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Quem Tece a Redes

Por Jéssica Pires

Esta é a coluna Quem tece a Redes, um compilado das histórias de pessoas que constroem a nossa organização e que tecem todos os dias o que fazemos de melhor: ações e projetos para moradores da Maré. Conheça aqui essas histórias, trajetórias, experiências e a própria história da Redes da Maré - e como esse trabalho e os desafios enfrentados a partir da pandemia os têm transformado.

 

 

 


Ter noção na prática o que é ter empatia

O Eduardo da Silva é o tipo de cara que a gente pode chamar de “mareense raiz”: dos seus 53 anos de vida, apenas dois ele não viveu na Maré. Toda trajetória de vida do Edu, como é chamado, tem endereço na Rua das Rosas, na Nova Holanda. Também não é de hoje que ele conhece o trabalho da Redes da Maré: ele acompanha especialmente as lutas da nossa querida diretora Eliana Sousa Silva há muitos anos. O que é novidade na vida desse mareense é a possibilidade de ajudar pessoas.

“Sempre achei muito importante ajudar as pessoas, mas nunca tive oportunidade, mas foi muito gratificante poder ajudar”. Antes da pandemia ele trabalhava como cozinheiro, mas com o início das ações da campanha resolveu chegar junto para se voluntariar. Ele trabalhou abastecendo os carros e distribuindo cestas básicas e kits de higiene; recepcionando moradoras e moradores no centro de testagem; e agora é um dos articuladores das ações de isolamento seguro, do Conexão Saúde - de Olho na Covid.

Durante a nossa conversa, Edu enumerou alguns momentos marcantes ao longo do trabalho na campanha, sobretudo no contato com as famílias. Ele disse que com o trabalho que desenvolveu pôde “ter noção, na prática, o que é ter empatia”. Ele destacou uma situação em que o casal contou estar pedindo a Deus solução para o momento que viviam - os dois e mais três filhos não tinham nada dentro de casa para se alimentar quando a cesta básica chegou. “Trabalho desde os meus 9 anos de idade, sempre fui da paz. Esse período me transformou muito”.

Perguntamos para o Edu o que ele espera de um momento ‘pós-pandemia’: só espero que as pessoas sejam melhores umas com as outras. Ninguém vive sem o outro, mas as pessoas não entendem isso. A maioria só pensa em si próprio, é complicado demais. Não tenho nem palavras pra falar da Redes. O trabalho da Redes já era extraordinário, mas se superou, pois acolheu uma coisa que nem era da sua alçada”.

O Edu é mais uma das forças que foram fundamentais para o trabalho da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus. E por ele, a caminhada junto à Redes da Maré só está começando! Bom pra gente!

 






Equilibrando lutas

Fernanda Viana (40), mareense desde a barriga da mãe, começou na Redes da Maré em 2002 como aluna do Curso Pré-Vestibular, trazida pelo “sonho sempre pulsante” de fazer faculdade. Ao mesmo tempo que deixara esse sonho adormecido, os desafios e lutas como mulher, profissional e mãe de três filhos também foram as molas que a ajudaram a conquistá-lo. Esses obstáculos e inquietações a fizeram criar alternativas em casa com os cuidados de três filhos, Arthur, Fernanda e Fernando, e se encontrar na faculdade de Serviço Social. A rede de apoio e de cuidados que ela teve em casa e a ajuda de vizinhos fez toda a diferença. Fernanda nos brinda com suas visões, hoje atuando no nosso eixo de Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça.

Assim que a pandemia se instaurou no Rio de Janeiro, Fernandinha sentiu que quando o vírus chegasse na Maré, ia dar de cara com a ausência de políticas públicas para as demandas do território. Então, não teve dúvidas: chegou junto, logo ali em março, para somar na campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’. Passou por diversas frentes: atendimento ao público no Centro de Artes da Maré, atendimento do Maré de Direitos, distribuição e organização da logística das cestas básicas e kits de higiene, fez visitas domiciliares, colaborou na organização do banco de dados e, por fim, em ações de saúde na Maré.

A tecedora achou positiva e de muita sensibilidade a iniciativa da Redes da Maré de atuar, desde o início da pandemia, para amenizar os danos da insegurança alimentar. Mesmo tendo nascido e vivido toda a vida na Maré, esse tempo de trabalho com a campanha a fez perceber que esse momento evidenciou muitas mazelas que existem aqui e a importância desse trabalho para tantas pessoas. “A minha vida toda foi permeada por uma rede de cuidados, que me garantiu, inclusive, a sobrevivência em muitos momentos. Ter essa rede de apoio é muito importante para o favelado, mas e quando esta também está fragilizada, quem te assiste? Infelizmente não foi o Estado, que era quem deveria ter feito. Fomos nós mesmos, que fizemos com muita boa vontade”, comentou.

Para Fernandinha, foi uma surpresa boa ser convidada para assumir a coordenação do polo de testagem do Conexão Saúde - de Olho na Covid, projeto realizado em parceria com outras organizações. Mas foi seu empenho e vontade de fazer e fortalecer seu caminho que a fez conquistar esse lugar. Na Redes da Maré e em casa. Ela conta com orgulho que agora é a outra Fernandinha, sua filha de 12 anos, que chama a sua atenção para muitas questões sociais. Arthur Viana, seu filho mais velho, também está nesse caminho e integra o eixo como mobilizador territorial.

É impossível para Fernandinha sair desse momento de pandemia da mesma forma que entrou. Ela destacou a percepção sobre como lidamos com o próximo. “Olhar o outro tá sendo diferente na pandemia”. Apesar de não estar otimista com o cenário pós-pandemia, ela espera que os sentimentos de empatia e paciência permaneçam: “que a gente passe junto e nos cuidando”.

 




Gratidão que inspira

O recifense José Gerson da Silva (39) é mareense desde os 5 anos de idade, morador da Vila do Pinheiro. Há 2 anos, perdeu um membro da sua família e acabou se afastando da convivência com seu próprio território. Mas a aproximação com a campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus o fez repensar sua presença e relações com a Maré.

Gerson trabalhou como motorista nas entregas e agora acompanha a equipe nas visitas às famílias com pacientes de Covid-19 pelo Conexão Saúde - de Olho na Covid. Não se vê voltando à atividade de pedreiro, que tinha antes da pandemia. Ele conta que o trabalho na campanha o fez “abrir e ocupar a mente”, o transformou e o fez enxergar como havia pessoas precisando de ajuda na Maré.

A gratidão que as pessoas demonstram ao receber apoio tem feito ele querer continuar com este trabalho. Para Gerson, é difícil explicar quanto mudou a forma como ele vê a Maré e as pessoas. Fazia tempo que o medo e a falta de vontade o impediam de circular pela Maré - e hoje é o que ele mais faz. Além de circular, ver e conhecer mais pessoas, ele contou o quanto tem aprendido todo dia com o trabalho.

Apesar do Gerson já conhecer o trabalho da Redes da Maré, por meio de sua esposa que trabalha no Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, foi a possibilidade de colaborar na campanha, a partir da pandemia, que o aproximou do nosso trabalho e também da luta pela garantia de direitos. Mas a gente conhece bem a história dele. Ele é marido da Bruna Silva e pai do menino Marcus Vinícius, que foi morto durante uma operação policial na Maré, em 2018. Gerson, contar com o seu trabalho fortaleceu não só a você, como a todos nós. Seguimos juntos pela garantia de direitos na Maré!

 




Transformar e reconhecer

Joelma Sousa está há 10 anos na Redes da Maré. Chegou pelo Censo Maré e não saiu mais. “A Redes traz pra gente, pra quem é da Maré, e pra quem também não é, aquela sensação de amor eterno”, foi assim que a assistente social resumiu a relação dela com a organização. Joelma é nascida e criada na Maré. Já foi moradora da Nova Holanda e do Parque Maré. E foi durante a pandemia que ela descobriu mais sobre si, e, sobretudo, sobre a importância e impacto do trabalho que desenvolve.

Ela fez de tudo um pouco na Campanha 'Maré diz NÃO ao Coronavírus', coordenou o trabalho de desinfecção das ruas da Maré e se aplicou na gestão da equipe social, no atendimento de algumas demandas importantes, como as que exigiram visitas domicilares. E foi aí que percebeu que precisava, inclusive, fazer cada vez mais por pessoas como aquelas com quem teve contato.

Joelma conta que saiu de uma dessas visitas muito afetada pela vulnerabilidade econômica, emocional e até física de uma mãe que havia perdido seu filho recentemente. Aquele momento fez ela reconhecer que o trabalho feito por ela e pela Redes da Maré ia muito além de ações para o enfrentamento da crise gerada pela pandemia. Ela percebeu que seu papel ali representava também um lugar de escuta.

O que Joelma espera para o pós-pandemia é que os direitos, garantidos pela nossa Constituição, sejam efetivados: “a Redes da Maré me transformou na pessoa e na profissional que eu sou hoje, nas ‘Joelmas’ que sou hoje. Espero ser uma profissional de excelência, uma moradora de referência. Que tudo que a Maré me deu, eu dê de volta”. Falamos pra ela: você já é, Joelma!

 




Mudança de caminhos e vistas

Leonardo da Silva (35) é amante de história. E ele contou pra gente a dele. A vida de muita gente mudou um pouco nesses últimos seis meses. Para o Leo, como todo mundo por aqui conhece ele, a principal mudança vem logo no começo do dia, quando amanhece e a visão dele é outra, agora que ele tem um espaço para chamar de seu, depois de viver em condição de rua por um tempo. O Leo conheceu o trabalho da Redes da Maré através do Espaço Normal. Há dois anos, ele frequenta o espaço, que acolhe pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas, muitas das quais vivem em situação de rua, por meio de uma agenda sobre práticas de redução de danos. Ele também participava da distribuição do Maré de Notícias, quando a pandemia começou.

No início da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, o Léo foi chegando devagar, começou como voluntário e passou por algumas frentes da campanha, descarregando os carros e caminhões e apoiando na entrega das cestas. A primeira intenção dele era garantir uma refeição em troca do trabalho. Mas ‘agora é tudo novo’, ele contou pra gente: ‘o fato de você não acordar com a luz do sol no seu rosto faz diferença’.

Faz três meses que o Leo conseguiu alugar a casa dele, na Teixeira Ribeiro, a partir do trabalho da campanha. E o que mais marcou ele foi ter sido recebido como ‘benção’ por uma senhora na Vila do Pinheiro, quando ele chegou com a entrega de uma cesta básica. O Leo é uma das histórias de quem vem tecendo o trabalho da Redes da Maré e que iremos contar por aqui. Acompanhe, fique por dentro e saiba mais!
Conheça o nosso Espaço Normal e o jornal Maré de Notícias.

 

 

Projeto editorial e edição: Andréa Blum • Fotos: Douglas Lopes e Kamilla Camilo 

 

 

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