« voltar   28.09.2026
Redes da Maré participa do 20º Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Aristênio Gomes dos Santos l Fotos: Danilo Ramos e Marcelo Kahn

A participação da Redes da Maré no 20º Fórum Brasileiro de Segurança Pública, realizado entre os dias 15 e 18 de setembro de 2026, em São Paulo, foi uma experiência importante de troca, incidência e construção coletiva no campo da segurança pública. Com o tema “O Brasil que queremos, segurança pública como direito fundamental”, o encontro reuniu organizações da sociedade civil, pesquisadores, profissionais das forças de segurança, integrantes do sistema de justiça, gestores públicos, movimentos sociais e diferentes atores envolvidos na formulação, implementação e monitoramento das políticas de segurança. A Redes da Maré esteve não apenas como participante, mas também como uma das instituições parceiras na construção do Fórum, contribuindo para ampliar a presença das experiências dos territórios populares nesse debate nacional.

A participação esteve articulada principalmente ao Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça e à área de Incidência da Redes da Maré. Ao longo dos quatro dias, foi possível acompanhar e contribuir para debates sobre diferentes dimensões da segurança pública brasileira, passando pela Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, prevenção e responsabilização por mortes e desaparecimentos causados por agentes do Estado, feminicídios e violência doméstica, violências contra a população LGBTQIAPN+, urbanismo social, política de drogas, integração de dados, investigação criminal, controle das polícias, criminalidade organizada, violência digital e direitos humanos. A diversidade da programação evidenciou a complexidade do campo e a necessidade de articular diferentes perspectivas para pensar políticas de segurança.

 

 

Importância de cuidar e escutar

Um dos aspectos importantes da participação foi a presença da equipe psicossocial do projeto Maré por Justiça, representada por Marcela Cardoso, Luca Lima e Handy Rosa, com o apoio do próprio Fórum. Durante o encontro, a equipe realizou o acolhimento e acompanhamento de familiares e vítimas de violência de Estado presentes nas atividades. Essa presença levou para um espaço nacional de debate uma dimensão fundamental da atuação da Redes: o cuidado e a escuta das pessoas diretamente afetadas pela violência, a partir de uma metodologia que vem sendo consolidada há mais de uma década.

No primeiro dia de programação, a plenária de abertura dos debates abordou a PEC da Segurança Pública, colocando em discussão os caminhos da política nacional de segurança. A participação permitiu acompanhar diferentes perspectivas sobre a organização das políticas públicas e os desafios de construção de uma política nacional capaz de responder à complexidade dos diferentes tipos de violências presentes no país.

Outro momento importante foi a participação no painel “Urbanismo social e segurança pública”, que reuniu diferentes experiências sobre a relação entre território, políticas urbanas e segurança. O debate possibilitou apresentar elementos relacionados ao recém-criado Plano Estadual de Reocupação Territorial e refletir sobre o papel das instituições comunitárias na construção desse diálogo. A experiência local contribuiu para evidenciar que pensar segurança também envolve discutir condições de vida, acesso a direitos e participação dos moradores nas decisões que produzem efeitos sobre seus cotidianos.

 

 

Quem controla a polícia?

       A discussão sobre o controle das instituições policiais também esteve entre os momentos centrais do encontro. Na mesa “Um balanço do cumprimento das determinações do STF no âmbito do julgamento da ADPF 635 (ADPF das favelas)”, Tainá Alvarenga representou a organização, ao lado de representantes do sistema de Justiça, da segurança pública e de instituições de pesquisa. O debate permitiu discutir os desafios relacionados ao cumprimento das determinações do Supremo Tribunal Federal e os mecanismos de controle e responsabilização das ações policiais nos territórios de favela.

A experiência do De Olho na Maré esteve presente nesse debate, como referência da capacidade de organizações locais produzirem informações sobre seus próprios territórios. A atuação demonstra que moradores e organizações não são apenas fontes de informação sobre as violências, mas também produtores de conhecimento, desenvolvendo metodologias próprias de monitoramento, sistematização e análise.

Outro momento significativo foi a participação na mesa “Quem controla a polícia? O papel do Ministério Público diante da letalidade policial”, que reuniu integrantes do sistema de Justiça, pesquisadores e familiares de vítimas da violência de Estado, entre elas Ana Paula Oliveira, das Mães de Manguinhos, e Débora Maria da Silva, das Mães de Maio. O encontro aproximou diferentes experiências de familiares e organizações que, em diferentes estados brasileiros, reivindicam investigação, controle e responsabilização diante da violência de Estado.

 

Um amplo debate

As discussões sobre gênero também atravessaram a programação, incluindo debates sobre feminicídios, violência doméstica e as dificuldades de prevenção e responsabilização, além das violências contra a população LGBTQIAPN+. Esses espaços contribuíram para evidenciar que os riscos e as formas de violência não são vivenciados da mesma maneira por todos os grupos sociais e que as políticas públicas precisam considerar essas diferentes experiências.

Também houve debates sobre os custos e efeitos da política de drogas, integração de dados na segurança pública, investigação criminal, provas periciais, prevenção, criminalidade organizada e diferentes formas de violência contemporânea. A amplitude da programação mostrou que a segurança pública ultrapassa a atuação policial e envolve políticas sociais, urbanas, educacionais, de saúde, Justiça, prevenção, produção de dados e participação social.

Um dos momentos de maior importância ocorreu no dia 18 de setembro, com a oficina “Participação social, controle das polícias e garantia de direitos no enfrentamento ao racismo estrutural e institucional”, organizada e facilitada pela Redes da Maré em conjunto com a Anistia Internacional. A atividade criou um espaço específico para aprofundar questões que atravessaram diferentes debates do Fórum, especialmente a participação da sociedade civil, os mecanismos de controle das polícias, o enfrentamento ao racismo estrutural e institucional e a garantia de direitos. Também possibilitou aproximar organizações com experiências distintas e fortalecer uma agenda comum de atuação.

 

 

A Redes da Maré em evidência

Ao longo do Fórum, a experiência da Redes da Maré reafirmou a importância de levar aos espaços nacionais os conhecimentos produzidos nos territórios. A atuação demonstra a capacidade de moradores e organizações de produzir dados, desenvolver metodologias, formular propostas e participar do monitoramento das políticas públicas que incidem sobre suas vidas. Ao final dos quatro dias, a participação no 20º Fórum Brasileiro de Segurança Pública foi uma oportunidade de compartilhar experiências, apresentar metodologias, acompanhar debates nacionais e fortalecer articulações com organizações, pesquisadores e instituições do campo da segurança pública e da defesa de direitos.

Mais do que uma agenda de palestras, mesas e oficinas, o Fórum possibilitou reafirmar uma concepção de segurança pública orientada pela garantia de direitos, pela participação social, pelo controle democrático das instituições e pelo reconhecimento dos territórios como espaços de produção de conhecimento. Fazer parte da construção desse encontro reforça a importância de que moradores e organizações estejam não apenas na condição de público, mas também como sujeitos que ajudam a formular os caminhos da segurança pública no Brasil.

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