele conta que o trabalho na campanha o fez “abrir e ocupar a mente”, o transformou e o fez enxergar como havia pessoas precisando de ajuda na Maré.

A gratidão que as pessoas demonstram ao receber apoio tem feito ele querer continuar com este trabalho. Para Gerson, é difícil explicar quanto mudou a forma como ele vê a Maré e as pessoas. Fazia tempo que o medo e a falta de vontade o impediam de circular pela Maré - e hoje é o que ele mais faz. Além de circular, ver e conhecer mais pessoas, ele contou o quanto tem aprendido todo dia com o trabalho.

Apesar do Gerson já conhecer o trabalho da Redes da Maré, por meio de sua esposa que trabalha no Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, foi a possibilidade de colaborar na campanha, a partir da pandemia, que o aproximou do nosso trabalho e também da luta pela garantia de direitos. Mas a gente conhece bem a história dele. Ele é marido da Bruna Silva e pai do menino Marcus Vinícius, que foi morto durante uma operação policial na Maré, em 2018. Gerson, contar com o seu trabalho fortaleceu não só a você, como a todos nós. Seguimos juntos pela garantia de direitos na Maré!

 




Transformar e reconhecer

Joelma Sousa está há 10 anos na Redes da Maré. Chegou pelo Censo Maré e não saiu mais. “A Redes traz pra gente, pra quem é da Maré, e pra quem também não é, aquela sensação de amor eterno”, foi assim que a assistente social resumiu a relação dela com a organização. Joelma é nascida e criada na Maré. Já foi moradora da Nova Holanda e do Parque Maré. E foi durante a pandemia que ela descobriu mais sobre si, e, sobretudo, sobre a importância e impacto do trabalho que desenvolve.


Ela fez de tudo um pouco na Campanha 'Maré diz NÃO ao Coronavírus', coordenou o trabalho de desinfecção das ruas da Maré e se aplicou na gestão da equipe social, no atendimento de algumas demandas importantes, como as que exigiram visitas domicilares. E foi aí que percebeu que precisava, inclusive, fazer cada vez mais por pessoas como aquelas com quem teve contato.

Joelma conta que saiu de uma dessas visitas muito afetada pela vulnerabilidade econômica, emocional e até física de uma mãe que havia perdido seu filho recentemente. Aquele momento fez ela reconhecer que o trabalho feito por ela e pela Redes da Maré ia muito além de ações para o enfrentamento da crise gerada pela pandemia. Ela percebeu que seu papel ali representava também um lugar de escuta.

O que Joelma espera para o pós-pandemia é que os direitos, garantidos pela nossa Constituição, sejam efetivados: “a Redes da Maré me transformou na pessoa e na profissional que eu sou hoje, nas ‘Joelmas’ que sou hoje. Espero ser uma profissional de excelência, uma moradora de referência. Que tudo que a Maré me deu, eu dê de volta”. Falamos pra ela: você já é, Joelma!

 




Mudança de caminhos e vistas

Leonardo da Silva (35) é amante de história. E ele contou pra gente a dele. A vida de muita gente mudou um pouco nesses últimos seis meses. Para o Leo, como todo mundo por aqui conhece ele, a principal mudança vem logo no começo do dia, quando amanhece e a visão dele é outra, agora que ele tem um espaço para chamar de seu, depois de viver em condição de rua por um tempo. O Leo conheceu o trabalho da Redes da Maré através do Espaço Normal. Há dois anos, ele frequenta o espaço, que acolhe pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas, muitas das quais vivem em situação de rua, por meio de uma agenda sobre práticas de redução de danos. Ele também participava da distribuição do Maré de Notícias, quando a pandemia começou.


No início da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, o Léo foi chegando devagar, começou como voluntário e passou por algumas frentes da campanha, descarregando os carros e caminhões e apoiando na entrega das cestas. A primeira intenção dele era garantir uma refeição em troca do trabalho. Mas ‘agora é tudo novo’, ele contou pra gente: ‘o fato de você não acordar com a luz do sol no seu rosto faz diferença’.

Faz três meses que o Leo conseguiu alugar a casa dele, na Teixeira Ribeiro, a partir do trabalho da campanha. E o que mais marcou ele foi ter sido recebido como ‘benção’ por uma senhora na Vila do Pinheiro, quando ele chegou com a entrega de uma cesta básica. O Leo é uma das histórias de quem vem tecendo o trabalho da Redes da Maré e que iremos contar por aqui. Acompanhe, fique por dentro e saiba mais!
Conheça o nosso Espaço Normal e o jornal Maré de Notícias.

 

 

 

 

 

Projeto editorial e edição: Andréa Blum • Fotos: Douglas Lopes e Kamilla Camilo 

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