As operações policiais impactam as vidas das mulheres da Maré de formas muito diversas e complexas. Elas geralmente são as principais responsáveis pelo cuidado de crianças, idosos, pessoas com deficiência e enfermas. Isso significa produzir respostas de agenciamento não apenas de suas próprias vidas, mas para a de outras vidas também. A circulação das mulheres e seus dependentes fica severamente limitada desde o primeiro momento da operação até dias depois do seu final.
Ao trazer insegurança para o território, as operações impedem o funcionamento adequado de serviços básicos de saúde. Como consequências concretas, as mulheres são impedidas de acessar exames de pré-natal, medicação de uso contínuo, como para hipertensão e diabetes, ou mesmo exames pelos quais aguardaram por muitos meses, e que terão de ser novamente remarcados, atrasando e interrompendo tratamentos.
O fechamento das creches e escolas impacta a rotina das famílias, dificulta o acesso da mulher ao trabalho, ou de seus próprios processos educativos. Muitas vezes elas não têm com quem deixar seus filhos, fragilizando os vínculos trabalhistas existentes e reduzindo as chances de inserção em trabalhos futuros. Sem contar o impacto no comércio local, dificultando o trabalho das mulheres empreendedoras da Maré.
Sem aulas e espaços de lazer, as adolescentes e meninas também sentem essa dor, ao mesmo tempo em que precisam cuidar de seus irmãos ou crianças menores. Ainda que não sejam as principais vítimas letais da violência policial, os corpos das mulheres também são vulnerabilizados durante as operações, seja em ambiente público ou doméstico.
A Casa das Mulheres da Maré, equipamento da Redes da Maré, vem recebendo muitos relatos de violações por parte dos policiais em relação às mulheres, como xingamentos, assédios, tortura psicológica, invasão de privacidade em seus telefones, furtos e ameaças. Essas situações são particularmente agravadas em casos de mulheres LGBT, cujos corpos são frequentemente hostilizados por policiais.Soma-se a todo este cenário o fato de ser comum que crianças presenciem tais abordagens violentas, produzindo impactos para o seu desenvolvimento pessoal.
Considerando toda a problemática do contexto de operações policiais, é importante apontar para o impacto na saúde mental das mulheres. Com poucas possibilidades de serviços públicos para atendimento e com fácil acesso a remédios controlados sem receitas, muitas mulheres recorrem à automedicação, gerando o agravamento de condições prévias de saúde e o surgimento de novas.
Segurança alimentar nas vidas das mulheres
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) oferece alimentação escolar a estudantes de todas as etapas da educação básica pública, garantindo que as crianças e adolescentes tenham uma alimentação saudável durante o tempo que estão estudando. Com a ocorrência das operações policiais na Maré, o direito à alimentação adequada é violado, já que os estudantes deixam de acessar a merenda escolar com o fechamento das escolas, o que consequentemente, também impacta na segurança alimentar de toda a família, principalmente das mulheres.
Segundo o Mapa da Fome da Cidade do Rio de Janeiro, pesquisa que retrata o acesso da população carioca aos alimentos, em qualidade e quantidade adequada, mostra que os pratos vazios se concentram na área de planejamento AP3, região que a Maré está localizada, e a fome está presente em 10% das casa. Esses dados revelam a importância da merenda escolar para as famílias da Maré, bairro da região AP3 em situação de maior vulnerabilidade, com famílias com menor acesso à renda e com lares chefiados por mulheres e/ou pessoas negras.
Leia o relato de uma moradora da Maré que trabalha na Casa das Mulheres da Maré, sobre um dia de operação policial.
"Combinaram de nos matar. Mas nós combinamos de não morrer" (Conceição Evaristo)
Acordar às 5 horas da manhã com estrondos de bombas, tiros e correrias, absolutamente, não pode ser normal.
É uma tortura recorrente que nós, moradores de favelas, experimentamos diariamente em nossos corpos.
Corpos que mal foram formados, já são atravessados desde tenra idade por tamanha violência.
Corpos que já deitam no chão não porque estão explorando o mundo, mas por questões de sobrevivência.
Corpos ainda que crescidos, seguem estremecendo ao ouvir os mais diversos barulhos. Inclusive o barulho do silêncio, que muitas vezes pode ser ensurdecedor.
Como traduzir em palavras isso, que é a ordem do horror, do desumano e, portanto, fora da linguagem?
Estamos cansados de ver nossas crianças tendo suas infâncias roubadas a cada vez que lhe são tiradas o direito de brincar, de ir à escola, de poder acessar e explorar suas fantasias e criatividades, furtadas o direito de ter acesso a diversas culturas, de poder transitar sem estarem aflitas aguardando a qualquer momento um tiroteio.
Estamos cansadas enquanto mães de ter de sair para o trabalho, quando dá, com a constante preocupação com a segurança dos nossos filhos, de ter que deixá-los na escola, lugar que deveria ser para explorar no melhor sentido do termo, e não para ser invadido, como foi hoje, e nos últimos tempos.
Cansados de ver nossos jovens, que igualmente necessitam sair pra ganhar o mundo, serem atropelados a todo instante, seja por uma revista policial, ou por uma bala dita, "perdida", e ainda serem nomeados como traficantes.
Cansados de deixar nossos pais, irmãos e ou maridos em casa, seja porque são aposentados, por trabalharem à noite ou estarem desempregados, e estes serem tratados como bandidos.
No entanto, é uma realidade a qual nós, moradores de favelas, experimentamos de modo cada vez mais recorrente. Isso não pode ser normal.
Nosso território urge por direitos humanos, por dignidade, por poder fazer parte e ocupar a cidade, que não a partir da exploração de nossos corpos.
Deixem-nos viver!
Carmem Costa
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