return
Redes da Maré lança pesquisa “Como Vota a Maré?”

Com base em dados das eleições municipais anteriores, do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), a publicação analisa o comportamento e as mudanças provocadas que podem impactar na qualidade de votação de uma parcela expressiva da população

Rio de Janeiro, 03 de outubro de 2024 – Nesta quinta-feira, 03 de outubro, a ONG Redes da Maré lança a pesquisa “Como Vota a Maré?”, uma análise feita pela instituição a partir dos dados, do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), sobre as eleições municipais de 2020, de um eleitorado de 64.138 eleitores aptos a votar nas eleições de 2024, uma população significativa para a cidade do Rio de Janeiro, que está distribuída no conjunto de 15 favelas da Maré, Zona Norte. Acesse a pesquisa completa aqui.

Quantitativamente, o eleitorado da Maré não fica atrás de outros bairros politicamente importantes da cidade, mas, ainda assim, há uma série de fatores que parecem colocar a Maré em uma posição politicamente subestimada na arena política da cidade, como a necessidade dos eleitores que moram na Maré precisarem se deslocar para outros bairros para exercer seus direitos políticos. A distribuição territorial dos locais de votação na Maré precisa ser questionada como uma possível barreira de acesso para os eleitores em dias de votação, o que pode influenciar o resultado final do pleito. A publicação pretende explicar e desmistificar alguns destes fatores.

Segundo o estudo, cerca de 20 mil moradores serão impactados após a transferência de três das 12 seções eleitorais da região para novos locais de votação, sendo duas fora da comunidade e distantes dos antigos. Além disso, a mudança foi anunciada a um mês das eleições, movimentando a população para fora das regiões onde estão acostumadas a votar, sem considerar as dificuldades de deslocamento, podendo provocar uma maior abstenção.

“As mudanças não se justificam pois, apesar do TRE alegar questões de segurança, nós acompanhamos os dados desde 2016, e não houve conflito armado nessas regiões, no período de eleições, que justifiquem a mudança, ainda mais repentina. Além disso, dois dos locais irão para Bonsucesso, do outro lado da Avenida Brasil, e o terceiro mudou para uma igreja católica, o que não faz sentido, já que temos disponíveis 49 escolas públicas”, defende a coordenadora de Incidência Política da Redes da Maré, Lidiane Malanquini. “Chama a atenção notar que trocaram logo dois colégios eleitorais com o maior número de votos progressistas”, diz.

Além disso, outro fator importante a se pensar são sobre os candidatos a vereadores mais votados na Maré como um todo serem originalmente do território, mas efetivamente não conseguirem se eleger na cidade. Suas campanhas se misturam com seus papéis sociais no território, sendo eles em sua maioria ex-moradores, ou moradores do território e de presença constante distribuída em ações diversas de contato com a população, como comércio atuante, produção de atividades culturais e esportivas, centros sociais com oferta de serviços gratuitos diversos, entre outras.

“O morador quer votar em candidatos que trazem políticas públicas para a Maré. Todos os vereadores mais bem votados em 2020 na comunidade, com exceção da Teresa Bergher, figura política bastante conhecida por eles, tinham origem aqui. Mas como pensar em alargar as estratégias e narrativa para o resto da cidade de modo que consigam se eleger e conquistar melhorias para as pessoas daqui? O voto da Maré tem impacto e faz diferença”, completa Lidiane.

Uma análise dos perfis de melhor desempenho na Maré sugere que campanhas expressivas de base territorializada e contínua é o que garante maior adesão do eleitorado mareense, ainda que não resultem em suas eleições no pleito final. Duas das candidatas que nasceram e cresceram na Maré foram muito bem votadas na cidade, em 2020, mas não o foram por votos da Maré: Mônica Benício, 11ª vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro, com 22.999 votos, dos quais apenas 287 da Maré, e Renata Souza, com pouco apoio do eleitorado mareense (8%), a 4ª candidata mais votada para a prefeitura.

A Redes da Maré reforça uma preocupação sobre como a cultura política em territórios de favela, onde o Estado é historicamente negligente, por vezes se intersecciona com resquícios históricos de influências locais sobre o direito ao voto secreto que induzem votos da população local. Essa preocupação é ainda intensificada pelas recentes mudanças de locais de votação pelo TRE, que podem trazer incerteza para eleitores e provocar abstenções no dia da votação, afetando o exercício político de milhares de cidadãos que devem ter no conjunto de favelas da Maré seus direitos garantidos.

Alguns dados e percepções da pesquisa

  • A favela mais populosa da Maré, Parque União, com mais de 20.500 habitantes, não recepciona um local de votação, ainda que conte com um equipamento público de educação, o CIEP Prof. Cesar Pernetta;
  • Baixa do Sapateiro e Vila do João concentram, proporcionalmente, os maiores conjuntos de eleitores, apesar de serem respectivamente apenas as 6ª e 5ª maiores favelas em população dentre as 15 favelas da Maré;
  • Predominância de candidaturas a vereador a partir de partidos conservadores entre os mais votados da Maré. Outro ponto é a predominância de candidatos do sexo masculino em um bairro formado por uma população periférica e majoritariamente de mulheres;
  • A Maré apresenta uma taxa de abstenção de 30%, inferior ao da cidade (32,79%);
  • Nas eleições municipais de 2020, 56% do eleitorado mareense compareceu e votou em algum dos candidatos para prefeitura no primeiro turno, 29% se abstiveram e 21% votaram branco ou nulo;
  • Dos 5 candidatos à prefeitura do Rio mais bem votados na Maré, houve predominância de votos entre os dois candidatos mais fortes, Marcelo Crivella (30,42%) e Eduardo Paes (27,19%);
  • Os 5 candidatos(as) mais votados na Maré como um todo tiveram a melhor performance na Maré, embora apenas um deles de fato se elegeu: Teresa Bergher, e não tinha origem na favela.

Sobre a população votante da Maré

O que sabemos sobre a população entre 18 e 70 anos que mora na Maré: podemos apontar que esse grupo é formado por aproximadamente 51% de mulheres, 62% são negros, 95% sabem ler e escrever, 26% têm o ensino médio completo, 69% têm filhos, e 39% são os principais responsáveis do domicílio que habitam.

Stay tuned! Sign up for our newsletter