voltar
Maioria dos moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha não concorda com as atuais operações policiais em seus territórios

Pesquisa inédita realizada por seis organizações da sociedade civil das favelas mostra que 73% dos moradores discordam da realização de operações com confronto armado e 92% querem mudanças

Estudo qualitativo e quantitativo ouviu mais de 4.000 pessoas de forma presencial nos quatro grandes conjuntos de favela do Rio de Janeiro e revela um quadro de esgotamento da população por conta das operações policiais violentas e o número crescente de violações recorrentes

Acesso à pesquisa, fotos e dados aqui

Rio de Janeiro, 20 de maio de 2026 - Nas favelas do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Conjunto de Favelas da Maré e Rocinha, a percepção sobre as operações policiais é majoritariamente negativa. Segundo a pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”, 73% dos moradores discordam das ações realizadas nesses territórios, enquanto 91% afirmam que há excessos e ilegalidades por parte da polícia, percepção compartilhada até mesmo por 85% daqueles que apoiam as operações. A rejeição ao modelo atual também é ampla: 92% desaprovam a forma como essas ações são conduzidas, e 95% consideram que elas não contribuem para aumentar a segurança das famílias.

Esses são alguns achados da pesquisa realizada pela Fala Roça (Rocinha), Frente Penha, Instituto Papo Reto (Alemão), Instituto Raízes em Movimento (Alemão), Redes da Maré e A Rocinha Resiste, organizações da sociedade civil com atuação direta nos territórios pesquisados. O estudo teve apoio da Cátedra Patrícia Acioli da UFRJ, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), Fundação Tide Setúbal, Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da UFF, Instituto Fogo Cruzado, Laboratório de Análise da Violência (UERJ) e Open Society Foundations.

A pesquisa foi realizada em duas etapas, uma qualitativa e uma quantitativa, em quatro grandes conjuntos de favelas do Rio de Janeiro - Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré (Zona Norte) e Rocinha (Zona Sul) - que, juntos, somam 21% dos moradores de favelas da cidade e que, em sua maioria, são alvos de operações policiais violentas regularmente. Na etapa qualitativa, a primeira delas, foram realizados oito grupos focais, com a participação de 79 moradores. Na etapa quantitativa, foram feitas entrevistas estruturadas presenciais com 4.080 moradores, entre os dias 13 e 31 de janeiro de 2026, distribuídas de forma igualitária entre as quatro localidades (1.020 interviews em cada). 

As seis organizações da sociedade civil foram responsáveis por definir o desenho, a elaboração dos instrumentos de coleta, a mobilização dos participantes, a realização do trabalho de campo, a sistematização e a publicação do material. Da mesma forma, o trabalho de campo foi conduzido por pesquisadores moradores dos próprios territórios investigados, indo presencialmente nas ruas e residências para realizar as entrevistas.

O objetivo da pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?” é lançar luz sobre a vivência e a opinião daqueles que são os principais atingidos pelo modelo atual de operação policial centrado no enfrentamento bélico, entendendo suas percepções e sentimentos, pontos de crítica e desejos de mudanças. 

Historicamente, no Brasil, há uma longa tradição de se colocar a favela no centro do debate público sem levar em conta o ponto de vista de seus moradores. E isso não foi diferente depois da operação policial que terminou com 122 pessoas mortas nos Complexos da Penha e do Alemão, em 28 de outubro de 2025. As famílias ainda não haviam reconhecido os corpos, mas institutos de pesquisa já tinham feito consultas sobre a aprovação ou não da ação das forças de segurança, ouvindo a população em geral, mas sem escutar quem vivencia e sofre os impactos dessas ações.   

Essas pesquisas não são ilegítimas, mas é preciso reconhecer seus limites, porque aconteceram no calor de um momento de agitação e muita desinformação, além de a maioria dos respondentes desconhecer na pele o que é uma operação policial como aquela e quais as suas reais consequências. Daí a importância desta iniciativa inédita: uma pesquisa de opinião abrangente e aprofundada sobre operações policiais, totalmente idealizada por organizações de favela, realizada no campo por e com moradores de favelas.

“A proposta do estudo é buscar entender o que está por trás das percepções dos moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Conjunto de Favelas da Maré e Rocinha sobre as operações policiais, as motivações e influências de suas opiniões, as críticas, os desejos de mudança, os sentimentos e as sensações despertadas pela atuação das forças policiais onde vivem. Ao dar voz a quem é diretamente impactado, acessamos dimensões fundamentais da vida cotidiana do morador de favela em dias de operação policial. As respostas mostram que há um quadro de esgotamento da população por conta das operações violentas, o reconhecimento dos excessos dos policiais e uma evidente falta de legitimidade dessa que se tornou, ao longo dos anos, a única política de segurança em favelas e também a única forma das polícias atuarem nesses territórios”, afirma a diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, que coordenou  o estudo.

A pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?” também tratou diretamente da percepção sobre operações policiais com alto número de mortos, mostrando que há uma forte rejeição à violência extrema. Quando perguntados se operações policiais como a que aconteceu no Complexo do Alemão e no Complexo da Penha, com 122 mortos, precisam acontecer outras vezes, 85% dos moradores dizem que não, 7% consideram que às vezes e 7% afirmam que sim.

Uma pessoa que mora, por exemplo, na Maré conviveu com 92 operações policiais entre 2023 e 2025, segundo dados da Redes da Maré  – média superior a 30 operações por ano. Em 2025, o número de operações policiais nas favelas da Maré foi menor do que in outros anos, porém, a letalidade proporcional aumentou 58% em relação ao ano anterior.

O resultado da pesquisa chama a atenção para uma discussão necessária e urgente no ano eleitoral, convocando todos os entes federativos a refletirem sobre alternativas ativas de segurança pública que não se resumam a conflitos e confrontos violentos e que possam, de fato, dar uma solução ao problema, garantindo a vida da população.

“Queremos que haja uma nova política de segurança pública que preserve a vida dos moradores de favelas sem que a presença de grupos armados seja a justificativa para lançar mão de uma única possibilidade de atuação da polícia, com confrontos com alto índice de risco e letalidade para a população. É também direito dos moradores desses territórios experienciar uma política de segurança pública que os respeite”, reforça Osvaldo Lopes, do Fala Roça.



Discordância das operações é maior entre jovens e pessoas pretas

Ao todo, 73% dos moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha se posicionam contrários às operações policiais realizadas em seus territórios, enquanto 25% são a favor e 2% não responderam. Quando perguntados se as operações devem ser realizadas da maneira como são hoje, a crítica se amplia: 92% reprovam o modelo atual. Entre os entrevistados, 68% afirmam que as operações “precisam ser realizadas de outra forma” e 24% dizem que “não deveriam ser realizadas operações policiais em favelas”. Mesmo entre os que concordam com as operações, apenas 20% defendem o modelo atual. 

A  insatisfação dos moradores com as operações policiais apareceu de maneira contundente nos grupos focais da parte qualitativa da pesquisa:

“A operação não entra só com arma; entra com humilhação.”

“A vida para quando tem operação.”

“O morador paga uma conta que não é dele.” 

A discordância das operações policiais é mais elevada entre os mais jovens: entre aqueles de 18 a 29 anos, atinge 79%. Esse número pode estar relacionado à maior exposição — direta ou indireta — às dinâmicas da violência motivadas pelas operações policiais. Seja porque são eles que estão nos espaços públicos no momento in que a polícia entra, seja porque são alvos de processos de criminalização, ou ainda pela proximidade com outros jovens, faixa etária que concentra a maioria das vítimas nesses casos.

Também merece destaque o recorte racial dos entrevistados. A discordância às operações policiais é majoritária em todos os grupos raciais, mas chega a 81% entre as pessoas pretas. Entre as pessoas brancas, observou-se o maior percentual de concordância, chegando a 30%. Assim como entre os jovens, a maior discordância entre pessoas pretas pode estar associada a experiências mais recorrentes de exposição à violência policial, direta ou indiretamente. A seletividade racial nas abordagens pelas forças de segurança apareceu nos grupos focais:

“Depende da cor e da roupa. Tem gente que nem precisa fazer nada pra ser parado.”

“Se é preto e jovem, já entra como suspeito.”

“A abordagem não é igual pra todo mundo, isso a gente vê todo dia.”

Da mesma forma, a pesquisa mostra que a percepção de racismo nas operações policiais é majoritária. Quando questionados sobre se acham que há racismo no modo em que as operações são planejadas e realizadas nas favelas, 61% dizem que sim, 13% às vezes e 25% que não.

“A juventude negra das favelas não está falando apenas sobre segurança pública, está falando sobre direito ao futuro. Os dados mostram que há uma geração cansada de crescer entre operações, violações e medo. Defender outro modelo de segurança é também defender possibilidades de vida para essa juventude", afirma Magda Gomes, do A Rocinha Resiste.

93% já vivenciaram operações ou têm familiares que vivenciaram

As operações não são eventos excepcionais para quem vive nos territórios pesquisados. São uma dimensão estruturante da vida dos moradores, atravessam rotinas, relações sociais e formas de organização social. Quase todos os moradores entrevistados (93%) afirmam ter vivenciado diretamente, ou ter um familiar que vivenciou operações policiais. Esse padrão se mantém independentemente da posição em relação às operações, com percentuais elevados tanto entre aqueles que discordam (94%) quanto entre aqueles que concordam (91%) com elas. 

Quem disse que já vivenciou operações foi perguntado sobre os impactos mais frequentes delas em suas vidas. A restrição de circulação aparece como o mais recorrente, apontado por 51% dos que discordam das operações e 41,5% entre os que concordam. Em seguida aparece a invasão ou violação de domicílio, estabelecimento comercial ou veículo, mencionado por 37,5% entre os que discordam e 22,9% entre os que concordam com as operações. A presença recorrente de tiroteios e de balas perdidas foi apontada por 30,5% dos que discordam e 20,7% dos que concordam com as operações.

“Os números mostram que as operações incidem em direitos fundamentais de grande parte dos moradores, como o direito de ir e vir, de ter acesso ao trabalho, à saúde e à educação. Vemos nos territórios que as crianças e adolescentes são os que sofrem mais com esse cerceamento de liberdade de circulação”, diz Thainã de Medeiros, do Instituto Papo Reto. 

De acordo com um estudo da Redes da Maré, em dez anos de monitoramento de operações policiais, foram contabilizadas 1.538 violências e violações de direitos dos moradores da Maré, incluindo ameaças, tortura e cárcere privado. No mesmo período, por conta das ações policiais, houve 163 dias de unidades escolares públicas fechadas, o que equivale à perda de cerca de um ano letivo na trajetória educacional de crianças e adolescentes.

Percepção da atuação da polícia e de grupos armados

As entrevistados também responderam sobre a percepção da atuação da polícia em operações no Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha. No total, 78% dos moradores declararam sentir medo da polícia nas operações. Pouco ou bastante medo é prevalente entre os dois grupos, sendo a resposta de 85% entre aqueles que são contrários às operações e 59% entre os favoráveis. Há uma evidente inversão na percepção do papel do Estado na proteção do cidadão, que se repete quando são questionados sobre indignação ou revolta em relação às operações: 50% dos entrevistados disseram sentir bastante indignação, 25% um pouco e 24% afirmaram não sentir indignação ou revolta. Balas perdidas e desrespeito aos moradores são as principais razões citadas para terem esses sentimentos em relação aos policiais.

Por outro lado, quando os moradores foram perguntados sobre se a atuação dos grupos armados em seus territórios, houve menor incidência de medo e indignação: 52% afirmaram não se sentirem indignados e 59% responderam que não têm medo. A menor incidência de medo e revolta em relação aos grupos armados pode ser entendida pela natureza da experiência, devido ao convívio próximo e à presença cotidiana no mesmo território. 

Entre os que concordam com as operações, é maior o número de pessoas que sentem indignação ou revolta em relação aos grupos armados (61%). No entanto, chama a atenção que, neste mesmo grupo, o medo das forças policiais (59%) seja maior do que o medo dos grupos armados (53%). Isso significa que, mesmo entre quem apoia as operações, a polícia é vista como fonte de medo mais frequente do que os próprios grupos armados que as operações afirmam combater. Essa aparente contradição foi resumida em um dos grupos focais:

“A gente vive entre duas violências.”

Aqueles que declararam sentir indignação ou medo com a atuação dos grupos armados foram questionados sobre o que causa esses sentimentos, destacando o desrespeito aos moradores, balas perdidas e a presença de armas.

“É evidente que a população dessas favelas vive sob tensão permanente, pressionada por dois lados. Grupos armados que controlam os territórios e o Estado que deveria protegê-la. A indignação e o medo, em diferentes graus, são respostas compartilhadas por quem apoia e por quem rejeita as operações, isto é, independentemente do posicionamento, ninguém se sente seguro", afirma Vilson Luiz, do Coletivo Frente Penha. 

Consenso sobre o caráter violento das operações

A pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?” revela um consenso sobre o caráter violento das operações. Ao serem perguntados se a polícia comete excessos e ilegalidades durante as operações, 91% dos entrevistados responderam que “sim” ou que “sim, às vezes”. Os entrevistados reconhecem os abusos e os rejeitam: 90% consideram os excessos inaceitáveis, alcançando 95% entre aqueles que discordam das operações policiais. Entre os que concordam com as operações, 74% consideram as práticas ilegais e inaceitáveis. Ou seja, concordar com as operações não significa aceitar violência.

Há também rejeição à letalidade deliberada, que é vista pela maioria dos entrevistados como parte dos confrontos armados, mas apenas 3% concordam com a afirmação “geralmente, nas operações, a polícia precisa matar”. Do total, 41% afirmam que “nunca está certo matar durante as operações” e 54% concordam que “deve ser evitado matar, mas há situações em que não há como evitar”.

Entre os que são favoráveis às operações, a concordância com “geralmente, nas operações, a polícia precisa matar” sobe para 8% dos entrevistados. Vale notar que, mesmo neste grupo, 21% defendem que nunca está certo matar durante as operações. 

A letalidade não se apresenta, para a maior parte dos moradores, como valor positivo. Nos grupos focais surgiu como resultado de uma combinação de desesperança, resignação e naturalização de um padrão violento já consolidado no território.

“Não é defesa da morte; é sensação de perda de controle.”

“Tem apoio que nasce do desespero, não da concordância.” 

Os dados da pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?” mostram a urgência da revisão estrutural da política de segurança pública vigente. Hoje, como se viu nas respostas, o principal argumento usado para legitimar as operações policiais, que é a proteção das famílias, não encontra respaldo entre os moradores.

“As seis organizações de base comunitária que produziram o estudo defendem que é preciso mudar urgentemente o modelo que define a relação das forças de segurança com os territórios favelados. Os dados mostram que o morador de favela não aguenta mais que a presença estatal seja associada ao medo e à violência em seus territórios. É preciso garantir direitos e transformar de fato a vida de quem vive hoje sob este medo e violência constantes, vindos de todos os lados”, finaliza Arthur Dóring, do Instituto Raízes em Movimento.

Sobre a metodologia

Na primeira fase da pesquisa foram realizados oito grupos focais com pessoas adultas. Nessa etapa, os participantes compartilharam experiências, percepções e interpretações sobre temas como violência, proteção, medo, perda, uso dos espaços públicos, transformações territoriais e relações com instituições.

Os grupos focais contribuíram para a construção da etapa quantitativa, apontando temas relevantes e auxiliando na formulação de perguntas mais precisas e contextualizadas com as realidades locais. Os principais achados dos grupos focais foram incorporados ao questionário da etapa seguinte, a fim de mensurar sua prevalência na população amostral.

Já a etapa quantitativa da pesquisa foi realizada por amostragem não probabilística, combinando a amostra por estratos geográficos e a seleção por cotas. Os estratos geográficos foram os territórios de referência – Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha. A seleção por cotas, dentro de cada estrato geográfico, foi orientada por perfis de localidade de residência, sexo e faixa etária. 

Como os quatro territórios têm populações de tamanhos diferentes, os resultados totais foram calculados de forma ponderada, dando peso proporcional a cada um. Para esse desenho, o tamanho populacional de referência foi o registrado pelo Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para fins de interpretação, a margem de erro da pesquisa é de ±2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

 

Sites e @ organizações:

https://institutopaporeto.org/

https://raizesemmovimento.org.br/

https://falaroca.com/

https://www.redesdamare.org.br/br/

https://www.instagram.com/frentepenha/

https://www.instagram.com/arocinharesiste/

 

Mais informações à imprensa

Andrea Blum

+55 21 98105-9338 | andreablum@redesdamare.org.br

Adriana Pavlova

+55 21 99517-5755 | adrianapavlova@redesdamare.org.br

Fique por dentro das ações da Redes da Maré! Assine nossa newsletter!