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Quem Tece a Redes

Por Jéssica Pires

Esta é a coluna Quem tece a Redes, um compilado das histórias de pessoas que constroem a nossa organização e que tecem todos os dias o que fazemos de melhor: ações e projetos para moradores da Maré. Conheça aqui essas histórias, trajetórias, experiências e a própria história da Redes da Maré - e como esse trabalho e os desafios enfrentados a partir da pandemia os têm transformado.

 

 

 


Mobilização que inspira

Luciene de Andrade (36), chegou na Maré em 2005 para desenvolver um trabalho voluntário na Creche Comunitária Cleia Santos de Oliveira, equipamento público presente no Maré pelo resultado da forte organização e mobilização comunitária do território. Essa mobilização foi o que encantou Luciene ao conhecer o Conjunto de Favelas da Maré, um processo de organização diferente da que ela já conhecia, “a riqueza de trocas entre a juventude, entre os moradores, a potência que existia na luta comunitária foi o meu grande encantamento com esse lugar”. 

A relação próxima da creche com a Redes da Maré possibilitou que ela conhecesse os cursos, ações e oportunidades da organização. Participou do curso de informática, aula de consciência corporal e dança de salão no Centro de Artes da Maré, e do Curso Pré Vestibular. Em 2014 foi convidada a integrar a equipe da Biblioteca Popular Escritor Lima Barreto, onde atua como coordenadora.

Apesar da relação com a Maré já existir desde o início do trabalho voluntário com a creche, foi em 2016 que Luciene decidiu também vir morar na Maré, na Nova Holanda. Mas foi ao longo da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus que Luciene acessou muitos lugares na Maré. Ela conta que circulava praticamente dentro de um mesmo eixo, pelas ruas do Parque União, Nova Holanda e Rubens Vaz. “A campanha me fez perceber o quanto a Maré é rica em sua diversidade, mas também senti o sofrimento das pessoas, ficou gritante a vulnerabilidade social em que muitas famílias se encontram”

E para Luciene, acessar essas famílias mais pobres, que já sofriam com a ausência de direitos e que se intensificou com a pandemia, também evidenciou a importância do trabalho da Redes da Maré e o legado de mobilização da organização que é muito importante para o território da Maré. “Fazer parte disso é extremamente gratificante e motivador como ser humano.” Na campanha Luciene trabalhou na entrega de álcool em gel nas residências, na entrega de cestas básicas e kits de higiene, fez entrevistas sociais por telefone e presencialmente. Para ela foi marcante a certeza de que todo o trabalho, mesmo com o cansaço físico e psicológico em meio a pandemia foi essencial e era necessário participar do trabalho na campanha, mesmo sabendo dos riscos de estar na linha de frente do contato com as pessoas: “hoje a gente grita pela vacina, mas naquele momento as famílias gritavam porque tinham fome”.

Para o futuro ela espera que esse mundo tão desigual e incoerente, seja mais justo, mais igualitário. Que as pessoas possam ter acesso à direitos básicos, que hoje ainda são negados, como o direito à alimentação. “Que a população da favela possa acessar lugares que hoje são negados e as pessoas possam valorizar coisas simples da vida como estar com os amigos, e familiares, tendo um olhar mais acolhedor e menos egoísta”.

 





Impulso para contribuir com a mudança

Eliana Sousa chegou na Nova Holanda numa época em só existiam seis, das 16 favelas da Maré. Veio de Serra Branca, cidade do interior da Paraíba que vivia uma forte seca no início da década de 70, época em que a família, composta pelos pais e mais 5 irmãos, veio para a Maré em busca de condições de vida mais favoráveis. Ao chegar no Rio, nesse movimento comum a tantas famílias nordestinas, Eliana sentiu o estranhamento da nova realidade, mas percebeu questões parecidas às do Nordeste, como a falta de água, de saneamento e eletricidade.

"Um desejo de contribuir para mudar determinados cenários que a gente encontra por conta da desigualdade social”. Assim Eliana classificou o impulso que a levou a se envolver com ativismo e lutas comunitárias. Sobre a campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’, ela conta que “quando a pandemia começou e as necessidades de distanciamento social foram colocadas, me preocupou o fato de muitas pessoas não terem condições mínimas para responder a essa demanda”.

Durante a pandemia, vindo todos os dias para dentro da campanha, Eliana acompanhou de perto uma parcela dessa população de mais de 140 mil moradores, desassistida pelo Estado. Vivenciar de perto o quanto as pessoas estavam precisando de ajuda no campo da segurança alimentar foi muito marcante para ela. Sobretudo, conhecendo mulheres que perderam seus trabalhos. “Ver que pessoas realmente estão passando fome, lidar com essas pessoas, ter que fazer escolhas, e ver que os governos não tiveram uma atuação robusta é muito cruel.”

Por outro lado, Eliana esteve com pessoas que viviam em situação de rua e que encontraram sentido para suas vidas; viu o envolvimento dos moradores que antes não se envolviam com questões sociais; percebeu o número de voluntários que apoiaram a campanha. Assim, acredita que o trabalho da Redes da Maré sai mais fortalecido desse período “pela articulação que a campanha possibilitou com algumas organizações, associações de moradores, coletivos e isso trouxe uma força importante para o trabalho.”

Para o futuro e um possível momento pós pandemia, Eliana espera que a gente consiga continuar a missão de pensar projetos estruturantes com mais experiência, clareza e engajamento. “Espero que a gente consiga manter a nossa capacidade de construir trabalhos e possibilidades juntos, de forma coletiva”.

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Tecendo possibilidades

Maria Helena (33) é nordestina, assim como 25,8% dos moradores da Maré: veio da Paraíba para o Rio de Janeiro, em 2011. Chegou no Parque União para morar com os tios, buscando novas oportunidades de emprego e melhores condições de vida. Ela conheceu a Redes da Maré em 2015 a partir de um convite para fazer um sopão para frequentadores da cena de uso de crack, na Rua Flavia Farnese. Nesse mesmo ano, teve a oportunidade de iniciar o trabalho na organização colaborando com a equipe de apoio.

Em 2016, depois de fazer o Curso de Drywall da Redes da Maré, que tem como objetivo oferecer aos jovens uma qualificação técnica na área da construção civil, foi convidada para integrar a equipe da manutenção e se tornou a primeira mulher a trabalhar nessa função na organização. Com esse aprendizado e experiência, que inicialmente não estava nos planos da Helena, ela enxergou a possibilidade de trabalhar com manutenção de forma autônoma, fortalecendo outras pessoas e garantindo uma renda extra.

Helena conta que a campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’ foi uma oportunidade de conhecer mais da Maré, porque sua rotina ficava muito restrita ao trabalho e casa: “aprendi muitas coisas e vi de perto a necessidade das pessoas que moram aqui”. Ela trabalhou na distribuição das cestas básicas e kits de higiene e de limpeza e na descarga de doações que chegavam ao Centro de Artes da Maré. "Não foram uma nem duas cenas que marcaram, foram diversas em diferentes lugares: a esperança de muitas pessoas era que a gente chegasse com orientação, ajuda.” Ela reforça que a carência das pessoas, muitas vezes, não era só financeira, mas também afetiva.

Maria Helena conta sobre pessoas que fazem parte da organização e que ela acabou considerando como parte da família ao longo desses anos, e espera continuar nessa luta junto com elas. “No meu ponto de vista, a Redes não pode parar. É um trabalho fundamental e muito importante.” O que deseja para o futuro? Que a organização cresça e se expanda para ajudar muito mais pessoas. “Falar do futuro, às vezes, é complicado em meio às coisas que estamos vivendo, mas espero que eu possa contribuir de alguma forma com esse trabalho”. A gente também espera que vocês esteja conosco!

 

 





Família que incentiva

Paulinho, como é conhecido por nós, fez 53 anos recentemente. Nasceu na Nova Holanda, na rua 4. Com a perda do pai ainda bem jovem, passou um tempo morando fora, mas voltou em 1994. Chegou a morar na Vila do João e na Vila dos Pinheiros com os irmãos, para retornar à Nova Holanda, onde vive até hoje. Na Redes da Maré, ele começou em 2007, quando o prédio recém reformado ainda estava sendo organizado para o início das atividades: “Cheguei no dia 10 de fevereiro, véspera do Carnaval, as salas ainda estavam todas empoeiradas, um monte de cadeiras”. A família de Paulinho é grande como a de tantos mareenses. Mas certamente, para ele, cresceu com os amigos que fez durante esses 13 anos de trabalho na Redes da Maré. Na conversa para esse ‘Quem tece’, ele citou diversos tecedores que fizeram e fazem parte de sua vida em diversos momentos.   

 

Alguns professores e colaboradores foram os maiores incentivadores para que ele buscasse realizar um sonho pessoal e também da falecida mãe: a graduação. Porém, apesar de estar indo bem, abandonou o Curso Pré Vestibular por conta de questões pessoais. A vontade era de cursar Geografia ou Administração “trabalhando na Redes você vai vendo outras possibilidades”. Paulo destacou a importância do trabalho da ONG com o Curso Pré Vestibular, que ajudou muitos jovens a entrarem na faculdade e garantirem melhores condições de vida para si e muitas famílias: “hoje tem casas aqui que tem 3 ou 4 cursando a faculdade por conta do trabalho da Redes”. Esse ano ele se inscreveu no ENEM e não pretende desistir do sonho. Paulinho atualmente é um importante braço de apoio da Lona Cultural Municipal Herbert Vianna, administrada pela Redes da Maré.

Durante a campanha, atuou como suporte fixo na Lona, que também funcionou como base para distribuição de cestas básicas. “Eram centenas de famílias, mas atendemos todos com muita atenção e carinho, como sempre fizemos na organização. Foi maravilhoso! Foi um momento em que a gente começou a refletir e se aproximar do próximo, porque parece que as pessoas não se preocupavam com o que o próprio vizinho estava passando ou precisando”, reforçou.

Apesar do momento de incertezas, não só com a pandemia mas também pelas graves questões ambientais e de intolerância (como o racismo e o machismo), para o futuro, a expectativa de Paulo é de que as pessoas sigam se cuidando e cuidando do outro, que as coisas melhorem e que o trabalho de organizações como a Redes da Maré se fortaleça “se não tiver alguém pra resistir, a tendência seria piorar.”







Persistência nos sonhos

Zeneida Duarte (40) é mais uma das nossas tecedoras que tem a trajetória de vida acolhida no nosso território: é nascida e criada na Maré. Morou no Rubens Vaz por 18 anos, depois mudou-se para o Parque União, onde vive com o marido e dois filhos até o momento. Chegou na Redes da Maré em 2011, para colaborar com o nosso Censo Populacional e a partir dessa aproximação, iniciou no projeto Vínculos Solidários, trabalho que influenciou sua escolha acadêmica.  

 

Por necessidade da atenção aos filhos, Zeneida teve que se afastar dos estudos, mas com o início do trabalho na Redes da Maré, ela ingressou no Curso Pré Vestibular da Redes, em 2015. Nessa primeira tentativa, conciliar os estudos com as outras demandas de trabalho foi um desafio e não foi possível acessar a universidade. Em 2018, Zeneida decidiu tentar mais uma vez, com a companhia e incentivo da filha Giovana, que também prestaria vestibular naquele ano. O sonho de ingressar em uma graduação já existia em Zeneida, mas foi o trabalho com as visitas domiciliares a famílias do território no projeto Vínculos Solidários que a fez optar pelo curso de Serviço Social: “com as visitas domiciliares vi como era a vida das pessoas de verdade. VI a falta de direitos, muitas pessoas nem têm o conhecimento de que uma boa escola, um lazer são direitos’. “Consegui passar em 3º lugar em Serviço Social na UERJ, uma profissão que eu me identifico bastante”. Zeneida cursa no momento o 3º período do curso e faz parte de 2,3% da população mareense, que de acordo com o Censo Maré, ingressou no ensino superior.

No início da pandemia, logo no primeiro dia de entregas de cestas básicas, Zeneida chegou junto para colaborar. Porém a suspeita de um caso no trabalho do marido a obrigou a colaborar de casa. A vontade era grande de poder atuar na campanha: ”é um trabalho muito bonito, todo mundo se empenhando, isso contagia muito”. Com esse contratempo inicial ela realizou entrevistas sociais com famílias para recebimento das cestas básicas e cartões de alimentação, virtualmente.

Para a tecedora, esse momento que vivemos é de aprendizado. Oportunidade de olharmos para o outro de maneira diversa, sobretudo respeitando as diferenças. Sobre o trabalho da Redes da Maré, ela espera que os moradores se apropriem cada vez mais, para que também entendam seus direitos. O recado que deixa para todas e todos é que foi com persistência e perseverança que ela realizou sonhos de trabalhar com o que queria e ingressar na universidade, e esse é o caminho que ela acredita ser possível para conquistar objetivos.







Espírito coletivo que move

Carlos Marra (32) veio com a família do Espírito Santo para a Maré com apenas três anos de idade, e aqui construiu sua vida e traçou os objetivos pessoais que tanto reverberam no coletivo. Carlos colabora com o trabalho da Redes da Maré na gestão da Lona Cultural Municipal Herbert Vianna desde 2014. É produtor cultural e mobilizador territorial e foi eleito em 2019 como um dos conselheiros tutelares responsáveis pelo atendimento na região da Maré. 

 

Segundo Carlos, ele herdou do pai a característica de agregar pessoas. Já o senso político e ativista, da mãe, que participou inclusive da nossa importante e histórica “Chapa Rosa’. Pela experiência pessoal e também pela profissional, ele destaca o poder de influência que uma estrutura familiar tem na trajetória de crianças e adolescentes. O esporte também exerceu um papel muito significativo na vida do produtor, que lembra que frequenta a Vila Olímpica da Maré desde seus 11 anos. A noção de coletividade e colaboração vem dessa época, dos dois pilares na vida de Carlos - o esporte e a família, e ressoam muito no que hoje ele desenvolve como projeto profissional e prática pessoal: “não gosto de fazer nada sozinho, é muito mais potente e interessante quando a gente faz as coisas coletivamente”.

O gestor cultural fala sobre a importância de construir trabalhos que deem protagonismo às pessoas pretas, LGBTI e jovens de favelas e espaços periféricos: “meu trabalho dentro da Redes da Maré tem muito a ver com sacudir essas pessoas para que elas vejam as suas próprias potências”, comenta. No trabalho de conselheiro tutelar, que ele considera um marco em sua vida, Marra vê a possibilidade de acessar ferramentas para garantir o que já vinha realizando no trabalho com crianças e adolescentes.

Na campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, Carlos chegou logo no início, e trabalhou em algumas frentes: no recebimento dos insumos no Centro de Artes da Maré, na entrega de cestas básicas e nas entrevistas sociais. Sobre o trabalho desenvolvido pela organização: “a campanha fez com que a Redes chegasse em lugares e territórios que não tinha chegado antes”. Enquanto tecedor, Carlos acredita que podemos agregar mais aos moradores para que eles sejam protagonistas dos nossos projetos a partir da experiência com a campanha.

O que fica de aprendizado e expectativa para o futuro para Carlos é o autocuidado. Ele destaca o quanto é comum ver pessoas que trabalham com assistência ou com o cuidado com o outro esquecendo do autocuidado. A pandemia e a necessidade de trabalhar e olhar para o próximo o fez priorizar também o fortalecimento pessoal. Ele espera que cada vez mais a favela ocupe espaços de poder e de tomada de decisão “para que a gente mude efetivamente muitas coisas que estão sendo distribuídas de forma desigual e que não chegam para a nossa população”.







Transformação pessoal e profissional

Helio Euclides (46) é o nosso jornalista-memória. Ele chegou na organização junto com um dos primeiros projetos, o Nenhum a Menos, e segue na missão de informar e contar histórias sobre nosso território com o trabalho no Jornal Maré de Notícias. Dessa vez, a história que ele contou foi a dos laços que criou com a Redes da Maré e a transformação que esse trabalho proporcionou em sua vida pessoal e profissional. 

 

Helio nasceu no Hospital Federal de Bonsucesso, como muitos mareenses e viveu boa parte da vida na Rua Bela, no Parque Maré. Depois, se mudou para a Rua Ivanildo Alves, na Baixa do Sapateiro, e por último na Vila do Pinheiro. Foi a aproximação com o trabalho social que o fez optar pelo curso de jornalismo. Antes mesmo de trabalhar com o Maré de Notícias, Helio contribuiu com o jornal O Cidadão, ainda em formação na profissão.

Os principais momentos da vida profissional e pessoal Helio passou junto da organização, que ele considera como uma família. Ele também conheceu sua companheira no trabalho: Viviane coordenou o ‘Nenhum a Menos’ e o casamento aconteceu no ano que o jornalista começou a trabalhar na Redes, em 2008. “Eu me transformei muito na Redes. Eu e minha esposa nos conhecemos e crescemos aqui.” A filha deles, Angela Maria, herdou o espírito comediante do jornalista, ela brinca: “o que é um pontinho roxo na nova holanda? É a Redes da Maré”.

Durante a pandemia, Helio trabalhou com a produção de informações no Maré de Notícias e para ele o maior desafio foi o de transmitir as informações corretas diante de tanta novidade que o vírus trouxe para a vida das pessoas; além do combate às fakenews. Nos dias que colaborou com a distribuição de cestas básicas, também viu e ouviu coisas que o impactaram.

Para o jornalista, o trabalho da Redes da Maré é fundamental e preenche uma lacuna no território. “Quando se pensou da Maré ter UPP, ouvi que seria difícil porque aqui temos muitas instituições, como a Redes. E acho que elas têm um papel fundamental, pois os governantes não olham como deveriam para a Maré, falta muita coisa”. Helio destaca a pluralidade de organizações que atuam no território e contemplam iniciativas de esporte, educação, cultura, entre outras. Lembra que a Redes tem o diferencial de trabalhar com vários eixos, além da comunicação. Ele destaca um momento de extrema importância para o território que contou com a atuação da organização: a mobilização para garantia de mais escolas públicas, com o projeto Maré que Queremos.

Sobre o futuro, Helio avalia: “acho que o Brasil está dividido: existem pessoas que estão se cuidando, mas outras não. É muito difícil sabermos como tudo vai ser em 2021, mas economicamente vai ser muito ruim, o desemprego vai continuar sendo grande.” Vamos lutar juntos para melhorar esse cenário, Helio!







O olhar pelo cuidado

Kamila Camillo, 31 anos, é ‘cria’ da Maré e também da Redes. É moradora da Vila dos Pinheiros, mas foi na região mais conhecida como “Tijolinho”, na Nova Holanda, que passou a maior parte da vida. Depois de ter feito os cursos Preparatório para o 9º ano e Pré-Vestibular, ambos da Redes da Maré, veio trabalhar com a gente como secretária e agora integra, como psicóloga, o eixo Educação. Foi uma experiência na família, de síndrome do pânico, o principal fator para a sua escolha acadêmica e profissional. 

 

Para Kamila, a psicologia atravessa todas as outras atividades que desenvolve, como a fotografia, sua grande paixão. Na Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, conseguiu unir as duas atividades que mais gosta. Ela começou a atuar na organização e distribuição das cestas básicas e kits de limpeza e na digitação dos cadastros, até somar psicologia à fotografia em uma só ação: os registros fotográficos das entregas e a colheita de depoimentos de famílias. “Foi onde presenciei não só as entregas, como também as histórias”.

Kamila guarda muitos momentos sobre a pandemia e a campanha, que a transformaram. “O trabalho da Redes da Maré sempre tem um impacto no território, sempre vem para balançar algumas estruturas”. Ela acredita que durante esse período de campanha as pessoas entenderam que a Redes não é só um dispositivo que fica em determinado espaço da favela, é um lugar de acolhimento. Kamila destaca que a organização se transformou para combater o coronavírus, “foi criando vida e sentido” para as ações pensadas. “A Redes é uma mãe”, comenta”.

No futuro, a tecedora espera que as demandas mais emergenciais da população da Maré sejam atendidas. E lembra: “dentro dessa campanha eu vi a fome gritando de uma maneira muito forte”. O desejo da mareense para um momento pós-pandemia é que essa fome, que ela viu de perto, não exista mais. Kamila, vamos juntos nessa!







Trabalhar e acolher

Alessandra Lima (42) é o tipo de pessoa que não para. Assim como muitas mulheres mareenses, corre atrás de uma vida mais tranquila para ela e os dois filhos. Durante a pandemia esse espírito de arregaçar as mangas somou e fez a diferença para a Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus! E trabalhar na campanha também fez diferença na vida da Alê, ou como ela via o território.

 

Alessandra nasceu no Parque União e aos 7 anos foi morar com a família, na Vila dos Pinheiros, em uma das casas do Banco Nacional de Habitação (BNH), onde vive até hoje. Chegou na Redes da Maré, quando soube da vaga para trabalhar na equipe de apoio, por indicação do amigo e vizinho, o nosso colaborador Helio Euclides. Ele já conhecia uma qualidade da Alê que acabou ficando famosa aqui na Redes da Maré, o tempero da comida dessa mareense. 

“Antes de trabalhar aqui, eu nem conhecia o trabalho da Redes. Nunca me senti tão bem trabalhando em um lugar”, comenta ela, que em março completará três anos aqui com a gente. Além da segurança que sente por trabalhar perto de casa e ter sua renda própria, ela destaca a forma como é acolhida por todos, da direção aos visitantes: “aqui a gente se sente acolhida e abraçada pelas pessoas”. 

Durante a pandemia, Alê trabalhou na Casa das Mulheres da Maré na produção das refeições, que nesses últimos sete meses chegou a cerca de 50 mil e seguem sendo entregues à população em situação de rua. “Desde março, foi todo mundo somando junto. Ninguém correu de nada”. Uma das coisas que mais chamou a atenção dela durante a campanha foi esse espírito de trabalho com força e em conjunto. 

Tem sido marcante para ela também poder se aproximar e conhecer melhor a situação do território. Uma cena que a marcou muito foi durante a distribuição de cestas básicas, na Praia de Ramos: quando chegou em um prédio ocupado por muitas famílias, um menino, de cerca de 7 anos, comemorou demais a chegada dos alimentos. “Nem a gente que mora aqui sabe as condições que muitas famílias vivem”, desabafa. 

Com tudo o que ouviu e viu durante esses meses, o que Alê espera para o pós-pandemia é “que o ser humano seja mais compreensivo, mais amigo, que ajude mais o outro“ e que todo esse olhar de solidariedade continue. Tomara, Alê!






Garra para trabalhar pela Maré!

Elivanda Canuto (42), ou Vanda, chegou na Maré com 9 anos, mais precisamente na Vila do Pinheiro, e ali construiu sua vida. A cearense tem dois filhos e desejos pessoais em prol do coletivo. O trabalho como redutora de danos no Espaço Normal é um deles. Ela sempre quis ajudar pessoas, e poder fazer isso como trabalho, no território onde mora, faz toda a diferença.

 

Apesar do longo período morando na Maré, Vanda começou a circular nas outras favelas do território somente a partir do trabalho que iniciou em 2016, quando começou a trabalhar nas cenas de uso de drogas, locais que tinha medo de passar, como muitas pessoas. Foi através do Fórum de Drogas da Maré que conheceu o trabalho da Redes da Maré: “todos os espaços para pessoas que fazem uso abusivo de álcool e outras drogas são fora das favelas, ou seja, o acesso é mais difícil. Quando eu soube do Espaço Normal, me apaixonei pela ideia desde o início. Percebi que era onde eu queria estar”, comentou. E foi onde começou, em janeiro de 2019: “pra mim, é importante estar trabalhando no território onde eu moro, é o que eu preciso”.

O início da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, que já previa uma frente pra seguir acompanhando essa população, mesmo na rua, encheu a Vanda de medos e dúvidas sobre os riscos de trabalhar na rua, e a exposição que isso poderia representar para a própria família. Mas o passar dos dias e a sensação de que “não podia ficar em casa sabendo que tinham outras pessoas precisando” a fez arregaçar as mangas e ir para as ruas: “Eu tinha que estar na batalha pra ajudar as pessoas que não podiam se proteger”. Vanda segue trabalhando diretamente na prevenção com a população em situação de rua e nas cenas de uso de álcool e outras drogas da Maré - e dos beneficiários do Espaço Normal, agora que o espaço está fechado por conta da pandemia.

Ela nos contou um pouco das visitas que realizou para entender as condições em que alguns frequentadores do Espaço, que são domiciliados, se encontravam. Nessas visitas, viveu algumas das cenas que mais a marcaram nesse momento. "A desigualdade e a vulnerabilidade fazem com que o domiciliado prefira o Espaço (Normal) ou a própria rua”, destacou.

Antes da pandemia, Vanda já tinha iniciado um processo para conquistar outro objetivo que certamente será canal de mais frutos para a população da Maré: ela participava do Curso Pré-Vestibular da Redes da Maré, que não conseguiu dar continuidade durante a pandemia, mas pretende retornar. Vanda quer fazer faculdade de Serviço Social. E para os moradores da Maré, o que espera para frente: “que tenham mais garra, mais vontade de lutar pelo que é nosso de direito”. Que se inspirem em você, Vanda!

 






Ter noção na prática o que é ter empatia

O Eduardo da Silva é o tipo de cara que a gente pode chamar de “mareense raiz”: dos seus 53 anos de vida, apenas dois ele não viveu na Maré. Toda trajetória de vida do Edu, como é chamado, tem endereço na Rua das Rosas, na Nova Holanda. Também não é de hoje que ele conhece o trabalho da Redes da Maré: ele acompanha especialmente as lutas da nossa querida diretora Eliana Sousa Silva há muitos anos. O que é novidade na vida desse mareense é a possibilidade de ajudar pessoas.


“Sempre achei muito importante ajudar as pessoas, mas nunca tive oportunidade, mas foi muito gratificante poder ajudar”. Antes da pandemia ele trabalhava como cozinheiro, mas com o início das ações da campanha resolveu chegar junto para se voluntariar. Ele trabalhou abastecendo os carros e distribuindo cestas básicas e kits de higiene; recepcionando moradoras e moradores no centro de testagem; e agora é um dos articuladores das ações de isolamento seguro, do Conexão Saúde - de Olho na Covid.

Durante a nossa conversa, Edu enumerou alguns momentos marcantes ao longo do trabalho na campanha, sobretudo no contato com as famílias. Ele disse que com o trabalho que desenvolveu pôde “ter noção, na prática, o que é ter empatia”. Ele destacou uma situação em que o casal contou estar pedindo a Deus solução para o momento que viviam - os dois e mais três filhos não tinham nada dentro de casa para se alimentar quando a cesta básica chegou. “Trabalho desde os meus 9 anos de idade, sempre fui da paz. Esse período me transformou muito”.

Perguntamos para o Edu o que ele espera de um momento ‘pós-pandemia’: só espero que as pessoas sejam melhores umas com as outras. Ninguém vive sem o outro, mas as pessoas não entendem isso. A maioria só pensa em si próprio, é complicado demais. Não tenho nem palavras pra falar da Redes. O trabalho da Redes já era extraordinário, mas se superou, pois acolheu uma coisa que nem era da sua alçada”.

O Edu é mais uma das forças que foram fundamentais para o trabalho da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus. E por ele, a caminhada junto à Redes da Maré só está começando! Bom pra gente!

 






Equilibrando lutas

Fernanda Viana (40), mareense desde a barriga da mãe, começou na Redes da Maré em 2002 como aluna do Curso Pré-Vestibular, trazida pelo “sonho sempre pulsante” de fazer faculdade. Ao mesmo tempo que deixara esse sonho adormecido, os desafios e lutas como mulher, profissional e mãe de três filhos também foram as molas que a ajudaram a conquistá-lo. Esses obstáculos e inquietações a fizeram criar alternativas em casa com os cuidados de três filhos, Arthur, Fernanda e Fernando, e se encontrar na faculdade de Serviço Social. A rede de apoio e de cuidados que ela teve em casa e a ajuda de vizinhos fez toda a diferença. Fernanda nos brinda com suas visões, hoje atuando no nosso eixo de Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça.


Assim que a pandemia se instaurou no Rio de Janeiro, Fernandinha sentiu que quando o vírus chegasse na Maré, ia dar de cara com a ausência de políticas públicas para as demandas do território. Então, não teve dúvidas: chegou junto, logo ali em março, para somar na campanha ‘Maré diz NÃO ao Coronavírus’. Passou por diversas frentes: atendimento ao público no Centro de Artes da Maré, atendimento do Maré de Direitos, distribuição e organização da logística das cestas básicas e kits de higiene, fez visitas domiciliares, colaborou na organização do banco de dados e, por fim, em ações de saúde na Maré.

A tecedora achou positiva e de muita sensibilidade a iniciativa da Redes da Maré de atuar, desde o início da pandemia, para amenizar os danos da insegurança alimentar. Mesmo tendo nascido e vivido toda a vida na Maré, esse tempo de trabalho com a campanha a fez perceber que esse momento evidenciou muitas mazelas que existem aqui e a importância desse trabalho para tantas pessoas. “A minha vida toda foi permeada por uma rede de cuidados, que me garantiu, inclusive, a sobrevivência em muitos momentos. Ter essa rede de apoio é muito importante para o favelado, mas e quando esta também está fragilizada, quem te assiste? Infelizmente não foi o Estado, que era quem deveria ter feito. Fomos nós mesmos, que fizemos com muita boa vontade”, comentou.

Para Fernandinha, foi uma surpresa boa ser convidada para assumir a coordenação do polo de testagem do Conexão Saúde - de Olho na Covid, projeto realizado em parceria com outras organizações. Mas foi seu empenho e vontade de fazer e fortalecer seu caminho que a fez conquistar esse lugar. Na Redes da Maré e em casa. Ela conta com orgulho que agora é a outra Fernandinha, sua filha de 12 anos, que chama a sua atenção para muitas questões sociais. Arthur Viana, seu filho mais velho, também está nesse caminho e integra o eixo como mobilizador territorial.

É impossível para Fernandinha sair desse momento de pandemia da mesma forma que entrou. Ela destacou a percepção sobre como lidamos com o próximo. “Olhar o outro tá sendo diferente na pandemia”. Apesar de não estar otimista com o cenário pós-pandemia, ela espera que os sentimentos de empatia e paciência permaneçam: “que a gente passe junto e nos cuidando”.

 




Gratidão que inspira

O recifense José Gerson da Silva (39) é mareense desde os 5 anos de idade, morador da Vila do Pinheiro. Há 2 anos, perdeu um membro da sua família e acabou se afastando da convivência com seu próprio território. Mas a aproximação com a campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus o fez repensar sua presença e relações com a Maré.


Gerson trabalhou como motorista nas entregas e agora acompanha a equipe nas visitas às famílias com pacientes de Covid-19 pelo Conexão Saúde - de Olho na Covid. Não se vê voltando à atividade de pedreiro, que tinha antes da pandemia. Ele conta que o trabalho na campanha o fez “abrir e ocupar a mente”, o transformou e o fez enxergar como havia pessoas precisando de ajuda na Maré.

A gratidão que as pessoas demonstram ao receber apoio tem feito ele querer continuar com este trabalho. Para Gerson, é difícil explicar quanto mudou a forma como ele vê a Maré e as pessoas. Fazia tempo que o medo e a falta de vontade o impediam de circular pela Maré - e hoje é o que ele mais faz. Além de circular, ver e conhecer mais pessoas, ele contou o quanto tem aprendido todo dia com o trabalho.

Apesar do Gerson já conhecer o trabalho da Redes da Maré, por meio de sua esposa que trabalha no Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, foi a possibilidade de colaborar na campanha, a partir da pandemia, que o aproximou do nosso trabalho e também da luta pela garantia de direitos. Mas a gente conhece bem a história dele. Ele é marido da Bruna Silva e pai do menino Marcus Vinícius, que foi morto durante uma operação policial na Maré, em 2018. Gerson, contar com o seu trabalho fortaleceu não só a você, como a todos nós. Seguimos juntos pela garantia de direitos na Maré!

 




Transformar e reconhecer

Joelma Sousa está há 10 anos na Redes da Maré. Chegou pelo Censo Maré e não saiu mais. “A Redes traz pra gente, pra quem é da Maré, e pra quem também não é, aquela sensação de amor eterno”, foi assim que a assistente social resumiu a relação dela com a organização. Joelma é nascida e criada na Maré. Já foi moradora da Nova Holanda e do Parque Maré. E foi durante a pandemia que ela descobriu mais sobre si, e, sobretudo, sobre a importância e impacto do trabalho que desenvolve.


Ela fez de tudo um pouco na Campanha 'Maré diz NÃO ao Coronavírus', coordenou o trabalho de desinfecção das ruas da Maré e se aplicou na gestão da equipe social, no atendimento de algumas demandas importantes, como as que exigiram visitas domicilares. E foi aí que percebeu que precisava, inclusive, fazer cada vez mais por pessoas como aquelas com quem teve contato.

Joelma conta que saiu de uma dessas visitas muito afetada pela vulnerabilidade econômica, emocional e até física de uma mãe que havia perdido seu filho recentemente. Aquele momento fez ela reconhecer que o trabalho feito por ela e pela Redes da Maré ia muito além de ações para o enfrentamento da crise gerada pela pandemia. Ela percebeu que seu papel ali representava também um lugar de escuta.

O que Joelma espera para o pós-pandemia é que os direitos, garantidos pela nossa Constituição, sejam efetivados: “a Redes da Maré me transformou na pessoa e na profissional que eu sou hoje, nas ‘Joelmas’ que sou hoje. Espero ser uma profissional de excelência, uma moradora de referência. Que tudo que a Maré me deu, eu dê de volta”. Falamos pra ela: você já é, Joelma!

 




Mudança de caminhos e vistas

Leonardo da Silva (35) é amante de história. E ele contou pra gente a dele. A vida de muita gente mudou um pouco nesses últimos seis meses. Para o Leo, como todo mundo por aqui conhece ele, a principal mudança vem logo no começo do dia, quando amanhece e a visão dele é outra, agora que ele tem um espaço para chamar de seu, depois de viver em condição de rua por um tempo. O Leo conheceu o trabalho da Redes da Maré através do Espaço Normal. Há dois anos, ele frequenta o espaço, que acolhe pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas, muitas das quais vivem em situação de rua, por meio de uma agenda sobre práticas de redução de danos. Ele também participava da distribuição do Maré de Notícias, quando a pandemia começou.


No início da Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, o Léo foi chegando devagar, começou como voluntário e passou por algumas frentes da campanha, descarregando os carros e caminhões e apoiando na entrega das cestas. A primeira intenção dele era garantir uma refeição em troca do trabalho. Mas ‘agora é tudo novo’, ele contou pra gente: ‘o fato de você não acordar com a luz do sol no seu rosto faz diferença’.

Faz três meses que o Leo conseguiu alugar a casa dele, na Teixeira Ribeiro, a partir do trabalho da campanha. E o que mais marcou ele foi ter sido recebido como ‘benção’ por uma senhora na Vila do Pinheiro, quando ele chegou com a entrega de uma cesta básica. O Leo é uma das histórias de quem vem tecendo o trabalho da Redes da Maré e que iremos contar por aqui. Acompanhe, fique por dentro e saiba mais!
Conheça o nosso Espaço Normal e o jornal Maré de Notícias.

 

 

Projeto editorial e edição: Andréa Blum • Fotos: Douglas Lopes e Kamilla Camilo 

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