voltar
O avanço das políticas contra a fome no Brasil e a persistência da insegurança alimentar nas favelas

A Redes da Maré recebe com esperança a recente notícia de que o Brasil deixou, mais uma vez, o Mapa da Fome. Este é um reconhecimento do esforço coletivo da sociedade brasileira e de políticas públicas que, quando priorizadas, demonstram seu impacto positivo na vida de milhões de pessoas. Celebramos essa conquista, cientes de que ela reflete um passo crucial na garantia de direitos básicos.

Contudo, um número significativo da população brasileira, mesmo que não esteja em situação de fome, está em insegurança alimentar. Atuando há mais de duas décadas no Conjunto de Favelas da Maré, sabemos da complexidade da insegurança alimentar e nutricional, sua persistência e como se manifesta de formas multifacetadas em contextos urbanos periféricos. Apesar de estarem em grandes cidades, as favelas enfrentam desafios únicos que as tornam particularmente vulneráveis à fome oculta e à deficiência nutricional. 

A precarização do trabalho, a dificuldade de acesso a alimentos frescos e de qualidade, a infraestrutura inadequada, a ausência de segurança pública, as mudanças climáticas e as flutuações econômicas são fatores que mantêm muitas famílias em um ciclo de vulnerabilidade.

Nosso trabalho, no campo do enfrentamento da insegurança alimentar e nutricional, é parte integrante de um de nossos eixos estruturais de trabalho, pelo eixo Direito à Saúde, da Redes da Maré. Embora potencializado e ampliado dramaticamente durante a pandemia de COVID-19, quando a distribuição de cestas básicas e refeições se tornou uma ação emergencial, esse trabalho é a continuidade de um compromisso histórico da organização.

Projetos como o Maré de Sabores, por exemplo, já desenvolviam e promoviam a segurança alimentar através da valorização da culinária local e do acesso a alimentos saudáveis, formação de mulheres para a gerando renda, troca de saberes com escolas e famílias, fortalecendo a criação de redes de apoio e proteção para as mulheres da Maré, que impacta na comunidade como um todo.

 

@patrickmarinho

Como organização da sociedade civil que atua diretamente na base, nossa contribuição para o enfrentamento da insegurança alimentar vai além da assistência. Trabalhamos na incidência política para a construção de políticas públicas a partir das experiências e vivências dessas populações, na articulação de redes e na busca por soluções sistêmicas que garantam o acesso pleno e permanente a uma alimentação adequada para todas e todos. Compreendemos que sair do Mapa da Fome é um marco importante, mas não é o fim da luta. 

Dados relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025

Segundo o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025 (SOFI 2025), da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o Brasil reduziu o percentual de pessoas em insegurança alimentar grave para menos de 2,5% da população, o que corresponde a cerca de 5,3 milhões de pessoas em situação de fome. Esse número, embora menor que em anos anteriores, ainda revela um contingente significativo de brasileiros, majoritariamente mulheres negras, mães solo, crianças e famílias periféricas que vivem a violação cotidiana do direito à alimentação.

Entretanto, esse número se amplia se analisarmos os outros níveis de insegurança alimentar. A  Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), determina que há, ainda, níveis de insegurança alimentar moderada e leve, que considera outros parâmetros como qualidade e frequência da alimentação. Segundo essa classificação, um número significativo da população brasileira, mesmo que não esteja em situação de fome, está em insegurança alimentar.

O retorno do Brasil ao Mapa da Fome, entre 2022 e 2024, evidencia as fragilidades das políticas públicas que garantem de forma efetiva segurança alimentar e mostrou como retrocessos institucionais colocam em risco conquistas históricas. Em territórios como a Maré, onde as vulnerabilidades se acumulam, é urgente reconhecer que combater a fome exige transformação estrutural, compromisso político, justiça social e investimento contínuo em políticas integradas.

Ainda há um longo caminho a percorrer para erradicar a insegurança alimentar, em todas as suas dimensões, e garantir que cada morador e moradora da Maré tenha o direito à alimentação plena e saudável assegurado.A Redes da Maré reafirma seu compromisso em seguir nessa luta, valorizando o protagonismo dos moradores e fortalecendo as parcerias com outras organizações do território e o poder público. 

Cozinha comunitária na Maré

Atualmente, estamos construindo uma cozinha comunitária na Maré, com o objetivo de ampliar o escopo das ações de segurança alimentar no território. Distribuímos, também, cestas básicas e cerca de 300 refeições prontas, de segunda a sexta-feira, para famílias em situação de insegurança alimentar e pessoas em situação de rua. 

 

 

@patrickmarinho

Como parte das ações nesse campo, somente neste ano de 2025, já promovemos a qualificação profissional em Gastronomia para 100 mulheres da Maré, articulando práticas de educação alimentar e nutricional. Além disso, investimos na criação de hortas comunitárias como espaços de produção de plantas medicinais, encontros e de troca de saberes. Em parceria com outras organizações, implementamos um biodigestor que representa um avanço importante de práticas sustentáveis no território. Essa tecnologia tem permitido o reaproveitamento de resíduos orgânicos em biogás e biofertilizante, contribuindo para a redução do lixo na Maré. 

 

Seguimos empenhados para que a dignidade e a soberania alimentar deixem de ser uma promessa e se tornem uma realidade concreta na vida de cada família da Maré.

 

Redes da Maré

 

Rio de Janeiro, 08 de agosto de 2025

Fique por dentro das ações da Redes da Maré! Assine nossa newsletter!