Na terça-feira, 10 de dezembro, a Redes da Maré realizou o Rema Maré no Espaço Normal (Rua 17 de Fevereiro, 237 - Parque Maré), espaço dedicado para pesquisa e atendimento de pessoas em situação de rua. Em sua terceira edição, a proposta do evento é dedicar um dia de discussão e oficinas sobre saúde mental com parceiros, comunidade mareense e o público atendido pelo Espaço.
A diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, abriu o evento com uma referência à 42ª operação ocorrida no dia anterior,, que vitimou fatalmente 4 pessoas. “Faz parte da saúde mental não desistir”, disse, reforçando o compromisso com o acolhimento do público atendido pelo Espaço, há 6 anos, e a continuação e o aprofundamento do tema da saúde mental.

Foto © Douglas Lopes
Eliana destacou a relevância de parcerias no território para debater a saúde mental com qualidade e profundidade, e aproveitou para apresentar os parceiros ali presentes: o integrante do Programa Institucional de Política sobre Drogas, Direitos Humanos e Saúde Mental da Fiocruz, Daniel Elia, a gerente de Saúde e Projetos da People’s Palace Projects (PPP), Bruna Ribeiro, e a psicóloga especialista em saúde mental do CAPS Miriam Makeba, que atende a Maré, Lídia Marins.
A coordenadora do eixo Direito à Saúde, Fernanda Vieira, expandiu a fala de Eliana sobre a responsabilidade do acolhimento e o protagonismo dos usuários, trazendo a trajetória do homenageado do Rema Maré 2024: o escritor e jornalista Lima Barreto, que foi paciente psiquiátrico no começo do século XX e enfrentou um sistema cheio de estigmas no tratamento ao que se chamava de loucura. Mas, já naquela época, havia o que discutimos hoje como diferentes métodos de “tratamento”, “cura” e redução de danos. Rodrigo Pereira, coordenador do Espaço Normal, lembrou da forte relação de Lima Barreto com a cultura, e mesmo enfrentando o alcoolismo, tornou-se um dos escritores de maior relevância para a literatura brasileira.
Afonso Henriques de Lima Barreto é um escritor de grande importância para a cultura nacional. Suas obras visam trazer o ambiente da república brasileira, que tinha como objetivo abandonar o passado de atraso, mas que, na prática, as coisas não funcionam bem assim. Entretanto, em sua trajetória pessoal, enfrentou algumas internações psiquiátricas devido à questões com o alcoolismo. O escritor conheceu duas maneiras de lidar com a saúde mental. A indiferença e os castigos e o acolhimento e reconhecimento do potencial dos enfermos com a liderança do Dr. Juliano Moreira, psiquiatra baiano importante para a reforma psiquiátrica no Brasil e referência importante da Drª Nise da Silveira, homenageada da última edição do Rema Maré.

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Depois dos aplausos dos participantes, a psicóloga do CAPS Miriam Makeba Lídia Martins colocou o público em movimento com a oficina “Respira e não pira”. Nenhuma parte do corpo ficou imóvel. Pés, mãos, cabeça e panturrilhas girando, pulsando…Uma respiração profunda provocou o grito das pessoas ao final dos exercícios. A psicóloga chamou a atenção de que não é possível cuidar da mente em desconexão com o corpo. Ela sublinhou a importância de exercitar a panturrilha, que é considerada o nosso segundo coração já que auxilia no retorno do sangue para o coração. Já existem alguns estudos conduzidos por universidades brasileiras, como a USP e Unifesp, que comprovam práticas regulares de exercícios físicos para atenuar sintomas do Alzheimer.
Relatos de trajetórias e atravessamentos

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Depois da oficina, o público foi convidado a ouvir a trajetória dos usuários Maria Cristiane, Wallace Máximo e Francisco Santos na mesa “Trajetória do Cuidado - Como cheguei nos serviços - Experiência de acesso à equipamento de saúde”, que foi mediada por Daniel Elia, do Programa Institucional de Políticas sobre Drogas, DH e Saúde Mental da Fiocruz.
Maria Cristiane contou da sua trajetória bastante difícil com a bebida. Vivenciou um episódio de amnésia alcoólica. Sofria ideação suicida que a levou a tentar se jogar da Avenida Brasil. Emocionada, afirmou que sua família jamais desistiu dela e que, hoje, carrega muito orgulho de si própria por ter vencido. Com um farto sorriso no rosto, Maria Cristiane disse se sentir tão capaz quanto qualquer outra pessoa.
Wallace Máximo relatou que não sabia lidar com o luto de seu pai. Mudou-se para outro Estado e não teve auxílio profissional quando chegou em surto. Teve o apoio da sua família. Chegou ao CAPS sem esperança, mas foi alertado por um médico, por quem tem um grande carinho até hoje: “Fica tranquilo que o furacão vai passar.” Conseguiu sair da medicação e, posteriormente, pôde ajudar sua irmã, que passou por um evento psiquiátrico.
Francisco Santos chegou ao Hospital Nise da Silveira há 45 anos, em 1979, em surto. Tomou banho de vassoura; foi submetido à terapia de choque insulínico, que faz com o que o paciente entre em coma com altas doses de insulina. Francisco disse estar há 20 anos sem usar medicação. Aderiu à luta antimanicomial. De acordo com a avaliação do ativista da saúde, os Centros de Atendimento Psicossocial, os CAPS, vêm adotando práticas contrárias às da psiquiatra Nise da Silveira, pioneira da luta antimanicomial e uma das homenageadas do Rema Maré de 2022.
Depois dos relatos, Daniel Elia abriu a mesa para perguntas. Surgiu um questionamento sobre a importância da convivência para a saúde mental. Francisco Santos, que chegou a conhecer a doutora Nise da Silveira, confirmou que o vínculo é fundamental para a saúde mental. Reclamou do descaso com os usuários em muitos CAPS e relembrou um momento em que não havia cuidadores no Hospital Nise da Silveira, e como a ajuda mútua dos usuários contribuiu muito para o tratamento.
Wallace relatou sua resistência ao tratamento no início e quanto à adesão às atividades coletivas, como a oficina de pintura, foram mudando sua maneira de observar a sua condição. Ele alertou que se buscar ajuda, ela estará lá. Kleber Quintino, usuário do Espaço Normal, relatou a tentativa de esconder os usuários de drogas dos turistas durante o G20. Ele clamou pela humanização dos usuários. Daniel Elia encerrou a mesa afirmando que é importante ter os serviços dos CAPS disponíveis para qualquer pessoa que necessitar.
A parte da tarde foi reservada para uma conversa sobre a relação da saúde mental com a arte. A mesa “Arte e Produção de Vida: como outras Atividades e Dispositivos apóiam no Cuidado em Saúde Mental”, mediada pela psicóloga do CAPS Miriam Makeba Camylla Chagas, foi composta pela porta-bandeira do Loucura Suburbana e trabalhadora do arquivo do Hospital Nise da Silveira, Elisama Arnaud, o maranhense e frequentador do Espaço Normal Edilberto da Silva e o bolsista do projeto Rio de Música Felipe Pires.
Elisama relatou que ao chegar no Hospital Nise da Silveira foi ao longo do tempo foi se envolvendo nas atividades oferecidas, começou a costurar para o bloco Loucura Suburbana, que hoje vende estandartes de carnaval, e a compor para o Loucura Suburbana, tendo dois dois sambas já escolhidos. Também trabalha no arquivo do hospital, tarefa que julga tão importante para a história da saúde mental do país.
Edilberto declarou que, apesar de ter sido convidado por diversas instituições para a internação por conta da dependência de drogas, nunca se interessou pelo método. No Espaço Normal começou na oficina de desenho, mas se encantou com a peça de teatro que assistiu na Areninha Herbert Vianna. Isso despertou a sua vontade de investigar a palavra, e este ano concluiu o ensino fundamental.

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Felipe enfrentou a perda do seu pai muito cedo. Hoje faz aulas de canto e flauta no projeto Rio de Música, oferecido pela ONG de mesmo nome, que teve sua sede original no Jacarezinho. Relembrou alegremente a oficina de bijuteria realizada no CAPS Magal, em Manguinhos, que trouxe dignidade para a sua vida com as vendas dos artigos.
Camylla Chagas fez uma observação do quanto a arte traz outras perspectivas para o tratamento. Felipe e Elisama pontuaram sobre expressar sentimentos através do fazer artístico e também sobre a autonomia financeira. Edilberto completou dizendo que arte fez ele reconectar o pensamento, pois afirmou ser uma atividade desafiadora para quem consome drogas. “Foi através da arte que eu cheguei até aqui”, disse. Felipe aproveitou a deixa para entoar a canção Povoada, de Sued Nunes, e Edilberto dedicou o poema "E agora mulher?, de Clara Elaine Silva, à plateia encerrando a segunda mesa do evento.
O coordenador do Espaço Normal, Rodrigo Pereira, realizou a entrega dos certificados dos agentes comunitários que participaram da primeira etapa do projeto Rede de Apoio em Saúde Mental, parceria da Redes da Maré com a Fundação Tide Setubal, que resultou na cartografia da rede de saúde mental da Maré, que estava sendo distribuída durante o Rema Maré. A segunda etapa que amplia a visão destes profissionais com a interseccionalidade e outros temas ainda segue em curso até o próximo ano.
A bailarina Thay IDD encerrou o Rema Maré colocando os participantes para fazerem a dança do passinho. Após absorverem algumas técnicas, todos caíram na dança com muita alegria. Depois do baile os modelos Normais, anunciados por Douglas Paiva, psicólogo do CAPS Miriam Makeba, demonstraram graça e muita pose com seus figurinos e maquiagem realizada pela equipe Maré de Beleza.
Aproveitando o momento do café, a Redes da Maré ouviu a gerente de Saúde e Projetos da People’s Palace Project (PPP), Bruna Ribeiro, sobre a importância da discussão do tema de saúde mental no contexto dos territórios de favela com soluções genuínas em conversa com as pessoas que vivem neste contexto. A instituição é parceira de longa data da Redes da Maré e realizou a primeira edição do Rema Maré 2024 e a pesquisa Construindo Pontes, publicada em 2021, que se debruçou sobre os impactos da saúde mental para pessoas impactadas pelo conflito armado, permitindo a terceira semana de debate sobre o assunto na Maré.
Não há como não conectar a fala da Bruna ao encontro do escritor Lima Barreto, em 1903, em sua segunda internação no Hospital dos Alienados, hoje, Instituto Phillipe Pinel, no Rio de Janeiro, com o doutor Juliano Moreira, psiquiatra negro baiano. No auge da eugenia proferida por seu professor e, depois, colega, o psiquiatra Raimundo Nina Rodrigues, Moreira refutava esta metodologia como não científica. A eugenia, método desenvolvido pelo sociólogo inglês Francis Galton, no final do século XIX, considerava que pessoas negras e mestiças seriam naturalmente inferiores aos brancos, sendo assim, propensas à doenças como a loucura. Na obra inacabada Cemitério dos Vivos, Lima Barreto elogia o tratamento recebido pelo médico baiano, que não via como louco, senão como alguém diferente, e que o seu contexto, influenciava no seu sofrimento mental.

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