voltar
Mais uma operação policial na Maré que interrompe rotina, viola direitos e deixa traumas

A Redes da Maré, vem à público, nesta quinta- feira, dia 10 de julho, externar, mais uma vez, que na 2º operação policial na Maré, após julgamento da ADPF das Favelas, os moradores da Maré tiveram seus direitos violados e o descumprimento de algumas das medidas, como a ausência de ambulância durante a ação.

Por volta das 05h da manhã, moradores das favelas Parque Maré, Nova Holanda, Rubens Vaz e Parque União foram surpreendidos e acordados com barulhos intensos de bombas, tiros, presença de blindados, viaturas e policiais a pé. 

Segundo informações publicadas no Twitter da PMERJ, blindados da COE e efetivos do 22º BPM participou da ação. No entanto, recebemos relatos da presença dos batalhões 15º, 16º, 17º da Polícia Militar. A operação policial  interrompe mais uma vez a rotina de milhares de moradores a região. Entre os principais impactos estão a suspensão de aulas em 29 das 49 escolas da rede municipal e obrigou duas das seis unidades de saúde da região a fechar as portas temporariamente.

Em contato com as assessorias das polícias, buscando as informações oficiais e maiores informações sobre as ações, não  tivemos retorno, até o fechamento desta nota. 

Uma medida estabelecida pela ADPF 635, a ADPF das Favelas, pôde ser percebida na operação desta quinta-feira: um considerável número de agentes de segurança com câmera de monitoramento nos uniformes. Mas um fato chamou atenção: a presença de agentes dos batalhões portando celulares particulares, tirando selfies e fotos durante o período de trabalho.

Uma moradora que teve a casa invadida por agentes de segurança, sem mandado, relatou que um deles gravou toda a abordagem, sem nenhuma justificativa formal. A casa foi revirada, com muitos objetos pessoais jogados no chão, gavetas quebradas e intimidações realizadas. Em um dos relatos colhidos pela equipe da Redes da Maré, uma mãe com seus três filhos, de a 4 e 6 anos e 11 anos, disse que, enquanto fazia a vitamina das crianças foi ameaçada por um dos agentes e que, além de gravar a casa dela, disse às crianças que as levaria ao Conselho Tutelar. Isso vai de encontro com o Marco Legal da Primeira Infância, onde está previsto a proteção integral da criança, com destaque à importância do desenvolvimento físico, cognitivo, social e emocional. Crianças que presenciam situações de violências, principalmente nessa fase da vida, podem desenvolver traumas profundos. 

 

Em dias como o de hoje, em que crianças têm seu direito à educação violado, ainda presenciam as violências que ocorrem dentro de seu próprio lar, com abordagens truculentas e sem amparo legal que justifique as condutas dos agentes da segurança pública.

Outra situação ocorrida foi a de uma moradora que presenciou uma abordagem truculenta ao seu filho em frente à porta de casa. Cabe ressaltar que essa mesma moradora perdeu um filho durante uma operação policial na Maré, em 2024, o que diante, do cenário já complexo, aciona traumas já vividos e o medo de reviver novamente a perda de mais um filho. 

Enquanto a operação policial acontecia, uma moradora sofreu um AVC e precisou ser socorrida pelo BOPE. Outra mulher precisou ser contida por agentes, próximo à passarela 10, pois, segundo relatos, tentou suicídio. Não é de hoje que se sabe das consequências causadas por situações de grande estresse, medo e ansiedade. Em 2024, três pessoas vieram a óbito durante as operações após sofrerem algum mal súbito. Os impactos sobre o corpo dos moradores se materializam para além do ferimento ou morte à bala: aparece no derrame, no infarto e na saúde mental. É fundamental que se discuta e se considere os efeitos da violência armada no psicológico das pessoas.

Além disso, foi observada a ausência de ambulâncias nas ruas das favelas impactadas pela operação. Em contato com o Plantão da ADPF 635, do Ministério Público Federal, recebemos a informação de que a ação foi comunicada e houve o destacamento da ambulância. Contudo, durante todo o período da ação, in loco, nenhum profissional da Redes da Maré observou a presença de ambulâncias. 

A Redes da Maré entende que o julgamento da ADPF não mudará da noite para o dia práticas que foram, e são, historicamente, enraizadas nas instituições de segurança pública. Contudo, seguirá desenvolvendo ações e metodologias de trabalho que visem mudar, em médio e longo prazos, a naturalização dessas práticas.

 

Redes da Maré 

Rio de Janeiro, 10 de julho de 2025

Fique por dentro das ações da Redes da Maré! Assine nossa newsletter!