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Aula pública na Maré transforma ruas em espaço de reflexão sobre direitos das mulheres

Gleusa Santos

Edição: Adriana Pavlova | Fotos: Patrick Marinho

Na noite de quarta-feira, 18 de março, a Rua Sargento Silva Nunes, 1012, na Nova Holanda, e a Rua Onze, Quadra 58, na Vila do João, em frente à sede da Redes da Maré na Ação Comunitária do Brasil, viraram salas de aulas e se transformaram em espaços públicos de educação e cidadania. Estudantes, professores e moradores se reuniram para debater coletivamente os direitos das mulheres e a construção de uma sociedade mais justa, evidenciando o potencial da educação como ferramenta de mobilização social e transformação do território. O Curso Pré-Vestibular (CPV) da Redes da Maré realizou a aula pública “Mulheres de Luta: História, Direitos e Atualidades”, em alusão ao Dia Internacional da Mulher, reunindo mais de 70 participantes, entre estudantes do CPV e do Pronasci Juventude.

A atividade, ministrada pelos professores do CPV Brenda Castro, Diego Marcelino, Erika Batista, Fernanda França, Giselle Oliveira, João Gouveia, Marcos Melo e Teresa Cruz, reafirmou a dimensão coletiva e política do CPV, mostrando que a educação vai além da preparação para exames e vestibulares: é instrumento de formação cidadã e fortalecimento de trajetórias sociais.

 

Nova Holanda

 

 

O objetivo foi promover formação política e reflexão crítica sobre as trajetórias de resistência das mulheres, suas conquistas históricas e os desafios que ainda persistem na luta por direitos. Assim, durante a aula, foram abordados temas como o sufragismo, a presença das mulheres na ciência, o feminicídio, a atuação em movimentos sociais contemporâneos e os impactos de fenômenos atuais, como o movimento Red Pill — termo utilizado para designar um movimento de homens que defendem uma ideia de masculinidade dominante e difundem discursos antifeministas e misóginos, atingindo principalmente meninos e homens jovens. As discussões provocaram reflexões, evidenciando como normas sociais de gênero — tanto aquelas que orientam práticas cotidianas quanto as que definem expectativas sociais — moldam comportamentos e ajudam a perpetuar desigualdades.

 

Masculinidades contemporâneas também no debate

 

Mas o debate não ficou apenas na teoria. A aula também provocou discussões importantes sobre o papel dos homens nessa conversa. “Só elas debatem? E nós, homens, não?”, foi uma das questões levantadas, estimulando os participantes a pensarem coletivamente sobre novas formas de construir masculinidades e enfrentar desigualdades de gênero nos territórios.

Outro ponto importante foi a apresentação do conceito de “testemunha ativa” (bystander), que propõe uma mudança de postura diante da violência: não esperar que ela aconteça para agir, mas intervir de forma preventiva, cotidiana e coletiva. A discussão também trouxe um caminho possível de transformação, dividido em três etapas: conscientização, engajamento e protagonismo — um processo contínuo de aprendizado e mudança.

A participação dos estudantes foi um dos pontos altos da atividade. Entre escutas atentas e falas potentes, o encontro mostrou como esses espaços reverberam diretamente no cotidiano da juventude.

 

Vila do João

 

 

Para Kenny Alves, 19 anos, estudante do CPV, a aula trouxe à tona discussões essenciais para o cotidiano dos jovens e reforçou a importância do alerta sobre essas questões: “Foi muito importante ver que eles [os professores] abordaram temas que têm que ser falados. Por exemplo, uma coisa que muitas vezes é esquecida é falar sobre o movimento Red Pill.”

Já Ygor Apolinário, 17 anos, também estudante do CPV, destacou o impacto formativo da aula e o contato com novos conhecimentos: “Uma parte que eu gostei muito foi dos movimentos que eles colocaram no final, porque eu não sabia que existiam tantos movimentos assim, tipo o movimento de mulheres trabalhadoras no campo e LGBTQIAPN+. Eu não tinha conhecimento.”

Criado em 1998, o CPV é um marco na luta por uma educação mais igualitária nas 15 favelas da Maré. Ao longo de mais de duas décadas, o projeto se consolidou como um patrimônio dos moradores da região, com cerca de 1.400 aprovações em universidades, ampliando o acesso ao ensino superior e contribuindo para concretizar sonhos e transformar realidades.

Ao ocupar a rua com debate, escuta e construção coletiva, o CPV reafirma que a educação vai além do acesso à universidade. É também formar sujeitos capazes de questionar o mundo ao seu redor e agir para transformá-lo.

Ao final, o encontro deixou no ar mais do que respostas: um convite. Que tipo de cidadão queremos ser? E que sociedade estamos dispostos a construir, juntos?

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