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Quatro pessoas são mortas em operação policial na Maré, que durou mais de 13 horas. Nenhuma perícia foi realizada

A operação policial, realizada na manhã desta quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, no Conjunto de Favelas da Maré, resultou na morte de quatro pessoas e gerou uma série de impactos e violações no território. Os pontos mais delicados dessa ação são a ocorrência de mortes e a recorrente ausência de perícia e preservação dos locais onde os crimes ocorreram. Relatos de moradores afirmam que os corpos foram arrastados e levados ao veículo blindado da polícia, o caveirão. Essa é a terceira operação policial deste ano.

Em dez anos de monitoramento realizado pelo projeto De Olho na Maré, da Redes da Maré, foram registradas 160 mortes em operações policiais, das quais apenas 10% tiveram perícia, e apenas uma dessas mortes resultou em uma denúncia formal. A alegação de instabilidade territorial não pode seguir servindo de justificativa para impedir a produção de provas desses crimes cometidos de forma bárbara e sem o respeito aos preceitos legais. Sem perícia, não há transparência, sem preservação da cena, não há investigação efetiva e sem investigação perpetua-se um ciclo de mortes sem responsabilização.

Com o objetivo declarado pela polícia, de repressão ao roubo de cargas e veículos e de coibir o tráfico de drogas, a ação de hoje, que se estendeu por mais de 13 horas, mobilizou cerca de 200 agentes e dez veículos blindados, concentrando-se em ao menos nove das 16 favelas da Maré. Trata-se de uma intervenção de grande escala, com incursões simultâneas em diferentes áreas densamente habitadas.

Efeitos nos serviços públicos de saúde e educação

Os efeitos sobre os serviços públicos foram imediatos e expressivos. Ao todo, 42 escolas municipais e dois colégios estaduais ficaram sem aulas, totalizando 44 unidades escolares fechadas e impactando milhares de estudantes. Na área da saúde, as unidades básicas suspenderam suas atividades, resultando na interrupção de 980 atendimentos e 681 visitas domiciliares. Mais uma vez, direitos básicos como educação e saúde foram interrompidos em nome de uma política de segurança que opera por meio da excepcionalidade permanente. Sem falar nos prejuízos aos comércios e outros serviços que temos na região.

É preciso reafirmar com insistência: segurança pública não pode ser sinônimo de operação armada e militarizada em área densamente habitada. A dimensão do efetivo empregado e o caráter estrutural da ação suscitam uma pergunta incontornável: para combater o crime é necessário transformar a favela em palco permanente de violência? Nesse sentido, repensar as práticas de segurança pública à luz do previsto na ADPF 635, votada em abril de 2025, seria uma via democrática e humanitária para a proteção das vidas de moradores e moradoras de favelas e periferias. A ocorrência de quatro mortes em poucas horas revela uma lógica que privilegia o confronto bélico como método e naturaliza a letalidade como resultado.

Em que pese a decisão per curiam na ADPF 635 ter mencionado expressamente a importância da perícia de local, determinando que se preserve a cena até a chegada do Delegado de Polícia e que não se altere o estado e a conservação das coisas para a realização da perícia, as quatro mortes registradas na operação de hoje, até o momento, não foram periciadas, tampouco, o local foi preservado.

 

Violências e demais violações de direitos

Relatos indicam entradas em domicílios, abordagens coercitivas, intimidação de moradores e danos ao patrimônio. Cada uma dessas ocorrências ultrapassa o campo da estatística e atinge diretamente direitos fundamentais assegurados pela Constituição do país. Não se trata de situações isoladas, mas da reprodução de um padrão de intervenção que compromete a integridade física, psicológica e social da população e reforça a condição histórica de vulnerabilização das favelas.

A operação ocorreu no mesmo dia em que o país relembra e reafirma a luta por justiça por Marielle Franco, vereadora criada na Maré e vítima de um assassinato político que expôs as entranhas da violência institucional no Rio de Janeiro. É simbólico que, enquanto se reafirma a responsabilização por aquele crime, o território onde Marielle cresceu siga submetido a práticas que produzem mortes e violações.

Reiteramos que a política de segurança pública deve ser orientada pela proteção da vida, pela transparência, pelo controle externo e pelo respeito irrestrito aos direitos humanos. A Maré não pode seguir sendo tratada como território de exceção, onde garantias constitucionais são relativizadas e a presença do Estado se manifesta prioritariamente pelo uso excessivo da força.

A Redes da Maré seguirá monitorando in loco os desdobramentos da operação, oferecendo atendimento sócio-jurídico às vítimas das violações e exigindo esclarecimentos sobre as circunstâncias das mortes, a observância das normas legais e a responsabilização em caso de irregularidades. Apesar do reconhecimento desse trabalho por parte da população e movimentos sociais, em dias como este os profissionais da Redes da Maré sofrem intimidações por parte dos agentes presentes nas operações. No dia de hoje foram relatados xingamentos de cunho sexista e parte da equipe foi fotografada por um agente enquanto trabalhava no território.

Seguiremos, diante de tudo, em defesa da vida, dos direitos e da dignidade dos moradores, sendo este um compromisso permanente.

Redes da Maré

Rio de Janeiro, 26 de fevereiro de 2026

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