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A Redes da Maré e o Dia Internacional das Mulheres

Quando a Redes da Maré foi fundada, em 2007, as pessoas que participaram desse processo conversaram sobre a importância do nome da instituição. Muitas foram as sugestões, horas e dias foram gastos até que se chegasse a um nome que agradasse a maioria e se formasse um consenso. Isso porque era preciso ter um nome que simbolizasse a missão da nova instituição: contribuir para a construção de políticas públicas para a Maré, produzir conhecimentos e criar ações em rede.

 

Porém, o que não se discutiu, pois desde o início estava dado como certo, foi a data da fundação da Redes da Maré: teria de ser no dia 8 de março. Era preciso que a Redes da Maré nascesse no Dia Internacional das Mulheres, pois sua história de constituição, ou seja, os movimentos que levaram à sua criação estavam intimamente ligados à luta das mulheres.

 

No entanto, essa data simbólica representava bem mais do que apenas uma justa homenagem às mulheres. Na verdade, representava o reconhecimento de que a Redes da Maré nascia das lutas sociais e por direitos a partir da intensa mobilização e liderança de mulheres, como Maria Amélia Belfort, Eliana Sousa, Helena Edir e tantas outras que marcaram a história da Maré.

 

Assim, hoje, não cabe usar o artigo definido masculino “o” ao falarmos da Redes, ou seja, não existe “o Redes”, e sim, “a Redes”, pois ela é feminina. Isso fica evidente no cotidiano da instituição, pois quase todas as suas coordenações são ocupadas por mulheres. Em pesquisa recente constatamos que 68% das pessoas que trabalham nos projetos e participam das ações da Instituição são mulheres. Além disso, mais de 80% dos cargos de liderança da instituição são ocupados por mulheres.

 

Contudo, embora essa maioria de mulheres signifique um avanço, esse fato não resolve, por si só, as questões que estruturam as relações desiguais de gênero presentes na sociedade brasileira e que perpassam todas as instituições, incluindo a própria Redes da Maré.



Nesse sentido, refletir sobre o significado do 08 de março para a Redes é de fundamental importância. Sobretudo, quando sabemos que as mulheres da Maré e das favelas são as que mais enfrentam dificuldades no seu cotidiano. São elas as que têm menos recursos econômicos e sofrem com os preconceitos, o racismo, o machismo, o sexismo, a lesbofobia, e enfrentam todas as barreiras sociais, religiosas e culturais que se interpõem ao direito de exercerem plenamente sua liberdade.




Ao pensarmos nessas questões no quadro da sociedade brasileira, reconhecemos que ainda temos um longo caminho a percorrer no que diz respeito à garantia dos direitos das mulheres. O aumento do feminicídio – quando o assassinato acontece porque a vítima é mulher -, por exemplo, é uma prova do quando precisamos avançar.

 

Mesmo com a maior proteção a partir da Lei Maria da Penha, estudos como o Anuário Brasileiro de Segurança Pública comprovam um aumento de 19% no número de mortes de mulheres em 2020. Na maioria dos casos são mulheres assassinadas por seus companheiros ou membros de suas próprias famílias, pois estes não aceitam que elas quebrem as regras do patriarcado e do machismo. Regras que as colocam na condição de objeto.

 

Por outro lado, quando observamos mais especificamente o componente étnico-racial, aparece mais uma questão enfrentada pelas mulheres. Nesse caso, pelas mulheres negras. São elas que mais sofrem com as injustiças, o racismo, a violência e os preconceitos. As mulheres negras possuem menor escolaridade e recebem os menores salários, mesmo quando exercem as mesmas funções de homens e mulheres brancas. Num estudo lançado em 2019, chamado: “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça”, publicado pelo IBGE, constatou-se que as mulheres negras recebem, em média, 44% a menos do que homens brancos.

 

Diante desse quadro, é preciso avançar muito mais na democratização das relações de gênero no Brasil. Porém, isso não depende apenas de boa vontade. É fundamental que o Estado crie e amplie políticas públicas de curto, médio e longo prazos para ajudar a estruturar relações mais justas e igualitárias em benefício das mulheres. Junto a essas políticas, instituições e coletivos da sociedade civil também têm papel importante a cumprir, pois podem e devem realizar ações no sentido de garantir os direitos das mulheres.

 

Por outro lado, os homens precisam assumir seu papel na luta por justiça e igualdade para as mulheres. Devem reconhecer que eles têm papel importante a cumprir, principalmente combatendo a toxicidade do machismo e do patriarcalismo, heranças coloniais que ainda estruturam as relações no presente. Assim, reconhecendo que o protagonismo é das mulheres, os homens precisam assumir suas responsabilidades na construção de um mundo livre do sexismo, misoginia e machismo.

 

Por isso, nesse 08 de março, Dia Internacional da Mulher, mais do que homenagens, a demanda é por respeito e igualdade. Nesse sentido, a Redes da Maré, como instituição que nasce da luta das mulheres e faz aniversário nesse mesmo 08 de março, se coloca ao lado de todas as mulheres e reafirma seu compromisso pela luta da igualdade de gênero, pelo fim do racismo e discriminação de toda ordem.

 

Precisamos relembrar e transformar em ação os ensinamentos de Carolina Maria de Jesus, Grada Kilomba, Conceição Evaristo, Ângela Davis, Mãe Beata de Yemanjá, Marielle Franco, Chiquinha Gonzaga, Marie Curie, Rosa Parks, Simone de Beauvior, Aqualtune, Dandara dos Palmares, Hatshepsut, Nzinga, Makeda, Catarina Mina, entre tantas outras. Precisamos fortalecer suas lutas.

 

Assim como a Redes, a Maré é uma mulher. Tanto por seu nome ser um substantivo “feminino” quanto por sua história. A Maré surge das águas. Assim como surge toda a vida humana, nas águas do ventre de uma mulher. E dizemos mais. A Maré é uma mulher racializada. O samba “A verdade vos fará livres” descreve a Estação Primeira de Mangueira. E dele pegamos emprestado um verso que nos ajuda a pensar a Maré: “Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher”. A Maré é uma mulher preta-indígena-nordestina. A Maré é ventre de reinvenção e construção política feminina.

 

A Maré é uma mulher também por seu histórico de lutas encampadas por mulheres, como Maria Amélia Belfort, mãe de 6 filhos, precursora dos movimentos de mobilização popular em Nova Holanda. Com sua luta diária, ela abriu caminhos para que outras mulheres pudessem falar. Assim, é impossível não lembrar também de Eliana Sousa Silva que com sua força nos ajuda a pensar a questão central na luta das mulheres: a autoemancipação. Seguindo os passos dessas mulheres extraordinárias, Marielle Franco, cria da Maré, foi eleita vereadora 2017. Em sua trajetória política, foi reconhecida internacionalmente por formular projetos de lei e pautas no sentido de garantir direitos para mulheres negras, faveladas e populações LGBTQIA+.

 

Marielle foi assassinada em 14 de março de 2018. 6 dias depois do Dia Internacional da Mulher. Segundo Marielle:

 

“(…) Como ficam as mulheres que não têm acesso à cidade? Essas mulheres são muitas. São mulheres negras; mulheres lésbicas; mulheres trans; mulheres camponesas; mulheres que constroem essa cidade, onde diversos relatórios – queiram os senhores ou não - apresentam a centralidade e a força dessas mulheres, mas apresentam também os números que o (The) Intercept publicou no dossiê de lesbocídio que, no ano de 2017, houve uma lésbica assassinada por semana (…)”[1]

 

Com a pergunta de Marielle - “Como ficam as mulheres que não têm acesso à cidade?” - fazemos a ponte com outra mulher negra da Maré, Renata Souza. Eleita deputada em 2018, ela continua e amplia o trabalho de Marielle e das mulheres da Maré e das favelas. Por isso, diz Renata: “Quando a gente olha para as mães que aqui estão a gente tem certeza que é preciso lutar. O autoritarismo na favela é ampliada com a lógica da retirada de direitos.”

 

Quanto menos direitos para as mulheres, mais autoritarismo nas favelas e na cidade. E vice-versa. E por isso, quanto mais as mulheres da Maré avançam, mais a sociedade avança como um todo. Esta compreensão é essencial para que combatamos as forças conservadoras que insistem em afirmar que a luta pelos direitos de populações como mulheres e pessoas negras são “apenas movimentos indentitários”. Não são. São projetos políticos enraizados em lutas e metodologias construídas há muito. Precisamos compreender os avanços de mulheres da Maré como avanços do e para o Brasil.

 

Em 08 de março e em todos os dias. Apesar de. Avancemos!

Tecedoras e tecedores da Redes da Maré

Rio de Janeiro, 08 de março de 2021

 

[1] https://www.redesdamare.org.br/br/artigo/117/a-autoemancipacao-das-mulheres

[2] Último pronunciamento de Marielle Franco, em Sessão Plenária, em 08 de março de 2018.

 

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