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Testemunhos de quem sobreviveu ao cárcere marcam evento de lançamento de cartilha do Construindo Caminhos

Maria Teresa Cruz

Na última quinta-feira (15), o Espaço Normal abriu suas portas para receber a roda de conversa “Diálogos sobre Política Criminal e Desencarceramento na Maré”, que marcou o lançamento da cartilha “Construindo Caminhos - A porta de saída do sistema prisional”, organizada pela equipe do projeto Construindo Caminhos da Redes da Maré. A atividade faz parte do calendário anual do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça que tem como desafio os impactos da prisão na vida dos moradores da região. 

 O evento contou com três momentos: a abertura, marcada por falas potentes de pessoas que vivenciaram na pele a experiência do cárcere e compartilharam conosco seus olhares de forma emocionante,, a roda de conversa, onde os convidados puderam apresentar seus eixos de atuação dentro da temática e abrir para o debate, e um momento de composição coletiva de escrita de ideias para refletir possibilidades  de incidência na política penal. 

Logo na entrada do espaço, foi montada uma exposição de quadros produzidos em oficinas de artes realizadas no “Encontro das Artes”, projeto conduzido pelo morador da Maré,artista e sobrevivente do cárcere, Odir dos Santos. Em sua fala, mencionou como a arte e a rede de apoio foram fundamentais para que ele encontrasse um novo caminho ao deixar a prisão. “Muitas vezes essa rede de apoio não vem. Eu vivia me perguntando: o que eu vou fazer quando eu sair? Como eu vou fazer? Foi aí que eu encontrei a Redes da Maré. E foi onde eu encontrei a rede de apoio que eu precisava”, afirma.

No centro da roda, havia um impactante quadro assinado por Odir, que ainda estava fresco, porque foi pintado especialmente para o evento. Nele, um homem dentro da prisão disputava a comida com uma ratazana. A imagem, forte, gera também sentimentos como ojeriza e compaixão. Odir conta que, infelizmente, a inspiração é real e vivenciada todos os dias por quem vive atrás das grades. “Quando eu estava em Bangu 3, se contava uma história de que, no isolamento, tinha uma ratazana que vivia com os filhotes. Quando chegava a quentinha, tinha que colocar um pouco da comida para ela, porque senão ela vinha e atacava a sua comida. Era impressionante, porque todo dia ela vinha no horário certo em que chegava a comida. Um dia eu estava no isolamento e eu vi que isso não era piada, era verdade. E veio a famigerada ratazana”, relata..

Também morador da Maré e mobilizador social Amabílio Gomes ressalta que o evento foi um importante momento de diálogo. “A gente só vai conseguir alguma coisa se a gente trabalhar junto. E a experiência de alguém que veio do cárcere, que é o meu caso, é bem diferente de uma pessoa que pode até ter estudado sobre o tema, feito universidade, mas não passou por aquilo, a gente sentiu na pele. Essa troca é importante”, avalia. Amabilio destaca que não se vê como vítima. “Eu fui vítima, talvez, na infância, pela falta de acesso a muita coisa. Mas depois, não. A cadeia é ruim, mas foi lá que eu aprendi a dar valor para o que importa, por exemplo a minha família, a minha esposa. Se a cadeia fosse boa, eu não estaria aqui. E por isso que eu to aqui, trabalhando e buscando ser cada vez melhor”, avalia. 

 Márcia Badaró, do Conselho Regional de Psicologia e integrante do Fórum Permanente de Saúde do Sistema Penitenciário, apresentou dados que apontam a falta de acesso a cuidados básicos. “Estamos num momento muito ruim do sistema penitenciário. Eu testemunhei, quando ainda trabalhava, essas agruras da ausência de atendimento. E por isso também que, mesmo depois de aposentada, eu segui na militância. A grande questão é: a população carcerária é munícipe. Eles são, por exemplo, contabilizados na verba pública de saúde. Então ela tem direito a acessar esse sistema, mas sabemos que isso não acontece na prática”, critica. 

Em fala contundente, Eliene Vieira, integrante do Mecanismo Estadual de Combate e Prevenção à Tortura, afirma que o encarceramento é uma experiência que devolve à sociedade uma pessoa desumanizada. “Como mulher favelada e que teve filho no cárcere, digo que é uma política que deu errado. Eu acredito que a pessoa precisa ser responsabilizada pelo que fez de errado, mas é preciso pensar até que ponto o cidadão deve pagar pela ausência do Estado e sem qualquer garantia de direitos”, analisa. 

Vânia de Carvalho Pintol, do Escritório Social, falou sobre a importância de racializar a discussão do encarceramento, já que a maioria da população prisional é negra e periférica. Além disso, destaca a necessidade de oferecer possibilidades para inserir a pessoa que saiu da prisão na vida comum, cotidiana, para que recupere a dignidade e o sentimento de utilidade. “Quando a pessoa está presa, ela passa por um processo de ficar ‘igual’ a todo mundo: tudo bandido. Mas somos pessoas únicas, temos singularidades. O trabalho do Escritório Social considera essas nuances e as necessidades de cada um dentro desse processo de retorno à vida depois das grades. Porque se não considerar, será difícil dar certo”, explica.

A cartilha impressa foi distribuída aos presentes. Depois, a atividade de escrita afetiva-criativa foi comandada por Carlos Marra, do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, momento em que os participantes puderam pensar coletivamente a partir da provocação: “O que queremos para nossos amigos, familiares e conhecido da Maré após o cárcere?”. O encerramento aconteceu com o oferecimento de um café produzido pelo buffet do Maré de Sabores.

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