De 2016 a 2025, projeto De Olho na Maré contabilizou 231 operações policiais, 160 mortes e 1.538 violências e violações de direitos de moradores, como ameaças, tortura e cárcere privado
Rio de Janeiro, 19 de março de 2026 - Desde 2016, a equipe da Redes da Maré, organização não-governamental que atua na Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, faz o monitoramento contínuo dos impactos da violência armada no conjunto de 15 favelas que formam o bairro Maré, recolhendo dados de confrontos dos grupos armados e de operações policiais no território. Em dez anos de registros, foram contabilizadas 231 operações policiais, com 160 mortes e 1.538 violências e violações de direitos dos moradores da Maré, incluindo ameaças, tortura e cárcere privado. Os números impressionam e estão reunidos na 9ª edição do “Boletim Direito à Segurança Pública na Maré – dados 2025", que traz a série histórica de monitoramento do projeto De Olho na Maré, entre 2016 e 2025. Leia aqui a publicação completa.
O compilado de uma década será lançado no próximo dia 24 de março, durante o 3º Congresso Internacional Falando sobre Segurança Pública na Maré, na Areninha Cultural Herbert Vianna, que reunirá, em três dias, os principais nomes do diálogo sobre a Segurança Pública no Rio de Janeiro, em oito mesas de debate e grupos de trabalho, incluindo especialistas e ativistas internacionais.
Esta inovadora experiência de monitoramento independente da segurança pública no Brasil, com produção de dados locais, realizada pela Redes da Maré, apresenta ainda os impactos da violência armada em outros direitos básicos dos moradores da Maré, como educação e saúde, que são desrespeitados repetidamente nas favelas. De 2016 a 2025, foram 163 dias de unidades escolares públicas fechadas em decorrência de operações policiais, o que equivale à perda de cerca de um ano letivo na trajetória educacional de crianças e adolescentes da Maré. Já em relação à saúde, só em 2025, foram 14 dias de unidades de atendimento fechadas, com 7.866 acompanhamentos que deixaram de ser realizados. Ao todo, em 2025, houve 16 operações policiais na Maré, com 12 mortes.
“Os números de uma década de monitoramento mostram que existe um padrão de violência que se repete ao longo dos anos e que produz impactos profundos no cotidiano da vida das populações de favelas. Além das mortes e das violações diretas que ocorrem, há um ciclo e a naturalização sobre a interrupção de serviços públicos relacionados aos direitos mais básicos que deveriam ser garantidos, mas que não acontecem quando se trata de moradores de favelas”, afirma a diretora fundadora da Redes da Maré e pesquisadora em Segurança Pública, Eliana Sousa Silva.
O cotidiano dos moradores da Maré também foi impactado em 2025 pelas ações de grupos armados no território. Segundo o De Olho na Maré, foram 11 mortes, além de registros de violência física, psicológica e verbal, ameaças, deslocamentos forçados, invasões de escolas e 141 registros de tiros.
A edição dos dados de dez anos de monitoramento contínuo das violências armadas na Maré é um marco no trabalho do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré. Trata-se de um feito singular acompanhar de dentro de uma favela, com uma equipe local e metodologia própria, os confrontos e operações policiais no território e, assim, produzir evidências sobre a negligência do Estado na garantia do direito de populações empobrecidas à segurança pública.
“Dez anos depois do início do monitoramento realizado pela Redes da Maré, a evidência é clara de que segurança pública ainda não é um direito garantido para essa população e que não se faz apenas com a força da polícia. Acreditamos que a produção de dados sobre a violência direcionada a certos segmentos da população brasileira fortalece a luta por mudanças estruturais na política de segurança pública, que deveria se basear em inteligência, investigação, além do respeito à vida e garantia da segurança para a sociedade, independentemente do local de moradia ou condição de vida da população”, aponta a coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, Tainá Alvarenga.
Menos operações em 2025, mas com maior letalidade
Em 2025, o número de operações policiais nas favelas da Maré foi menor do que em outros anos. Foram 16 operações contra 42 de 2024. À primeira vista, o dado pode sugerir uma inflexão das intervenções policiais, mas essa leitura não se sustenta. Mesmo com menos operações, 12 pessoas foram mortas, elevando a letalidade proporcional em 58% em relação a 2024, quando houve mais operações, porém, com menor letalidade relativa. Isso significa que cada operação policial realizada em 2025 teve maior probabilidade de terminar em morte. Não houve redução do risco para os moradores, houve concentração da violência. O que se observa é um padrão já conhecido na Maré: operações menos frequentes, mas mais agressivas, com uso intensivo de armamento pesado, incursões prolongadas e lógica de enfrentamento direto em áreas densamente povoadas.
Esse cenário local dialoga diretamente com o quadro estadual. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), em 2025, o estado do Rio de Janeiro registrou 797 mortes decorrentes de intervenção policial, um aumento de 13% em relação a 2024. No mesmo período, também cresceu o número de policiais mortos, indicando que a intensificação da letalidade não produziu maior proteção nem para a população civil, nem para os próprios agentes de segurança.
Os dados do De Olho na Maré em 2025 confirmam a persistência de um modelo de segurança pública no estado do Rio de Janeiro centrado em operações bélicas, de cunho repressivo e com resultados inexpressivos no combate às redes ilícitas. O massacre no Complexo do Alemão e Penha em 2025, a Chacina do Jacarezinho em 2021, a da Maré em 2018, entre outras chacinas, reiteram que a política do combate ostensivo segue operando com licença para matar, apesar de decisões judiciais e compromissos formais de redução da letalidade.
Ausência de perícia de local
Outro dado importante monitorado pelo De Olho na Maré é que das 160 mortes registradas no território durante operações policiais, de 2016 a 2025, apenas 16 tiveram perícia de local e somente uma resultou em denúncia formal. A alegação de “instabilidade do território” tem servido, de forma recorrente, como justificativa para negar o direito à perícia, comprometendo o acesso à verdade e à justiça. Diante desse cenário, em 2025, a Redes da Maré também deu início a uma iniciativa inovadora de produção de evidências sobre violências e violações, o projeto Maré por Justiça – Análise Forense Comunitária. A partir da articulação entre moradores, pesquisadores, universidades e organizações, o projeto constrói evidências de forma colaborativa, reunindo testemunhos, registros fotográficos, mapeamentos territoriais, análises espaciais e reconstruções tridimensionais de cenas de crime. O trabalho é um dos temas do podcast Visão de Dentro, produzido também pela Redes da Maré.
Helicóptero como plataforma de tiro
Em 2025, houve, de novo, o uso repetido de helicópteros como plataforma de tiros durante as operações policiais, aprofundando as contradições da política estadual. Das 16 operações policiais realizadas na Maré ao longo do ano, oito contaram com helicóptero e, dessas, em quatro ele foi usado como plataforma de tiros. O trabalho de campo da equipe da Redes da Maré registrou ao menos 308 marcas de tiros espalhadas pelas ruas após as operações.
Em novembro de 2025, uma operação policial com uso de helicópteros como plataforma de tiro evidenciou os riscos dessa estratégia na Maré. Disparos realizados do alto atingiram diferentes favelas do território, inclusive áreas próximas a escolas e unidades de saúde, resultando na morte de ao menos três pessoas, na perfuração por arma de fogo de uma criança dentro de uma unidade escolar, além de feridos, invasões de domicílios e danos ao patrimônio. Naquela ocasião, o foco da operação distava cerca de 2 km da escola, demonstrando o risco do uso dessa estratégia para o objetivo da ação.
O uso extensivo de helicópteros como plataforma de tiros em áreas densamente povoadas, assim como a chacina do Complexo do Alemão e da Penha, colidem com as diretrizes do Supremo Tribunal Federal, no julgamento final da ADPF 635, a ADPF das Favelas, em abril de 2025. Em voto unânime, os ministros orientaram a redução da letalidade policial e a preservação da vida no Rio de Janeiro. Depois de cinco anos em tramitação, partes importantes da ação foram aprovadas, numa mobilização histórica da sociedade civil pela garantia de direitos de moradores de favelas e periferias, com forte atuação da Redes da Maré. Na prática, no entanto, os números monitorados pelo De Olho na Maré em 2025 evidenciam a distância entre as determinações institucionais e a atuação concreta do Estado no território.
Produção de dados locais dão fôlego a investigações e reparação
A gravidade dos impactos sobre direitos fundamentais dos moradores da Maré demonstrada pelo monitoramento das violências no território feito pela Redes da Maré na última década tem sido reconhecida também por órgãos de controle e justiça. Em agosto de 2024, o Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro enviou um ofício ao Ministério da Educação (MEC) solicitando informações sobre diretrizes nacionais para o enfrentamento dos impactos das operações policiais sobre a educação, incluindo mecanismos de compensação por dias letivos perdidos. Em resposta, em janeiro de 2025, o Conselho Nacional de Educação (CNE) instituiu o Fórum pelos 200 dias letivos e a Comissão Permanente de Acompanhamento da Obrigatoriedade de Cumprimento dos 200 Dias Letivos, da qual a Redes da Maré faz parte. A promessa é que, a partir do fórum e da comissão, seja lançado o Pacto Nacional pelo Monitoramento e Garantia dos 200 dias letivos. A iniciativa pode vir a ser um divisor de águas para responder ao reiterado desrespeito, em áreas que convivem com a violência armada, da obrigatoriedade do mínimo de 200 dias letivos, prevista pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).
Também em 2025, o MPF no Rio de Janeiro instaurou inquérito civil público para investigar os efeitos das operações policiais na vacinação de crianças de até seis anos que vivem em territórios marcados por conflitos armados. A apuração, determinada pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, tem como base estudo elaborado pela Redes da Maré em parceria com a Unicef, que constatou que em dias de operações policiais nas favelas da Maré a imunização infantil pode cair até 90%, por conta das unidades de saúde fechadas ou funcionando parcialmente e a dificuldade de as famílias de acessarem os serviços.
Metodologia do De Olho na Maré
(1) Atuação direta de profissionais da Redes da Maré, atuantes no eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, que acompanham os confrontos armados in loco. É organizado um plantão de acolhimento às pessoas que sofrem algum tipo de violação de direitos humanos e/ou a partir dos registros dos casos trazidos por moradores.
(2) Articulação de uma rede de colaboradores entre moradores e organizações atuantes nas favelas da Maré, que contribuem reportando e validando evidências sobre as violências ocorridas.
(3) Coleta de informações oficiais ou validadas junto a órgãos dos governos municipal e estadual, tais como Polícia Civil, Polícia Militar, Secretaria Municipal de Educação, Secretaria Municipal de Saúde, através de suas assessorias de comunicação.
(4) Levantamento em meios de comunicação e redes sociais a respeito dos eventos que ocorreram relacionados à violência armada.
(5) Deslocamento da equipe ao campo em até 48 horas após as situações de violências, a fim de checar as informações recebidas.
(6) Sistematização de todas as informações sobre violações de direitos ocorridas nas favelas da Maré, que servem de base para a elaboração da publicação do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré.
(7) Análise e gestão das informações que compõem o banco de dados, para a criação de indicadores sobre as violações de direitos.
Números da série histórica monitorados pelo De Olho na Maré entre 2016 e 2025:
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2016: 33 2017: 40 2018: 12 2019: 24 2020: 9 2021: 7 2022: 14 2023: 34 2024: 42 2025: 16
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160 mortes em operações policiais na Maré entre 2016 e 2025 2016: 17 2017: 19 2018: 17 2019: 30 2020: 4 2021: 7 2022: 26 2023: 8 2024: 20 2025: 12 |
Além das mortes, o projeto De Olho na Maré registrou outras 1.538 violências e violações de direitos em 10 anos: 226 feridos; 178 vítimas de violência física; 135 vítimas de violência psicológica; 90 vítimas de violência verbal; e 67 sofreram tortura. 318 domicílios ou estabelecimentos comerciais invadidos; 243 moradores reportaram dano ao patrimônio; e 76 tiveram pertences subtraídos; 133 pessoas sofreram ameaças; 72 moradores ficaram em cárcere privado. |
Dinâmicas das operações policiais nas Favelas da Maré em 2025:
Ações dos grupos armados na Maré em 2025:
Sobre a Redes da Maré
A Redes da Maré é uma organização da sociedade civil, que nasceu da mobilização comunitária ainda nos anos 80. Formalizada em 2007, tem como missão tecer as redes necessárias para efetivar os direitos da população do conjunto de 15 favelas da Maré, onde residem em torno de 140 mil pessoas. Em seus projetos sociais, beneficia diretamente mais de 7.000 moradores, além de seus familiares e vizinhos. São ações nas áreas de educação, arte, cultura, memórias, identidades, saúde, segurança pública, acesso à justiça, direitos urbanos e socioambientais que buscam superar a desigualdade histórica enfrentado pelas populações de favelas, com atenção especial para determinados segmentos sociais, como o de crianças e jovens e o de mulheres. O trabalho acontece a partir da mobilização e do protagonismo da população local e da articulação de uma ampla rede de parceiros, tecendo diálogos com instituições, sociedade civil, universidades, órgãos públicos e iniciativa privada.
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