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Pesquisa sobre redes alimentares da Maré propõe novos olhares para políticas de combate à fome

Gabrielle Gonçalves

Evento no Centro de Artes da Maré marca lançamento de estudo realizado pela Redes da Maré com o Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia da UFRJ, que destaca o papel das redes comunitárias na garantia da segurança alimentar no território

As relações comunitárias são parte fundamental na garantia da segurança alimentar e no combate à fome no Conjunto de Favelas da Maré. Esse é o principal achado da  pesquisa Redes de alimentação, economia e cuidados na Maré: pequenas diferenças que fazem toda a diferença, realizada entre 2020 e 2024, numa parceria da Redes da Maré com o Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia (NuCEC) da UFRJ. Os resultados da pesquisa serão apresentados nesta sexta-feira, dia 12 de junho, no Centro de Artes da Maré, durante o evento Discutindo Segurança Alimentar na Maré. O estudo revela as diferentes maneiras de as pessoas se manterem alimentadas nas favelas, mostrando os circuitos através dos quais a comida e o dinheiro que serve para comprá-la transitam na Maré. Também trata das relações entre as formas de adquirir, preparar, conservar e, ainda, vender alimentos. 

Entre os moradores entrevistados na segunda fase do estudo, que ouviu pessoas das favelas de Nova Holanda e Salsa e Merengue, 58% afirmaram alimentar pessoas de fora de suas casas e 46%  informaram que pedem dinheiro emprestado para amigos e parentes para comer. Outro dado que reforça a ideia de rede comunitária é que 60% dos respondentes afirmaram só fazerem compras de alimentos em estabelecimentos da Maré. 

 

“Os dados da pesquisa mostram que algumas pessoas contam com o apoio territorial de doações para se manterem alimentadas. Outras utilizam dessas alternativas para garantir mais uma refeição no dia, e de forma geral, vemos que muitos moradores dependem do funcionamento dessas redes de solidariedade para comer diariamente", afirma a coordenadora de projetos da Frente de Segurança Alimentar da Redes da Maré, Patrícia Ramalho.

As residências mais isoladas, que não têm parentes ou amigos no território,  enfrentam mais  dificuldade para lidar com  crises econômicas ou sanitárias, como ocorreu durante a pandemia de COVID-19. Segundo a pesquisa, esse grupo também acessa menos políticas de combate às desigualdades, como o Bolsa-Família, e outras ações de doação de alimentos. 

A pesquisa Redes de alimentação, economia e cuidado na Maré: pequenas diferenças que fazem toda a diferença sugere que as soluções para combater a fome nas favelas não devem ser tratadas como ações isoladas ou por um único ator social. É preciso conhecer e valorizar as dinâmicas cotidianas e comunitárias, assim como as pessoas que as produzem. 

“Vimos que na Maré, a segurança alimentar tem a mulher como protagonista, responsável tanto pela circulação de alimentos, comida, e dinheiro. Mas deve se reconhecer também a importância das organizações da sociedade civil, das instituições religiosas e dos pequenos empreendedores locais para o funcionamento da rede de alimentação territorial", destaca a pesquisadora Eugênia Motta, do NuCEC da UFRJ.

 

Segurança pública também impacta na alimentação na Maré

Os achados da pesquisa reforçam que é preciso considerar que os conflitos armados territoriais têm impacto direto na segurança alimentar dos moradores da Maré. Os circuitos alimentares e o combate à fome também dependem do direito de ir e vir dos moradores no conjunto de 15 favelas. As políticas de segurança pública devem contribuir para a circulação de pessoas e alimentos, em vez de promoverem isolamento e medo.

 

Segundo dados da Redes da Maré, de 2016 a 2025, foram contabilizadas 231 operações policiais no território, com 163 dias de unidades escolares fechadas, demonstrando que o cotidiano de ações policiais na Maré dificulta a manutenção das redes de solidariedade e o acesso à merenda escolar. Este tema também estará em debate no evento Discutindo Segurança Alimentar na Maré, na mesa “(In)segurança alimentar e (In)segurança Pública no Rio de Janeiro”, com participação da vereadora Maíra do MST (da Comissão de Segurança Alimentar da Câmara Municipal do Rio de Janeiro), Mariana Aleixo (Redes da Maré), Júlio Mendes (CONSEA/RJ) e Carlos Nhanga (Instituto Fogo Cruzado). 

 

Histórico da Frente de Segurança Alimentar da Redes da Maré 

 

A Frente de Segurança Alimentar da Redes de Maré tem como marco inicial a criação do projeto Maré de Sabores, em 2010, iniciativa de qualificação profissional em gastronomia para mulheres da Maré, que articula formação técnica, desenvolvimento humano e geração de trabalho e renda. Sediado desde 2016 na Casa das Mulheres da Maré, o projeto nasceu da demanda de mães em busca de melhorias dos hábitos alimentares de suas famílias. Desde então, já formou mais de 1500 mulheres em gastronomia, que são também agentes de segurança alimentar no território, além de ter como desdobramento o Buffet Maré de Sabores, negócio social criado e gerido por mulheres. 

Em 2020, com a pandemia de COVID-19, e a consequente demanda das famílias vulnerabilizadas do território por alimentação, a Frente de Segurança Alimentar foi ampliada. No primeiro ano da campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, criada pela Redes da Maré logo após o início da pandemia, foram distribuídas cestas de alimentos e kits de limpeza para 17.648 mil famílias e 65 mil refeições produzidas pela Maré de Sabores para pessoas em situação de rua. 

A partir de 2021, famílias em situação de insegurança alimentar continuaram a receber cestas básicas e nas entregas há, desde então, o acompanhamento de assistente social, para ampliar a rede de proteção social das famílias, ouvir demandas e sugestões, trocar informações sobre projetos da Redes da Maré e de outras organizações do território. Entre 2022 e 2025, por exemplo, foram entregues 4.800 cestas básicas.

No mesmo período, também foram distribuídas 70 mil refeições para pessoas em situação de rua e famílias em vulnerabilidade alimentar. A produção ficou a cargo da Cozinha Solidária Bira Carvalho em conjunto com o Buffet Maré de Sabores. Ainda em fase de captação de recursos para construção de sua sede na Nova Holanda, a Cozinha Bira Carvalho é um projeto da Redes da Maré que faz parte do Programa Cozinha Solidária do Ministério de Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Assim se consolidou a Frente de Segurança Alimentar da Redes da Maré, que hoje articula o Eixo de Direito à Saúde, a Casa das Mulheres e o Espaço Normal, na busca de saúde e bem estar dos moradores do Conjunto de favelas da Maré. 



Programação completa Discutindo Segurança Alimentar na Maré

 

Debate Público: “(In)segurança alimentar e (In)segurança Pública no Rio de Janeiro”


  • 9h: Mesa expositiva com Júlio Mendes, Presidente do CONSEA/RJ, Mariana Aleixo, da Redes da Maré, Carlos Nhanga, do Instituto Fogo Cruzado, e Maíra do MST, vereadora do município do Rio de Janeiro.


  • 10h: Discussão em grupos temáticos
  • Grupo 1 - Abastecimento, logística e acesso à alimentação; 
  • Grupo 2 - Soberania alimentar e violência;
  • Grupo 3 - Desigualdade e alimentação escolar;
  • Grupo 4 - Pesquisa e produção de dados.


  • 11h30: Síntese dos achados e encerramento do debate público 

 

Lançamento da pesquisa: “Redes de Alimentação, Economia e Cuidados na Maré: pequenas diferenças que fazem a diferença”



  • 14h: Mesa para debate sobre os achados da pesquisa com Lívia Romano e Cristiane Alves, moradoras e mobilizadoras da Maré, Eugênia Motta, do NuCEC, e Alexandra Gonçalves, Katia Bezerra e Patrícia Ramalho, da Redes da Maré.



Serviço:

Evento: Discutindo Segurança Alimentar na Maré

Data: 12 de junho de 2026

Horário: 9h às 16h

Local: Centro de Artes da Maré - Rua Bittencourt de Sampaio, 181

Realização: Redes da Maré, NuCEC da UFRJ e Comissão de Segurança Alimentar e Nutricional da Câmara Municipal do Rio de Janeiro

Entrada gratuita

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