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Feira de Direitos Humanos da Maré reafirma seu compromisso com o território

Hellowa Correa

A Redes de Maré amanheceu na sexta-feira, 13 de dezembro, cheia de barraquinhas. Mas, diferente da feira da Teixeira Ribeiro, com frutas, legumes e carnes, os produtos oferecidos aos moradores da Maré eram outros. A 3ª edição da Feira de Direitos Humanos, realizada em um dos equipamentos da organização, acontece para relembrar e reafirmar que todas e todos, independente de seu lugar de moradia, raça, cor ou origem, têm os mesmos direitos constitucionais, porém, não garantidos de forma igualitária. 

 

A proposta do evento é mobilizar parceiros do território e serviços diversos para os moradores, assim como debates, conteúdos e programação cultural em torno do tema. Durante o dia, os moradores foram convidados a conhecer alguns direitos e facilitar acesso a serviços como a emissão de documentos, vacinação, orientação sócio-jurídica, com apoio da Defensoria Pública, oferta e inscrição de vagas de emprego e estágio. Além disso, jovens empreendedores do território, que estão participando do projeto de formação Lab Maré, também estiveram na feira, apresentando seus projetos.

 

A Coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré que estava à frente do evento, Tainá Alvarenga, declarou que é importante celebrar o Dia Internacional de Direitos Humanos, reafirmando o compromisso com o território. “Somente este ano tivemos 42 operações policiais na Maré que rompem com muitos direitos que deveriam ser garantidos aos moradores de favelas e periferias, como a forma da abordagem e condutas dentro dos espaços de moradia, uso da força e a ausência de câmeras corporais, entre outros, o que abre brecha para muitos abusos. Estamos aqui para demonstrar força e ressignificar o trabalho em momentos tão difíceis”, disse. Parafraseando o rapper Emicida, insistir em ser ainda carregando cicatrizes. 

 

Mesa de abertura trouxe políticas para a juventude

 

O responsável pela Frente de Mobilização e Articulação do eixo de Segurança Pública, Carlos Marra, abriu o evento apresentando o roteiro da Feira. Em seguida, Tainá relembrou as primeiras edições que estiveram ao ar livre na rua Evanildo Alves e apresentou a mesa de lançamento dos projetos Política de Cria: É no Coletivo que se faz a Diferença (Projeto Jovem Cidadão) e Guia para o Primeiro Emprego: Conectando Jovens ao Mercado de Trabalho (Projeto Conecta Jovem)

 

A mesa integrou os coordenadores Daniel Wicke, do Conecta Jovem, e Luís Menezes, do Jovem Cidadão, bem como a Secretária Municipal da Juventude, Gabriella Rodrigues, a coordenadora de Mobilização do Fórum de Juventude do Rio de Janeiro, Dianna Yara, e mediação de Karla Duarte. Gabriella exaltou a iniciativa da Redes da Maré em realizar o evento no território e, como alguém que tem uma origem favelada, reconheceu a importância de projetos para inserir o jovem no mercado de trabalho, sobretudo aqueles em maior vulnerabilidade social. Colocou a Secretaria à disposição de parcerias como essa e finalizou sua participação ressaltando a potência da Maré e que o Rio de Janeiro é muito mais que a sua orla. 

 

Fomento ao emprego e políticas públicas

 

O coordenador do Conecta Jovem, Daniel Wicke, começou a sua fala exibindo um vídeo com a formatura de 70 jovens estudantes atendidos pelo projeto e reforçou a importância da parceria com Mudes, CIEE e CIEDS. “O Conecta Jovem atende o jovem que quer uma carreira em uma empresa e também aquele que pretende abrir seu negócio no território. A Cartilha do Primeiro Emprego, que estamos lançando, é um guia para auxiliar nos obstáculos desta iniciativa. Queremos expandir o projeto para todo o conjunto de favelas da Maré”, disse. O Guia do Primeiro Emprego: Conectando Jovens ao Mercado de Trabalho traz informações e estratégias para a carreira e empreendedorismo do jovem de favela. 

 

Já o coordenador do Jovem Cidadão, Luís Menezes, falou sobre a responsabilidade do jovem favelado ter de ser “o primeiro”, dando sua trajetória como exemplo. Foi o primeiro, da sua família, a acessar o ensino superior. Menezes ressaltou a importância da juventude favelada conhecer as políticas que a atende. “Falar de política para o favelado é tabu. Eu, por exemplo, só tive conhecimento da Comissão da Juventude na Câmara dos Deputados aos 22 anos de idade”, disse. A publicação que fizemos “Política de Cria” traz um mapa das instâncias políticas relacionadas à juventude e, com isso, pretendemos dar uma base mais estrutural para esses jovens acessarem direitos”. O trabalho realizado no projeto Política de Cria: É no Coletivo que se faz a diferença contribui para trazer aspectos vividos pela juventude favelada como as desigualdades.

 

A coordenadora de Mobilização do Fórum da Juventude, Dianna Yara, reforçou as falas anteriores sobre a importância do protagonismo jovem. “O jovem quer, sim, orgulhar seus pais, mas também precisa ser ouvido por eles.”, assentiu Yara. Assim ela sublinhou a missão do Fórum da Juventude, que é uma organização feita por jovens e para jovens dos 22 municípios do Estado do Rio de Janeiro.

 

Maré de direitos e serviços

 

O estande do projeto Maré de Direitos, projeto da Redes da Maré, apresentou serviços sócio-jurídicos pelos projetos Defensoria em Ação, Construindo Pontes, De Olho na Maré e o Núcleo de Defesa da Mulher. A Clínica da Família Diniz Batista ofereceu vacinas contra a Influenza e HPV para jovens entre nove e 14 anos. A Defensoria Pública prestou serviços de orientação de acompanhamento de processos nas áreas cível e criminal e obtenção de certidão de nascimento fora do Estado do Rio de Janeiro. 

 

A Campanha Vamos pra Escola, do eixo Educação, da Redes da Maré, estava auxiliando pais para a matrícula nas creches, mas também cadastrando estudantes dos níveis fundamental e médio para avisar do período de matrícula. A Fundação Mudes, CIEDS e CIEE cadastraram jovens e adultos com vagas de emprego e estágio com promessa de entrevistas e a Fundação Leão XIII para isenção de custos para certidões de nascimento, casamento e óbito.

 

Lab Maré e soluções sustentáveis para o território

 

Algumas barracas da Feira trouxeram uma amostra dos resultados de projetos aplicados no território como o Lab Maré, que ao longo do ano vem incentivando iniciativas dentro da comunidade. O projeto Recria Maré, apresentado pelas estudantes Nicole Calheiros e Lívia Mesquita, desenvolveu o aproveitamento de resíduos com empreendedorismo feminino, como bijuterias feitas de cápsulas de café por moradoras do Parque União.

 

Foto © @Dougloppes

 

O projeto do Ecoclima, que construiu três protótipos para aplacar as mudanças climáticas foram apresentados: o biodigestor, instalado na rua Evanildo Alves, o telhado verde, feito na casa de uma moradora, na Rubens Vaz, para diminuir o calor dentro da residência e a composteira na creche Maria Amélia, para processar resíduos orgânicos. O Projeto Plantando Saúde, do eixo Direito à Saúde, da Redes da Maré, promoveu oficinas de preparo e plantio de plantas medicinais, a exemplo do que fazem nas Clínicas da Família.

 

A exposição “Por Trás das Câmeras”, do Centro de Segurança Pública, uniu pesquisa à arte discutindo os usos de tecnologias como reconhecimento facial de maneira parcial para rostos não brancos. O jornal Maré de Notícias distribuiu a edição de dezembro sob um mural multicolorido com as últimas edições de 2024. 

 

Foto © @Dougloppes

 

A Banda do Vida Real encerrou a Feira de Direitos Humanos com muito suingue de Tim Maia, samba de Alcione e feminejo de Marília Mendonça na voz grave e potente da egressa do projeto, a cantora Vanessa de Castro. Ainda teve um cachorro-quente com refrigerante para brindar mais um evento entregue com sucesso. 

 

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