Rio de Janeiro, 28 de agosto de 2024
A manhã do dia 28 de agosto de 2024, infelizmente, amanheceu como todas as nove dos dias anteriores. E não é sobre o céu, sobre o sol, ou sobre o clima. É o 10º dia consecutivo de operações policiais na Maré. Mais um dia em que muitos moradores não podem sair livremente de casa. Tem sido esse um período de ataques severos aos direitos fundamentais de qualquer pessoa.
Como se não bastasse o clima de medo e incertezas do que pode acontecer durante a circulação de policiais fortemente armados, crianças e adolescentes estão sem aulas e cerceados dentro de suas próprias casas. O que resta é acompanhar o que está acontecendo pelas redes sociais e socializar as informações que se sabem, mas tal movimento, natural entre os jovens, foi ameaçado na tarde de ontem.
Chegou ao plantão do Maré de Direitos, projeto da Redes da Maré, a notícia de que uma jovem de 22 anos, moradora da Nova Holanda, foi ameaçada por um policial que se infiltrou em um dos grupos de WhatsApp que reúne moradores da região. Preocupada e com uma crise de ansiedade aguda, ela procurou ajuda e orientação sobre o que poderia fazer neste caso.
A realidade tenebrosa na qual os moradores estão mergulhados nos últimos dias tem causado diversos desgastes. Ninguém aguenta acordar mais uma manhã e receber a notícia de que haverá operação policial. A situação está insuportável. Foi na tentativa de se proteger, minimamente, diante desse cenário de muita incerteza, que moradores criaram um grupo de WhatsApp no qual compartilham informações sobre a segurança local. No entanto, o que deveria ser um espaço seguro, de apoio e solidariedade virou palco de agressão e ameaça cruel. Policiais de forma arbitrária entraram no grupo para controlar o que era falado pelos moradores nas trocas de mensagens. Ontem, uma moradora recebeu um áudio perturbador e preconceituoso de uma pessoa que se dizia um dos policiais infiltrados, chamando a jovem de "chupeta de baleia". E emendou com uma evidente ameaça e mais humilhações: "Tu não tá passando batida não. Tu vai ter o que tu merece, marmita de vagabundo.” Eles também printaram uma imagem dessa moradora e jogaram no próprio grupo para mostrar que sabiam quem ela era.
Depois disso, moradores relataram que alguns policiais circularam pelas ruas da Nova Holanda, gritando: “Cadê você, Chupeta.” A intimidação explícita e a presença contínua desses policiais não coloca em pânico apenas a jovem, mas também espalha um clima de terror entre os moradores. Mesmo porque ela foi ameaçada diante de centenas de outros participantes daquele grupo. Segundo os moradores, os mesmo policiais fizeram ameaças à Redes da Maré, apontando e dizendo “isso aí vai acabar!”. Ao que e a quem interessa o fim de uma organização que potencializa moradores no acesso a direitos fundamentais?
O que aconteceu a essa jovem e o que vem acontecendo aos moradores das favelas da Maré há quase dez dias é um escândalo, um descalabro, pois afronta a liberdade de ir e vir, de existir, de ter a certeza de que um novo dia chegará com possibilidades de se viver plenamente. As instituições do Estado deveriam trabalhar em prol da população e não contra ela. A favela é cidade e o favelado é um cidadão. Será que isso aconteceria em qualquer bairro do Rio de Janeiro? Somos da Maré e temos direitos!
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