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Redes da Maré finaliza a 5ª edição da Campanha Vamos pra escola! com 216 atendimentos mas cerca de 60% não conseguem efetivar pré-matrícula nas escolas municipais

Adriana Pavlova

Depois de três dias de muita mobilização nas ruas do Conjunto de Favelas da Maré e grande movimento nas sedes da Redes da Maré na Nova Holanda, Vila dos Pinheiros e Areninha Cultural Herbert Vianna, chegou ao fim, na sexta-feira, dia 16 de janeiro, a 5ª edição da Campanha Vamos pra escola!, que este ano prestou 216 atendimentos a responsáveis e estudantes em busca de auxílio para as pré-matrículas de novos alunos na Rede Municipal de Ensino, feitas exclusivamente no site da Prefeitura do Rio. Como nas edições anteriores, a história se repetiu: houve bem mais procura do que vagas disponíveis, evidenciando o descompasso estrutural entre demanda e oferta no território, especialmente em alguns segmentos da Educação Básica. 

 

Foto: @Dougloppes

Ao todo foram realizadas 84 pré-matrículas, enquanto 132 não foram efetivadas. Os números demonstram que aproximadamente 61% das pessoas atendidas não conseguiram efetivar a pré-matrícula, mesmo com apoio técnico e acompanhamento direto da equipe da Redes da Maré, e que a maioria dessas (84 casos) aconteceu por falta de vagas nas escolas próximas às residências dos candidatos. Nesta etapa, podiam se inscrever novos alunos de Pré-escola, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos.

Nesta edição da campanha, outros problemas recorrentes chamaram a atenção durante o atendimento: obrigatoriedade de endereço de email e de telefone fixo, que nem todas as famílias têm, dificuldade de finalizar o processo de pré-matrícula no celular e falta de vagas em muitos segmentos do Ensino Fundamental, como 6º ano (18 casos), 7º ano (15 casos),  3º ano e 1º ano do Ensino Fundamental (ambos com 13 casos), além de 31 casos de dificuldade de vagas de pré-escola.

Houve também muitos casos de responsáveis por crianças que saíram ano passado da pré-escola e deveriam ir este ano para o 1º ano. Essas famílias desistiram da inscrição automática nas escolas da Prefeitura, em dezembro, ao descobrirem que seus filhos foram alocados em unidades escolares muito distantes de suas casas. A esperança deles era conseguir uma vaga mais próxima na fase de pré-matrículas de novos alunos, mas, ao tentarem o acesso no sistema da Prefeitura, com o auxílio da equipe da Redes da Maré, o processo era travado. A partir daí, várias famílias tentaram ajuda nas escolas, na 4ª CRE e até no telefone de contato da Prefeitura do Rio – 1746 - , mas nem assim conseguiram resolver a situação.

Foto: @Dougloppes

Foto: @Dougloppes

“A criança perdeu a vaga porque a matrícula não foi feita em dezembro e agora o sistema da Prefeitura não aceita a inscrição nova. As famílias estão desesperadas sem conseguir avançar no processo de pré-matrícula porque as orientações foram desencontradas nos diferentes canais da Prefeitura”, explicou Cláudia Martins, da Redes da Maré. 

E, finalmente, mesmo com as pré-matrículas realizadas, algumas famílias não conseguiram efetivar a vaga nas unidades escolares indicadas porque não tinham o comprovante de pré-matrícula impresso. Apenas o número de pré-inscrição ou uma imagem da tela do site da Prefeitura não estavam sendo aceitos.

Pré-matrículas não realizadas 

Nayara da Silva Carvalho foi buscar uma vaga no 6º ano para o filho Daniel da Silva Bezerra, que, aos 15 anos, precisa voltar a estudar. Moradora da Nova Holanda, ela passou uma temporada com o filho no Espírito Santo e quando voltou, no ano passado, só conseguiu vaga para ele numa escola mais distante, na região do Jacarezinho. Por conta da distância, desistiu. E na tentativa durante as pré-inscrições também não teve sorte.

“Ano passado fui na 4ª. CRE três vezes e não consegui. Vim hoje na Redes querendo essa vaga, porque ele não pode ficar sem fazer nada, mas não consegui também”, disse ela que foi orientada pela equipe da Redes da Maré a ir diretamente nas escolas da Maré nos dias seguintes para tentar realizar a matrícula.

Na busca pelas vagas, algumas famílias estiveram nos postos de atendimento mais de uma vez e mesmo assim não conseguiram. A atendente de padaria Maiane Cabral, mãe de João Pedro, de 7 anos, esteve na sede da Redes da Maré da Nova Holanda três vezes na esperança de conseguir realizar a pré-matrícula no 3º ano. A família chegou do Maranhão e o menino precisa estudar perto de casa, mas as únicas opções que surgiram foram bem distantes, como em Del Castilho, Complexo do Alemão e Inhaúma. 

“Não adianta matricular o João Pedro num lugar onde não vamos conseguir levar ele todos os dias porque temos que trabalhar”, contou Maiane Cabral.

No polo da Vila dos Pinheiros, muitas famílias desistiram da pré-matrícula porque as vagas que apareceram eram do outro lado da Maré, muito distante de suas casas. 

“Apesar de serem escolas na Maré, os responsáveis não se sentem seguros em matricular seus filhos em favelas mais distantes, por falta de transporte e também por especificidades do território que geram medo”, explica Patricia Vianna, da Redes da Maré. 

 

Foto: @Dougloppes

Histórias de sucesso

Apesar das limitações do sistema, a campanha possibilitou histórias de sucesso, como famílias que conseguiram vagas mais próximas de casa e estudantes que retornaram à escola após longos períodos sem estudar, demonstrando o impacto positivo do apoio presencial e qualificado.

Entre as pessoas que conseguiram realizar a pré-matrícula estava Raquel Rodrigues que havia conseguido anteriormente uma vaga para sua filha Ana Luiza, de 4 anos, numa creche em Ramos e, depois do atendimento na sede da Redes na Nova Holanda, finalmente conseguiu fazer a pré-matrícula no Espaço de Desenvolvimento Infantil Pescador Isidoro Duarte, não muito distante da sua casa. 

Quem também saiu sorrindo foi Erenice Silva, cuja filha Ana Vitória, de 13 anos, vai, enfim, voltar a estudar depois de alguns anos. 

“Perdi um filho, fiquei em depressão e não consegui mais levar a Ana Vitória na escola, por isso ela perdeu o ano, e depois nunca mais consegui uma vaga para ela. Agora ela vai voltar a estudar no 4º ano na Escola Genival Pereira, onde queria, porque os primos também estão lá”, contou Erenice.

Teve sorte também a cozinheira Cristiane Conceição da Silva, que, depois de mais de 30 anos, vai voltar a estudar. Ela fez pré-matrícula para a turma da Educação de Jovens e Adultos. “Gostaria de fazer algo diferente e acho que pode ser muito bom voltar a estudar depois de tantos anos", disse ela.

De 2022 a 2026, a campanha Vamos pra escola! realizou aproximadamente 1.442 atendimentos a responsáveis e estudantes da Maré. Nesse período, foram 548 pré-matrículas efetivadas, somando as 464 realizadas entre 2022 e 2025 às 84 efetivadas na edição de 2026. Os dados  consolidados, incluindo tanto as pré-matrículas realizadas quanto as não efetivadas, são sistematizados e encaminhados posteriormente às secretarias de educação do município e do estado. Essa ação fortalece a incidência política do projeto, evidenciando a insuficiência de vagas no território e contribuindo para a formulação de políticas públicas que garantam o direito à educação na Maré. Da mesma forma, a equipe de busca ativa da Redes da Maré segue, durante todo ano, disponível para auxiliar famílias e estudantes que ainda procuram vagas.

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