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Espaço Normal completa 11 anos de redução de danos, cuidado e acolhimento para cerca de 130 pessoas por dia, na Maré

Lara Machado

Projeto da Redes da Maré marca mais um ano de atuação no Dia Internacional da Redução de Danos e reúne equipe, frequentadores e parceiros em feijoada de aniversário

Lara Machado

Maio é mês de festa no Espaço Normal. O equipamento da Redes da Maré, que atende cerca de 130 pessoas por dia, completa 11 anos de atuação em redução de danos, cuidado e promoção de direitos para pessoas em situação de rua e/ou que fazem uso de drogas na Maré.

A comemoração dos 11 anos reuniu equipe, frequentadores e parceiros em uma feijoada realizada nos dias 7 e 8 de maio. O aniversário do Espaço Normal é celebrado no dia 7 de maio, mesma data do Dia Internacional da Redução de Danos, o que reforça a ligação entre a trajetória do projeto e a defesa do cuidado em liberdade.

Criado pela Redes da Maré, o Espaço Normal atua no acolhimento e na articulação de respostas públicas para uma população historicamente atravessada por violações de direitos, estigma, violência armada e barreiras de acesso a políticas públicas. No dia a dia, o espaço oferece alimentação, acesso à higiene pessoal, internet, oficinas, atividades culturais e acompanhamento junto a serviços públicos.

 

 

Uma trajetória construída no território

A história do Espaço Normal começou em 2015, com a aproximação da equipe da Redes da Maré com as pessoas que viviam em cenas de uso na Nova Holanda. Em 2018, o projeto inaugurou sua sede e se tornou o primeiro equipamento de referência em redução de danos dentro de uma favela no Brasil. Em 2022, passou a funcionar em espaço próprio, no Galpão do Espaço Normal, no Parque Maré.

Segundo a coordenadora do Espaço Normal, Vanda Canuto, a origem do projeto está ligada às condições concretas do território e às demandas que surgiram nesse processo de aproximação. “O Espaço Normal não nasce de uma ideia pronta, mas da urgência de cuidado, de escuta e de construção coletiva em um território marcado por desigualdades”, afirma.

Ao longo dos anos, o equipamento se consolidou como um centro de convivência e de articulação territorial. A equipe é multiprofissional e formada preferencialmente por moradores da Maré e por redutores de danos com experiência direta nos contextos atendidos, o que fortalece a construção de vínculos e o diálogo com serviços do SUS e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS).

Para Vanda, o papel do espaço se ampliou com o tempo. “Hoje podemos dizer que, para além de um Centro de Convivência, o Espaço Normal tornou-se um ponto de referência, um lugar onde é possível existir sem julgamento, criar vínculos, acessar cuidados e vislumbrar uma vida mais digna”, diz.

 

 

Histórias que tecem o Espaço Normal

A trajetória do projeto também aparece nas experiências de quem frequenta e constrói o espaço no dia a dia.

Hugo Souza relaciona sua passagem pelo Espaço Normal a um processo de retomada do autocuidado. “No decorrer da minha trajetória de vida, pude me deparar com muitas situações e experiências, tanto boas como também situações que não foram agradáveis. Mas é nessa vida cheia de ‘misérias e surpresas’, em meio a momentos ruins, que pude ter mais uma chance de voltar a amar e valorizar as coisas, as pessoas, as oportunidades e principalmente a me amar, me valorizar e a me cuidar para que eu possa dar continuidade na minha caminhada de vida”, afirma.

Edilberto Silva chama a atenção para o peso da vida nas ruas e saúde mental. “Na rua, a mente não tira folga. Ansiedade, trauma e insônia fazem parte da rotina de uma pessoa em situação de rua”, diz. Ao falar sobre a importância do projeto, ele destaca o valor do acolhimento cotidiano. “O Espaço Normal existe para isso, para ser um ponto de suspiro no meio do caos. Cinco minutos no Espaço podem mudar um dia inteiro”, diz.

Paulo Ricardo Azevedo, hoje redutor de danos da equipe, associa sua trajetória no projeto a dois momentos distintos. “O Espaço Normal foi e continua sendo um grande divisor de águas em dois momentos da minha vida”, diz. Primeiro, pelo acolhimento e pelo acesso a direitos. Depois, pela possibilidade de formação e atuação profissional no próprio território. “O EN me proporcionou a participação em eventos, palestras, fóruns e cursos profissionalizantes. Algo que me fez buscar o lado acadêmico para agregar o conhecimento, para me estruturar e fortalecer na função onde estou inserido atualmente na equipe como RD”, aponta Paulo.

 

Reconhecimento e cuidado em liberdade

Além do atendimento direto, o Espaço Normal articula formação, produção de conhecimento, incidência política e ação territorial. Uma das estratégias desenvolvidas pelo projeto é a das quartas-feiras de acolhimento feminino, criada a partir da percepção de baixa adesão das mulheres ao espaço e da necessidade de construir respostas de cuidado com perspectiva de gênero.

Para Vanda Canuto, a força do Espaço Normal está justamente na forma como o projeto foi se modificando a partir do encontro com as pessoas atendidas. “Ao longo desses 11 anos, o Espaço Normal foi se construindo no cotidiano, no encontro com pessoas e suas histórias”, finaliza.

 

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