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TESTEMUNHOS DE DENTRO • 10

Rio de Janeiro, 12 de junho de 2024

O que você faz em trinta horas? Na maior parte do cotidiano das famílias da Maré, trinta horas, incluem acordar cedo para o trabalho, colocar as crianças na escola, ir ao posto médico ou pagar uma conta, fazer o almoço, buscar a criança na escola, cuidar dela antes de preparar o jantar, terminar os afazeres domésticos e se preparar para uma boa noite de sono antes de tudo recomeçar no dia seguinte. Assim é a rotina de milhares de moradores do Conjunto de Favelas da Maré.

Contudo, não foi assim nas últimas trinta horas. Moradores relataram acordar antes das 05h sob intenso barulho de tiros, ao som dos veículos blindados e helicópteros sobrevoando suas casas. Com a rotina interrompida, muitas dessas famílias não puderam levar suas crianças à escola, que, por sua vez, não abriu para manter a segurança dos alunos e dos profissionais da educação. Quem tinha consulta ou exames marcados não pode transitar em segurança, além de algumas Clínicas da Família e postos médicos não funcionarem ou terem seus serviços parcialmente ofertados. Aqueles que precisavam sair para ir ao mercado ou comprar algo para complementar a refeição, não encontravam comércios abertos e, no horário em que normalmente se descansa após um dia intenso, moradores relataram a angústia de virar noite adentro sob clima tenso e inseguro. E assim amanheceu e mais um dia de fluxo cotidiano foi interrompido.

As ruas que antes pulsavam vida, agora parecem um deserto incerto, como um cenário em que o terror das tragédias modifica a poética do espaço. O clima, que normalmente é do som das crianças, das motos que levam moradores em diferentes pontos da Maré, das vans que fazem o deslocamento para o bairro vizinho em que há uma gama de comércios, todos os sons que dão vida e dizem que a Maré está tranquila, perdeu sua atmosfera nesses dois dias consecutivos de operações policiais. Diante dessa situação, o silêncio passa a ser assustador. Nele, o desconhecido causa medo e incerteza, nos faz imaginar o pior, nos traz sensação de insegurança mesmo em nossos lares, locais em que deveríamos nos sentir seguros.

O vendaval de violações de direitos, incluindo o direito de viver, deixou cinco pessoas sem vida, incluindo um policial. Como não ficar com as marcas profundas na memória ao testemunhar essas violações? Apesar disso, são os moradores que, articulados, protagonizam a busca por justiça e reparação. Tal protagonismo nos leva a pensar que a proteção vem de nós, por nós, moradores que incansavelmente lutam por dias melhores.

Morador de favela não é inimigo do Estado, mas é tratado como se fosse, por quê? Precisamos mudar a lógica de que em todo camburão tem um pouco de navio negreiro. Mas como fazer isso, se o acesso à educação, um dos pilares para transformação da realidade social, é sempre um dos mais impactados nessas situações?

Que a 16.ª operação policial na Maré não seja tratada como mais uma operação bem-sucedida, porque enquanto houver violações de direitos por meio de lógicas belicistas, não haverá sucesso.

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