Por Pâmella Carvalho, da Casa Preta da Maré
Março é um mês profundamente político. No calendário das lutas sociais, ele concentra datas que condensam memória, dor, esperança e mobilização. O 8 de março, o 14 de março e o 21 de março formam um campo de reflexão sobre gênero, raça, democracia e justiça. Quando observados a partir das favelas e da experiência da população negra, esses dias revelam algo fundamental: a luta por direitos no Brasil é inseparável da luta contra o racismo estrutural e contra as desigualdades produzidas pela história da escravidão e da segregação urbana.
O Dia Internacional das Mulheres, 8 de março, nasce de um ciclo histórico de mobilizações de mulheres trabalhadoras que, entre o final do século XIX e o início do século XX, lutavam por direitos políticos, melhores condições de trabalho e igualdade social.
Em 1910, durante a Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em Copenhague, foi criada uma jornada internacional de mobilização feminina. A data se consolidaria alguns anos depois, sobretudo após a greve das operárias russas em 1917, que protestaram contra a fome, a guerra e as condições de trabalho, evento que contribuiu para o início da Revolução Russa, mesmo que esta perspectiva seja por vezes invisibilizada pela história hegemônica.
Décadas mais tarde, em 1975, a Organização das Nações Unidas oficializou o 8 de março como Dia Internacional da Mulher. No entanto, ao longo do tempo, a data foi sendo progressivamente despolitizada. Flores, campanhas publicitárias e discursos vazios passaram a substituir o sentido original da mobilização. Esse processo de esvaziamento é profundamente problemático, porque invisibiliza o caráter radical da luta das mulheres, especialmente das mulheres trabalhadoras, negras e periféricas.
Quando racializamos o 8 de março, percebemos que a experiência das mulheres negras sempre esteve no centro dessas lutas, mesmo quando não foi reconhecida. No Brasil, as mulheres negras são historicamente aquelas que sustentam as redes de cuidado, trabalho informal e sobrevivência nas periferias urbanas. Ainda hoje, são elas que enfrentam as piores condições de trabalho, os maiores índices de violência e as maiores desigualdades salariais.
Nas favelas, o 8 de março assume um significado particular, assumindo contornos de organização política. Na Maré, esse significado ganha ainda mais força, porque o 8 de março também marca o aniversário da Redes da Maré, organização que surgiu da mobilização comunitária para enfrentar desigualdades e construir direitos no território. A coincidência não é apenas simbólica, ela revela que a história da organização comunitária nas favelas está profundamente conectada à luta das mulheres. Mulheres negras e periféricas sempre foram as principais lideranças da vida comunitária: organizando associações, defendendo direitos, criando redes de solidariedade e enfrentando as ausências do Estado.
Se o 8 de março é uma data de luta global das mulheres, o 14 de março tornou-se, no Brasil contemporâneo, um marco de memória e mobilização política. Foi em 14 de março de 2018 que a vereadora "mareense" Marielle Franco foi assassinada junto com o motorista Anderson Gomes, no centro do Rio de Janeiro. O crime chocou o país e rapidamente se tornou um símbolo da violência política contra mulheres negras, defensores de direitos humanos e moradores de favelas.
Marielle era mulher negra, socióloga, cria da favela da Maré e uma das vozes mais importantes da política brasileira contemporânea. Seu mandato denunciava a violência policial, o racismo institucional e a atuação de milícias no Rio de Janeiro. Durante anos, a pergunta “Quem mandou matar Marielle?” tornou-se uma das principais bandeiras do movimento negro e dos movimentos de direitos humanos.
Após oito anos de investigações, o Supremo Tribunal Federal concluiu o julgamento dos mandantes do crime em 2026. A Primeira Turma da Corte condenou por unanimidade os envolvidos, incluindo os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, com penas que chegam a mais de 70 anos de prisão. Segundo as investigações, o assassinato foi planejado por um grupo ligado a interesses políticos e territoriais relacionados à atuação de milícias no Rio de Janeiro.
A condenação representa um passo importante na busca por justiça, mas não encerra as questões fundamentais que o caso levantou. O assassinato de Marielle revelou as conexões profundas entre crime organizado, política institucional e violência estatal. Para as favelas, o caso Marielle é mais do que um crime político: é um retrato das estruturas de poder que historicamente controlam os territórios populares.
O 14 de março também carrega outras memórias importantes. É o aniversário de dois grandes intelectuais negros brasileiros: Abdias do Nascimento e Carolina Maria de Jesus. Abdias foi um dos principais pensadores do movimento negro brasileiro, criador do Teatro Experimental do Negro e formulador do conceito de quilombismo, que propõe uma reorganização radical da sociedade a partir da justiça racial. Carolina Maria de Jesus, por sua vez, transformou a literatura brasileira ao escrever sobre a vida na favela a partir da experiência concreta da pobreza e da exclusão. Seu livro Quarto de Despejo tornou-se uma das obras mais importantes da literatura latino-americana.
O fato de essas duas figuras compartilharem o dia de nascimento com a data do assassinato de Marielle cria uma poderosa convergência simbólica: memória, resistência e produção intelectual negra. Uma semana depois, o calendário marca outra data fundamental: 21 de março, o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial.
A data foi criada pela Organização das Nações Unidas em memória do massacre de Sharpeville, ocorrido em 1960 na África do Sul, quando a polícia do regime do apartheid matou 69 manifestantes negros que protestavam contra as leis raciais do país. Esse episódio marcou profundamente a luta internacional contra o racismo e levou a ONU a instituir o 21 de março como um dia global de mobilização contra a discriminação racial.
No Brasil, essa data ganha uma dimensão específica. Embora o país tenha construído durante décadas o mito da democracia racial, a realidade mostra que o racismo estrutura as desigualdades sociais. A população negra continua sendo a maioria entre os pobres, entre os encarcerados e entre as vítimas de violência letal. Nas favelas, essas desigualdades são ainda mais visíveis. Por isso, o 21 de março precisa ser entendido como um chamado à ação política.
Quando colocamos o 8, o 14 e o 21 de março lado a lado, percebemos que essas datas formam uma espécie de trilogia política. O 8 de março nos lembra que as mulheres trabalhadoras sempre foram protagonistas das transformações sociais. O 14 de março nos lembra que a luta por direitos no Brasil pode custar vidas, especialmente quando se trata de mulheres negras que enfrentam estruturas de poder. O 21 de março nos lembra que o racismo não é apenas um problema individual, mas uma estrutura global que precisa ser combatida coletivamente.
Para quem vive nas favelas, essas três datas não são abstrações. Elas se conectam diretamente com a vida cotidiana: com a luta por moradia, educação, segurança, saúde e dignidade. Na Maré, essa consciência tem produzido experiências coletivas importantes, como a criação da Redes da Maré e de diversos projetos voltados à garantia de direitos.
Radicalizar o debate sobre essas datas significa recuperar seu sentido original: mobilização, organização e luta. Nas favelas, onde as desigualdades são mais visíveis, essas datas nos lembram que democracia não é apenas um regime político. Democracia é a possibilidade concreta de viver sem medo, com dignidade e com direitos. E essa democracia só será possível quando as vidas negras, e especialmente as vidas negras das favelas, forem plenamente reconhecidas como vidas que importam.
Março, portanto, não é apenas um mês no calendário. É um território de memória, luta e construção de futuro.
Rio de Janeiro, 31 de março de 2026
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