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Arquitetura e urbanismo na favela

Hélio Euclides

Evento marca um olhar para as moradias da Maré

 

O Eixo Direitos Urbanos e Socioambientais (DUSA), da Redes da Maré, em parceria com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), realizaram no dia 25 de abril a primeira edição do projeto CAU/RJ Favela, no Centro de Artes da Maré. O encontro com outras instituições apontou para a busca de diálogo entre arquitetos, lideranças comunitárias e moradores para promover ações conjuntas que melhorem a qualidade de vida, reconhecendo a moradia como um direito das favelas.

O evento na Maré, com duas mesas, mediadas pela atriz e ativista Dira Paes, que mencionou a importância de garantir urbanismo à população das favelas. O arquiteto, urbanista e presidente do CAU/RJ, Sydnei Menezes, abriu os trabalhos defendendo moradia justa para todos. “Nasceu a sugestão de fazer um trabalho com as favelas e dentro do conselho ajeitamos isso. O CAU Favela/RJ é um movimento de levar a arquitetura e o urbanismo para as favelas. Esse encontro marca esse compromisso. Queremos fazer parcerias, pois podemos sair daqui com ações que podem começar daqui a um mês, para transformar as casas das pessoas”, disse.

Sandra Kokudai, arquiteta urbanista, conselheira do CAU/RJ, superintendente do Patrimônio da União pelo Rio de Janeiro, reafirmou a importância da arquitetura como ferramenta de transformação social. “Levar os arquitetos para favela tem um ganho. Uma das primeiras ações que fiz na faculdade foi no Ciep Samora Machel, na Nova Holanda, com estudantes. Precisamos ter uma preocupação com as habitações, pois abrir uma janela pode trazer iluminação e um bem para a saúde, como a prevenção da tuberculose. Não pode virar mercado, o importante é a participação dos moradores, para pensar junto ao poder público a questão da habitação”, comenta.

Sandra Kokudai; Foto: @Dougloppes

Diego Zeidan; Foto: @Dougloppes

Em seguida, Diego Zeidan, secretário municipal de habitação, argumentou que a habitação digna na favela passa por uma construção coletiva. “A minha família veio da favela do Caramujo, em Niterói. Por isso, defendo que os arquitetos e engenheiros precisam estar na favela. Precisamos resolver o problema de habitação na cidade, sabemos que não vamos zerar isso, mas estamos diminuindo. Os governos precisam ter um olhar atento para as favelas, destinando moradias dignas, como direito e não como mercadorias”, expõe. 

A primeira mesa foi encerrada com Éverton Pereira, geógrafo, urbanista social e coordenador do Eixo Dusa. “A Maré tem uma população que sofre com a ausência do poder público. Em 2023 criamos uma cartilha onde a habitação é um direito. Nós da Redes construímos conhecimento, trazendo o morador como protagonista na luta por direitos”, destaca. Foi mostrado na mesa a importância dos favelados, por meio dos dados do Censo 2022 do IBGE, que o Brasil possui mais de 10 mil favelas, o que corresponde a 8% da população do país.

 

Éverton Pereira; Foto: @Dougloppes

Ao abrir para perguntas, Júlio Pimentel, pesquisador do Observatório de Favelas, enfatizou que é preciso pensar além do evento e sem esquecer dos saberes locais para surgir as soluções, valorizando os pedreiros que criam as construções.

Sydnei Menezes; Foto: @Dougloppes

Dirá Paes; Foto: @Dougloppes

A segunda mesa começou realçando a importância da escuta dos moradores das favelas. “A discussão de urbanismo tem que ser um ato político, com um instrumento que seja igualitário, com respeitos aos territórios. Sem políticas públicas não dar, é necessário pressionar os governantes para que os recursos venham para as favelas do Rio, uma discussão que não ocorre no município. É preciso levar os arquitetos para áreas populares, pois não é a defesa civil que vai salvar o povo e sim a arquitetura”, acrescenta Cláudia Pires, arquiteta e urbanista. 

Alex Magalhães, doutor em planejamento urbano e regional e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), defendeu apresentar a favela aos alunos. “A Maré está no coração da UFRJ. É necessário colocar para os estudantes de arquitetura que na favela tem milhares de profissionais que constroem o espaço. A população precisa de infraestrutura e o poder público necessita pensar junto. O direito das favelas precisa ser prioridade e assim devemos ir às comunidades para aprender e não desorganizar as mobilizações”, conta. 

Algumas autoridades estavam sentadas junto ao público, entre elas, Luíza Maciel, subcoordenadora de Saúde e Tutela Coletiva da Defensoria Pública, que respondeu o anseio dos integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, sobre os valores altos para a documentação, o que vira um empecilho para o pobre regularizar sua casa. “Estamos entrando nessa parceria, pois os cartórios viram comércio, então a defensoria faz a assessoria para que todos tenham seu lar”, conclui. O evento foi encerrado com Sydnei e Éverton que assinaram um termo de compromisso para a preservação, revitalização e construção das praças das favelas da Maré.

 

Foto: @Dougloppes

O Eixo DUSA avaliou o encontro como valioso para a favela. “Trazer o poder público e o provocá-lo, por meio do CAU/RJ, a discutir habitação na favela é positivo. Queremos uma política pública por meio de uma construção participativa e o evento foi uma troca nesse sentido”, finaliza Éverton. 

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