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LabMaré III transforma diagnósticos socioambientais em intervenções urbanas na Maré

Hélio Euclides l Edição: Lara Machado l Fotógrafo: Douglas Lopes

Realizado pela Redes da Maré em parceria com a Silo – Arte e Latitude Rural, laboratório reuniu oito projetos voltados à arquitetura, cultura, clima e cuidado com os espaços públicos 

O LabMaré chegou à sua terceira edição com um desafio central: transformar diagnósticos sobre o território em intervenções práticas nos espaços públicos da Maré. Realizado pela Redes da Maré em parceria com a Silo – Arte e Latitude Rural, o LabMaré III reuniu oito projetos voltados à arquitetura, cultura e clima, com ações em praças, ruas, escolas, quadras e áreas de convivência.

A apresentação dos projetos e o encerramento desta etapa aconteceram na manhã de 17 de abril, na Areninha Cultural Herbert Vianna. Ao longo do processo, os grupos participantes desenvolveram propostas de baixo custo e forte impacto local, articulando dados, saberes comunitários e mobilização coletiva para enfrentar problemas socioambientais vivenciados pelos moradores da Maré.

 

 

Criado em 2024, o LabMaré tem como proposta incentivar soluções territoriais a partir da escuta, da colaboração e do reconhecimento dos conhecimentos produzidos por quem vive a realidade das favelas. Nesta edição, os projetos trabalharam com temas como educação ambiental, tecnologias sociais, diagnóstico territorial, urbanismo, políticas públicas, arte urbana, memória e requalificação de espaços públicos.

“Com dados e diagnósticos, nascem não só números para denunciar, mas oportunidades para valorizar o conhecimento de pessoas que estão vivenciando os problemas. A Silo faz um trabalho de desenvolvimento territorial e nos unimos com a Redes para trabalhar nas questões urgentes da Maré”, afirmou Cinthia Mendonça, artista e gestora da Silo.

Justiça climática a partir da favela

O LabMaré III teve como objetivo promover ações capazes de contribuir para a mitigação e a solução de problemas socioambientais no território. Para Everton Pereira, geógrafo e coordenador do Eixo Direitos Urbanos e Socioambientais (DUSA), da Redes da Maré, as favelas e periferias precisam ocupar um lugar central nos debates sobre clima e cidade.

“Sobre justiça climática, é preciso começar da favela para atingir metas globais. O Parque Ecológico da Maré, por exemplo, pode ser um local mais bem utilizado. O fim da queima de lixo, além de diminuir a poluição, ameniza o calor excessivo”, afirmou Everton, ao comentar os estudos e propostas desenvolvidos no âmbito do projeto Ecoclima.

 

 

A edição também incentivou o cruzamento entre dados e diagnósticos locais para mapear problemas e propor soluções em diferentes áreas. Segundo João Sousa e Silva, coordenador geral do LabMaré, o laboratório fortalece iniciativas locais e amplia a capacidade de participação dos moradores na construção de respostas para o território. “Foram oito projetos que dialogaram com a mobilização e a participação, fazendo pensar as relações do futuro e do passado”, destacou João.

Oito projetos para intervir no território

Ao longo do LabMaré III, os coletivos desenvolveram intervenções como plantio de mudas, murais sobre a história das favelas, oficinas ambientais, compostagem, revitalização de praças e requalificação de espaços públicos. As ações partiram de problemas concretos identificados no território e buscaram construir soluções com participação comunitária.

O projeto Pelas Marés – Arte em Fluxo no Corpo da Favela, elaborado pelo coletivo Papo de Laje, propôs intervenções artísticas em espaços públicos da Maré, com dança, teatro de rua e artes visuais. A iniciativa envolveu artistas locais e moradores em oficinas e encontros que afirmaram a favela como espaço de criação, memória e resistência.

Já o Composta Maré, do coletivo Recriando Maré, apostou na compostagem como tecnologia social para a gestão de resíduos, o fortalecimento da segurança alimentar e a promoção da educação ambiental. O projeto foi realizado na Creche Municipal Monteiro Lobato, com a construção de uma horta, a instalação de uma composteira e a inauguração do Jardim da Monteiro.

O Maré em Traços trabalhou com comunicação visual de dados por meio de murais artísticos que traduzem informações ambientais e sociais. A metodologia incluiu formação em arte urbana e linguagem visual, além do uso de materiais recicláveis. Entre as ações realizadas estão os murais “Para crescer é preciso respirar”, na Escola Municipal Primário Erpídio Cabral de Souza; “EducAR”, no Conjunto Bento Ribeiro Dantas; e “Compostagem”, na Creche Municipal Monteiro Lobato.

A Requalificação do entorno da Praça da Paz, proposta pelo coletivo Maré Crew, teve como objetivo transformar a praça e seu acesso em um espaço de lazer, convivência e mitigação dos efeitos das ondas de calor no Rio de Janeiro. A proposta buscou fortalecer o sentimento de pertencimento e dar novos usos a uma área que já foi ponto de descarte de lixo e, depois, permaneceu abandonada.

Arte, memória e requalificação dos espaços públicos

O projeto Museu a Céu Aberto transformou parte do território em uma galeria urbana viva, com intervenções artísticas ligadas às vivências locais e à criatividade dos moradores diante dos desafios climáticos e socioambientais. A ação ocupou um muro de cerca de 128 metros de extensão e mais de três metros de altura na Rua Ivanildo Alves, no entorno de duas escolas municipais, entre a Rua Principal e a Rua Tancredo Neves.

O Minha Escola Mais Bonita, desenvolvido por integrantes do Instituto Vida Real, atuou na Escola Municipal Ginásio Olimpíadas Rio 2016. A proposta buscou valorizar o ambiente escolar, fortalecer o vínculo dos moradores com a escola e reivindicar apoio do poder público para a área externa da unidade. O grupo defendeu a criação de um espaço mais bonito, limpo, seguro e organizado, contribuindo para o bem-estar dos estudantes, professores e da comunidade escolar.

 

 

A proposta de Revitalização do Parque Ecológico da Maré surgiu a partir de uma pesquisa de mestrado desenvolvida por Raisa Bessa, com o objetivo de repensar a paisagem do parque e seus usos. O grupo realizou ações de requalificação viária e reflorestamento com espécies nativas e frutíferas, além da criação de áreas de compostagem e soluções ecológicas, por meio de mutirões com moradores, coletivos locais e articulação com o poder público.

Por fim, o Circuito Pontos de Memória, desenvolvido pelo Instituto Social Encontro das Artes, realizou uma série de intervenções artísticas na Nova Holanda e no Parque União. Os murais celebram trajetórias de moradores e valorizam identidades, histórias e memórias locais. O projeto também promoveu oficinas de graffiti e educação artística para crianças.

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