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Helicópteros em  operação  policial nas favelas da Maré  são usados como plataforma de tiro 

Crédito foto: Douglas Lopes

Infelizmente, temos de escrever esta
Nota trazendo fatos que ocorreram na manhã desta sexta-feira, 26 de setembro de 2025, numa operação policial classificada como “emergencial", que teve início por volta das 8h20. Ocorreram incursões na Vila do João e na Vila dos Pinheiros motivadas, segundo a Subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil, por uma suposta movimentação de grupos criminosos que não atuavam nessa região.

Pensamos ser importante trazer alguns dos fatos aqui, numa tentativa de nos contrapormos ao modo como a grande mídia e algumas notícias em redes sociais são tratadas. Sabemos o quanto as formas de veiculação dos acontecimentos nas operações policiais em favelas são manipuladas e, também, o quanto passam uma visão deturpada, para a maioria da população da cidade, de que elas são necessárias.

Falamos isso por muitas razões e uma delas é o fato de que temos estudado bastante sobre o modo como as intervenções policiais acontecem quando se trata das favelas no Rio de Janeiro. Sabemos que a existência de redes criminosas em uma determinada região não poderia justificar o modo ilegal de atuação do Estado, atráves dos agentes da segurança pública. Por isso, queremos manifestar nossa indignação pelo modo como os moradores das favelas da Maré foram desrespeitados hoje, justamente por quem deveria atuar na sua proteção.

Em decorrência dos confrontos armados, com a chegada da polícia, três mulheres ficaram feridas e uma pessoa morta, Edmilson Marques de Oliveira, integrante  de um grupo armado que atua  na região.  A operação desencadeou mais de três horas de intensos tiroteios, inclusive partindo dos helicópteros que sobrevoaram a região,  criando uma situação de pânico para os moradores que se encontravam circulando no momento dos tiroteios. 

A Linha Amarela, que margeia parte das favelas da Maré, foi interditada, com impactos diretos, também, na Avenida Brasil e na Linha Vermelha. Esse episódio ocorreu apenas três dias após a aprovação, pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), da chamada “Gratificação Faroeste”,  um bônus  destinado a policiais civis que receberão gratificação quando apreenderem armas de grande calibre ou de uso restrito, ou “ neutralizarem bandidos em operação policial. A proximidade temporal entre a medida legislativa e a operação policial em algumas  das favelas da Maré reforça a importância de problematizar a forma como políticas de incentivo à letalidade podem impactar diretamente a dinâmica das ações de segurança pública, ampliando riscos para moradores de regiões onde  esse  direito   não existe como um direito humano.  

É uma lógica que reforça a estigmatização de certas partes da cidade onde há uma total negligência quando pensamos em políticas públicas e efetivação de direitos para cidadãos na cidade.  A situação vivenciada por moradores da Maré neste  dia, 26 de setembro de 2025,  não pode ser naturalizada, nem, tampouco, pode ser considerada como algo aceitável num lugar como a Maré.  Uma região  que foi oficializada pela Prefeitura do Rio de Janeiro como bairro, há 30 anos,  mas que até hoje não recebe o tratamento e os investimentos necessários para que qualidade de vida seja possível para essa população.

A rotina dos moradores da Maré foi profundamente impactada. As instituições públicas e da sociedade civil que têm atuação nas favelas da Maré foram surpreendidas, criando uma situação de pânico já que estávamos em horário de entrada dos alunos nas escolas e atividades de rua envolvendo crianças e adolescentes e seus professores. O número significativo de marcas de tiros em paredes de áreas residenciais e comerciais na Vila dos Pinheiros chama à atenção.

Nesses momentos de operação policial, a Redes da Maré está presente com profissionais que buscam acompanhar os chamados e relatos dos moradores sobre as possíveis violações que os atingem. No canal direto  que temos com a população, recebemos  vídeos que demonstravam o terror enfrentado pelos estudantes  nas escolas. 

Além do terror que atinge os moradores diretamente das favelas da Maré, não podemos deixar de pontuar os efeitos em instituições vizinhas à Maré e a rotina que se altera a partir do medo nas vias que cortam a região. Além das crianças e professores nas escolas, 980 pessoas que aguardavam consultas nas Clínicas da região foram diretamente afetadas, bem como os mais de 400 profissionais que estavam em seus horários de serviço no momento dos disparos.

Uma situação e um contexto que pensamos poderia ser muito diferente não fosse a escolha que tem sido feita pelos governantes do Estado do Rio de Janeiro de insistir em desrespeitar as leis e insistir no confronto bélico como única forma de atuar nas favelas.  Várias medidas já aprovadas e garantidas pela ADPF 635, conhecida  como a ADPF das Favelas,  seguem sendo desrespeitadas nesses territórios. Segundo dados coletados e analisados pela Redes da Maré, que há 10 anos monitora e acompanha (in loco as operações policiais na Maré, nas 12 operações policiais ocorridas até junho deste ano, somente em 16,7% havia a presença de ambulância, apenas em 25% houve uso de câmeras nas fardas dos policiais, 83,3% tiveram invasões de domicílio e não houve perícia em nenhuma das nove mortes registradas. Também, segundo dados da Redes da Maré, desde 2016, 157 pessoas foram mortas em operações no território, taxa quase cinco vezes maior que a média estadual.

A Redes da Maré chama a atenção para a repetição de operações policiais sem planejamento e sem mecanismos de proteção à vida dos moradores, o que amplia a insegurança e o risco  de quem vive nesses territórios. A política de segurança pública do Estado precisa oferecer respostas estruturais para a redução da violência com políticas públicas consistentes e integradas que garantam segurança, educação, saúde e bem viver, em vez de continuar apostando em incursões que colocam em risco a vida de milhares de pessoas e a interrupção de serviços. 

A adoção do termo “emergencial” não pode servir de justificativa para atropelar protocolos de respeito à vida da população. Assim como as regiões onde moram as pessoas empobrecidas desta cidade não podem seguir sendo tratadas como lugares onde direitos constitucionais são relativizados.

O que se chama de operação “cirúrgica” deixa marcas profundas no cotidiano da vida de pessoas que são vistas e tratadas sem o respeito devido. São traumas e impactos intangíveis  e levanta uma pergunta urgente:   Por que considerar um tipo de operação como a que aconteceu hoje bem sucedida, mesmo diante de tantas evidências contrárias?

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