Número de operações já supera o total registrado em todo o ano de 2023, quando aconteceram 34 intervenções das forças policiais
Depois de uma trégua de dois dias na sequência de 14 operações policiais consecutivas ocorridas nas últimas duas semanas, os moradores do conjunto de favelas da Maré são novamente surpreendidos, ainda na madrugada desta terça-feira (3), com o som estrondoso de tiros e a circulação de veículos blindados e policiais a pé pelas ruas, agora em outro grupo de favelas: Baixa do Sapateiro, Conjunto Esperança, Vila dos Pinheiros, Vila do João, Morro do Timbau e Salsa e Merengue. É a 37ª operação policial do ano, desta vez mais distante do Parque União, onde estava acontecendo a demolição de um condomínio de prédios. Até o momento, três pessoas morreram e há relatos de diversos tipos de violações de direitos ocorridas contra moradores dessas favelas, como 30 invasões a domicílio, 24 danos ao patrimônio e um caso de tortura apenas no dia de hoje.
Serviços básicos, como já é de costume, foram severamente impactados, entre eles o direito à educação. Pelo menos 43 escolas, sendo uma estadual e 42 municipais, fecharam suas portas no dia de hoje, impactando milhares de estudantes. Três unidades de saúde tiveram seus atendimentos impactados, total ou parcialmente.
Em Nota, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro informou que a operação estava sendo realizada em conjunto com a Polícia Civil com o objetivo de “localizar criminosos envolvidos em disputas territoriais”. No mesmo texto, eles afirmam que cinco pessoas foram presas e seis fuzis foram apreendidos, além de duas pistolas e drogas.
Ainda que pretensamente possa existir um foco, segundo afirmação dos órgãos do Estado, a verdade é que as operações policiais, da forma como elas acontecem, impactam a rotina de uma população de 140 mil pessoas. É importante lembrar que o conjunto de favelas da Maré é maior que 96% dos municípios brasileiros em termos populacionais. Doloroso pensar que os moradores da Maré estavam tentando se recuperar das últimas duas semanas de intervenções policiais ininterruptas e hoje são defrontados com mais um contexto que tem gerado medo, tensão e impede, indiscutivelmente, o direito básico de ir e vir, encarcerando as pessoas dentro de seus próprios lares.
As seguintes violações de direitos já puderam ser evidenciadas hoje: episódios de arrombamentos de portões, invasão de domicílios em que policiais reviraram roupas, jogaram alimentos da geladeira no chão, viraram mesas e sofás, xingamentos a moradores, tortura e carros arrombados. Uma moradora teve a casa invadida e recebeu voz de prisão simplesmente porque perguntou o que estava acontecendo para eles entrarem na casa dela de forma tão brutal. Uma das vítimas dessas violações informou que teria ouvido dos policiais que eles estariam na Maré "porque três deles haviam sido mortos ali", se referindo às mortes de policiais do Bope, ocorridas em junho deste ano.
Diante dos recentes fatos que têm marcado a população da Maré, é imperativo destacar que não importa o objetivo da operação, o modus operandi dos agentes policiais sempre é marcado por violência. Até domingo, o motivo da presença de forte aparato policial nas favelas da Maré era a questão das moradias irregulares no Parque União. Agora, a história é outra, mas o resultado para os moradores continua sendo o mesmo: o cerceamento de liberdades individuais e de direitos coletivos. Esse cenário fere o que é preconizado na Constituição Federal, que rege nossa sociedade, e também na ADPF 635, que determina condutas para que o estado democrático de direito prevaleça em situações de ações policiais. Não é o que temos visto nas últimas semanas, e mais uma vez, no dia de hoje, na Maré.
Entenda os impactos das intervenções policiais na Maré (Uma reflexão sobre o direito à educação plena na Maré) leia AQUI
Redes da Maré
03 de setembro de 2024
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