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Raio-x das praças da Maré revela desigualdades no acesso ao lazer e à convivência

Bárbara Diniz e Hélio Euclides l Edição Lara Machado l Fotos: Douglas Lopes

Produzido pela Redes da Maré, com apoio do CAU/RJ, Guia de Praças da Maré analisa 22 espaços do território e aponta problemas de acessibilidade e infraestrutura

À primeira vista, uma praça pode parecer apenas um espaço de passagem, descanso ou brincadeira. Mas, nas favelas da Maré, esses espaços também revelam desigualdades no acesso ao lazer, à convivência, ao cuidado e à cidade. Esse é o ponto de partida do Guia de Praças da Maré, publicação produzida pela Redes da Maré, com apoio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), e lançada na manhã de 17 de abril, na Areninha Cultural Herbert Vianna.

O levantamento apresenta um diagnóstico das condições de 22 praças do território e identifica limitações em áreas como mobiliário urbano, arborização, acessibilidade, lazer ativo, iluminação e infraestrutura. A publicação também chama atenção para um processo de perda de espaços de convivência, lazer e partilha na Maré, em um território onde praças cumprem papel central na vida cotidiana dos moradores.

 

 

A pesquisa de campo, realizada em 2023, combinou visitas técnicas às praças com a análise de registros oficiais, como a lista de praças do Rio de Janeiro (https://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/126674/4218105/PracasdoRio.pdf), da Fundação Parques e Jardins da Prefeitura do Rio, e o Caderno Maré, do programa Rio+Social. Além de reunir dados sobre as condições atuais desses espaços, o guia aponta caminhos que articulam urbanismo, saúde e meio ambiente.

Praças bem planejadas e cuidadas contribuem para a convivência comunitária, para a prática de atividades físicas e para a permanência segura de crianças, idosos e famílias nos espaços públicos. Também podem ajudar na redução das temperaturas locais, na mitigação de ilhas de calor e na melhoria da qualidade do ar, especialmente em áreas densamente urbanizadas como a Maré.

Acessibilidade, permanência e segurança ainda são desafios

O diagnóstico mostra que a maior parte das praças da Maré não oferece condições adequadas de acessibilidade. Mais de 70% dos espaços analisados não apresentam recursos como rampas, piso tátil, sinalização inclusiva ou banheiro adaptado. Na prática, isso significa que pessoas com deficiência, idosos, crianças pequenas e pessoas com mobilidade reduzida encontram barreiras para circular e permanecer nesses locais com autonomia e segurança.

A ausência de banheiros públicos também aparece como um problema estrutural. Nenhuma das praças analisadas conta com esse tipo de equipamento, o que limita o tempo de permanência dos moradores, especialmente crianças, idosos, gestantes e responsáveis que acompanham famílias nos espaços de lazer.

Outro dado importante diz respeito aos brinquedos infantis. Das 16 praças que possuem algum brinquedo, 13 apresentam mobiliário quebrado. Equipamentos danificados não são apenas sinais de descaso: representam risco concreto de acidentes para as crianças que utilizam esses espaços. Assim, embora a praça exista no mapa, muitas vezes não cumpre sua função como lugar seguro de encontro, permanência e lazer.

“Fazer parte de projetos como esse é mostrar a arquitetura e o urbanismo como instrumentos de transformação social, para a construção de um território fortalecido”, afirmou Michelle Beatrice, vice-presidente do CAU/RJ.

Falta de mobiliário limita o uso cotidiano das praças

O Guia de Praças da Maré também revela um cenário de abandono sistemático em relação ao mobiliário urbano. Segundo o levantamento, 63% das praças analisadas não possuem bancos e mesas. Sem esses equipamentos, a permanência no espaço fica comprometida.

A ausência de estrutura também afeta o direito ao lazer de diferentes faixas etárias. De cada três praças, duas não possuem nenhum equipamento voltado para idosos, como aparelhos de ginástica adaptados ou pisos antiderrapantes. Com isso, espaços que deveriam ser coletivos e de uso universal acabam restringindo a presença de parte significativa da população.

A falta de lixeiras é outro problema recorrente. Quase 90% das praças não possuem estrutura adequada para descarte de resíduos, o que contribui para o acúmulo de lixo e agrava problemas de higiene e saúde. Sem equipamentos públicos básicos, a responsabilidade pela conservação desses espaços muitas vezes recai sobre os próprios moradores.

Para Mateus Noce, arquiteto e urbanista, o guia mostra que não basta que as praças existam oficialmente, é preciso que elas tenham condições reais de uso. “A praça precisa servir o básico. Hoje temos espaços nas praças que precisam de um olhar para soluções que apresentamos no guia”, afirmou.

Guia aponta caminhos para política urbana no território

O diagnóstico também reforça que a situação das praças da Maré deve ser compreendida como uma questão de política pública. Para Maurício Dutra, pesquisador e coordenador do Eixo Direitos Urbanos e Socioambientais (DUSA), da Redes da Maré, o poder público precisa garantir espaços de lazer ativo para todas as faixas etárias. “Temos oficialmente 22 praças para 122 mil moradores, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O que ocorre é que culpam a comunidade pela situação do mobiliário quebrado, pelo mau uso, o que é uma criminalização e uma falsa motivação para o abandono pelo poder público”, afirmou.

A ausência de infraestrutura acessível não é apenas uma falha de planejamento urbano. O Plano Diretor do Rio de Janeiro, instituído pela Lei Complementar nº 270/2024, estabelece que praças e parques devem garantir a livre circulação de todas as pessoas com autonomia e segurança, adotando os princípios do desenho universal.

 

 

 

O próprio PROAP-RIO, programa de urbanização que integrou formalmente a Maré à cidade nos anos 1990, já previa praças, parques e jardins como componentes obrigatórios de um bairro urbanizado. Décadas depois, no entanto, o levantamento mostra que esse compromisso ainda não foi plenamente cumprido.

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