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21 de janeiro: debates sobre racismo religioso

Há datas que não são apenas lembretes no calendário, mas convocações éticas. O 21 de janeiro, instituído por lei como Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (Lei nº 11.635/2007), carrega esse peso pois nasce de uma história real de violência contra uma comunidade de fé e uma mulher: Mãe Gilda de Ogum, ialorixá baiana, perseguida até a morte. É um marco que nos obriga a olhar de frente para o que o Brasil insiste em relativizar. Quando a religião atacada tem cor, território e origem, o nome disso é racismo religioso.

Chamar de “intolerância” pode soar como falta de educação, excesso de opinião, um desentendimento entre crenças. Mas o que atravessa as religiões (especialmente as de matriz africana) é, sobretudo, um sistema de desumanização que tem raízes coloniais e segue ativo. O racismo religioso não mira apenas uma ideia, ele mira corpos negros, modos de existir, memórias, tecnologias de cuidado e redes comunitárias.

 

Foto: @Gabilino

Os dados confirmam que não estamos falando de casos “isolados”. Em 2024, o Disque 100 registrou 2.472 denúncias de intolerância religiosa no país, alta de 66,8% em relação a 2023; e, no recorte de 2021 a 2024, o crescimento informado foi de 323,29% . É um aumento que não pode ser lido apenas como “mais gente denunciando”. Ele também revela que a violência segue encontrando espaço para se repetir  e que as instituições ainda falham em proteger, acolher e responsabilizar.

Quando olhamos para os povos de terreiro, a fotografia fica ainda mais nítida. A pesquisa “Respeite o Meu Terreiro” (Renafro/Ilê Omolu Oxum, em parceria com o MDHC, DPU e Unirio) analisou 511 respostas válidas de terreiros em 24 estados. Entre os resultados, um dado atravessa qualquer tentativa de minimizar o problema: 76% dos terreiros respondentes afirmaram ter sofrido racismo religioso. Há ainda outro número que é quase um resumo do que significa viver a violência e, ainda assim, não encontrar o Estado: apenas cerca de 1/4 dos casos foi registrado em boletim de ocorrência; os demais 74% não chegaram à via policial. A falta do registro não é “omissão”, muitas vezes é medo, falta de acesso, risco de retaliação, ou a sensação de que a denúncia não vai produzir proteção.

Na favela, essa equação se intensifica. Porque aqui o direito à cidade e o direito à fé passam pelos mesmos filtros, como a presença (ou ausência) de políticas públicas, a violência armada, a rotina de exceção. É por isso que, quando falamos de racismo religioso na Maré e em tantas favelas, não estamos falando apenas de um conflito “entre igrejas e terreiros”, inclusive porque estes espaços devem e podem coexistir. Estamos falando de uma disputa pelo direito de existir com dignidade, sem precisar pedir licença para celebrar a vida, honrar os ancestrais, cuidar do corpo e do espírito. A Maré é um território diverso, atravessado por expressões de fé católicas, evangélicas, espíritas, de matriz africana, tradições populares, crenças pessoais e silêncios também. Essa pluralidade, quando reconhecida, pode ser uma potência de convivência.

 

Foto: @Gabilino

Na Redes da Maré, a Casa Preta da Maré existe justamente para enfrentar as múltiplas camadas do racismo, incluindo o racismo religioso. A Casa Preta nasceu em 2019 como espaço de formação e construção de pensamento crítico sobre raça, favela e identidade no Conjunto de favelas da Maré. Quando falamos em racismo religioso a partir daqui, falamos também de quem somos. Segundo o Censo Maré, 62,1% dos moradores se autodeclaram pretos ou pardos. Em um território negro, o ataque às matrizes africanas não é “debate cultural”, mas ferida comunitária. Atingir um terreiro é atingir uma forma de educação, de acolhimento, de cura, de solidariedade, de transmissão de memória e, muitas vezes, uma rede que sustenta famílias inteiras.

Foto: @Gabilino

Foto: @Gabilino

O que fazer, então, neste 21 de janeiro, para além da indignação? Podemos pensar em algumas recomendações e reflexões práticas:

  1. Nomear corretamente. Racismo religioso não é “polêmica”, não é “assunto de nicho”. É violação de direito, violência antinegra, é ataque ao patrimônio cultural e a modos de vida.
  2. Proteger e acolher. Ouvir as vítimas sem questionar se “provocaram”. Fortalecer caminhos de denúncia e rede de apoio, inclusive divulgando canais oficiais como o Disque 100, que concentra registros nacionais.
  3. Educar para a convivência real. Não a convivência de fachada, mas aquela que reconhece que ninguém precisa renunciar à própria fé para respeitar a do outro. A pluralidade não enfraquece territórios, ela os torna mais humanos.

O 21 de janeiro não é sobre “tolerar” o outro como quem concede um favor. É sobre reconhecer que a liberdade religiosa só existe de verdade quando ela também protege as religiões que o racismo historicamente tentou apagar.

Que este dia nos encontre menos confortáveis com o silêncio e mais comprometidos com a vida.


Redes da Maré | Casa Preta da Maré

Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2026

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