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Nota da Redes da Maré sobre a 15ª operação policial nas favelas da Maré de 2025

A Redes da Maré declara profunda preocupação diante da operação policial  realizada na quarta-feira, 26/11, no Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro. Mais uma vez, assistimos a uma intervenção espetaculosa, que expôs a população local a riscos e consequências letais.

Um dos episódios graves que ocorreram na primeira hora de operação foi o tiro que atingiu Pedro Henrique, um menino de 12 anos,  dentro do Ciep Hélio Smidt, na favela Rubens Vaz. A criança foi baleada na perna esquerda, socorrida imediatamente pelo diretor da escola, levada primeiro para a Clínica da Família, e, depois, para o Hospital Getúlio Vargas. E, felizmente, não corre risco de vida. 

O professor que prestou socorro ao aluno ficou em choque, visivelmente traumatizado. Contou que, em 15 anos trabalhando nas escolas da Maré, depois de muitos episódios de  tiroteios e operações, jamais imaginou viver algo tão horrível. E comentou que, enquanto o menino era atendido na Clínica da Família que leva o nome de Jeremias Moraes da Silva, um ex-aluno morto aos 13 anos durante uma operação policial, não pôde deixar de pensar no ciclo absurdo de violências que continua se repetindo. 

Na Grande Rio, nos últimos nove anos, 339 crianças e adolescentes foram baleados durante ações policiais, segundo dados do Fogo Cruzado. Na região das favelas da  Maré, no mesmo período, oito crianças perderam a vida e seis  foram feridas por arma de fogo, de acordo com dados  do projeto De Olho na Maré (Redes da Maré).

 Este ano, durante o julgamento da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, discutiu-se a necessidade de estabelecer perímetros mínimos de proteção,  preservando zonas de escolas, unidades de saúde e outros equipamentos essenciais à população da exposição às intervenções policiais, justamente para evitar danos colaterais previsíveis. A operação do dia 26/11 confirma, de forma dolorosa, o que moradores e pesquisadores vêm afirmando há anos: não existe perímetro seguro quando a estratégia estatal admite a realização de ações armadas com sobrevoo de helicópteros, disparos aéreos e circulação de blindados em áreas densamente povoadas. O alcance desses armamentos não é controlável e suas consequências se espalham por quilômetros, afetando pessoas que não têm qualquer relação com o iminente  alvo da operação.

Na vizinhança das favelas da Maré, temos a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Fundação Oswaldo Cruz. As duas instituições tiveram suas atividades interrompidas, com o agravante de que alguns disparos atingiram uma sala de aula da UFRJ. Estudantes e professores também foram surpreendidos com o pouso de um helicóptero policial em pleno campus. Por sua vez, a Fiocruz precisou acionar o protocolo máximo de segurança. 

A Linha Amarela foi bloqueada repetidas vezes, levando motoristas ao pânico, a ponto de realizarem  manobras arriscadas. Nada disso estava dentro do suposto “ponto focal” da operação. O que constatamos é que não há qualquer preocupação com as atividades das muitas organizações no território e do entorno no momento que operações policiais são realizadas. O respeito aos preceitos legais não é algo considerado nas ações do Governo do Estado do Rio de Janeiro quando se trata de ações em favelas. 

Esse padrão revela, obviamente, que operações desse tipo, em territórios densamente habitados, não conseguem oferecer controle, precisão ou segurança.  Ao  contrário disso, tornam-se mecanismos que irradiam risco para além do local de ocorrência, atingindo crianças, estudantes universitários, profissionais de saúde, trabalhadores e pessoas em mobilidade urbana. Todas essas pessoas são submetidas a uma condição de fragilidade que não deveria existir em um país onde os direitos de qualquer cidadão têm que ser respeitados com base na Constituição e nos  princípios  democráticos, levando em conta que é a partir desses parâmetros que o Brasil se organiza no campo político.

A operação deixou, ainda, três pessoas mortas. Não foram feitas perícias de local em nenhum dos casos. É importante destacar essa informação para que se conheçam as circunstâncias reais desses assassinatos em favelas. Essa é uma demonstração do descaso e tratamento desigual com as vidas de pessoas residentes nas favelas e periferias. Não podemos esquecer de que há um mês a operação policial nas favelas da Penha e Alemão foi responsável por 121 mortes, sem que tenha havido perícia de local em nenhum dos corpos que vimos estendidos nas ruas. Com a ação ocorrida dia 26/11, nas favelas da Maré, a 15ª deste ano, contabilizamos 230 operações policiais desde 2016, com 172 vítimas letais na região, sendo que, dessas, apenas 16 passaram por perícia. 

Uma das vítimas da operação da quarta-feira, dia 26/11, foi o vendedor de queijo Bruno Paixão, de 32 anos, que teve sua Kombi de trabalho alvejada por tiros e acabou morto. Desde que Bruno foi atingido, familiares iniciaram uma busca por informações sobre  seu  corpo.  Diante da ausência de qualquer informação oficial, ao fim do dia, realizaram uma mobilização na altura da Linha Amarela, com o objetivo de chamar a atenção da opinião pública para a situação absurda que estava acontecendo.

Importante expor a situação da morte de Bruno para que não se repita o caso de Amarildo de Souza, morador da Rocinha, que foi assassinado em 2013 e seu corpo nunca apareceu. A família de Bruno só obteve informações oficiais na quinta-feira 27/11, um dia após à operação policial. Nesse processo, a equipe da Redes da Maré realizou acompanhamento sociojurídico às famílias atingidas, bem como  se dirigiu aos   hospitais e ao Instituto Médico Legal (IML) no dia da operação, além de ter articulado a presença do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP) e do Núcleo de Apoio às Vítimas do Ministério Público (NAV-MPRJ) no IML, no dia seguinte à ação policial.

   A Redes da Maré reforça que políticas de segurança não podem continuar baseadas em ações que produzem danos difusos, imprevisíveis e inconstitucionais. Exigimos que o Governo do Estado do Rio de Janeiro e as forças de segurança esclareçam o que ocorreu, investiguem com rigor o ferimento da criança dentro da escola e todos os demais impactos registrados, além de garantir assistência adequada aos familiares das vítimas. A pergunta sobre quem, de fato, está se sentindo mais seguro depois de uma operação policial segue ecoando e precisa de respostas do Estado, com mudanças estruturais, responsabilidade pública e respeito inegociável à vida das pessoas que vivem, estudam e trabalham no Conjunto de Favelas da Maré, e em todas as favelas do país.

 

Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2025

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