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Ato Levante Maré por Justiça neste sábado vai lembrar os 8 anos da morte do adolescente Marcus Vinícius durante operação policial. Crime segue sem resposta

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2026 - Neste sábado, dia 20, faz oito anos que o menino Marcus Vinícius, então com 14 anos, foi morto voltando da escola, vestindo uniforme e com a mochila, durante uma operação policial na Vila dos Pinheiros, Conjunto de favelas da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro. Sua morte segue sem respostas, apesar da luta incansável por justiça de sua mãe, Bruna Silva.

Para marcar a data, a ONG Redes da Maré realiza o ato Levante Maré por Justiça no próprio dia 20, a partir das 15h, pelas ruas da Maré. O ato vai lembrar também a memória de outras vidas interrompidas em operações policiais na Maré, ressaltando as barreiras que impedem o acesso à justiça para populações de favela em crimes cometidos por agentes do Estado.

Em dez anos de monitoramento de operações policiais no conjunto de favelas, a Redes da Maré contabilizou 167 mortos, 16 perícias, 230 feridos e apenas uma denúncia realizada pelo Ministério Público. Entre esses, estão quatro crianças e adolescentes feridos e quatro mortos, incluindo Marcus Vinícius.

“O modelo de segurança pública praticado pelo Estado em territórios de favela continua apostando em operações policiais com confronto armado, que resultam, regularmente, em mortes e pessoas feridas, e em muitas outras violações, como invasões de casas e roubo. Mas uma série de obstáculos recorrentes impede a investigação desses crimes cometidos pelos agentes do Estado nas favelas, como a não preservação da cena do crime, a falta de perícia e a ausência da perícia autônoma. Por isso, muitas famílias e vítimas das violações do Estado enfrentam grande dificuldade para conseguir justiça e reparação”, explica a coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré, Tainá Alvarenga.

A caminhada, que começa na Clínica da Família Adib Jatene, na Vila dos Pinheiros, vai relembrar o trajeto feito por Marcus Vinícius ao voltar da escola, no dia de sua morte, em 2018. O ato culmina no espaço cultural Pontilhão, embaixo da Linha Amarela, onde haverá uma conversa a partir do tema “Nenhuma mãe cria seu filho pra morrer”, com Bruna Silva e outras mães e familiares de vítimas da violência armada na Maré.

Em seguida, serão exibidos vídeos produzidos pelo projeto Maré Por Justiça, da Redes da Maré, mostrando casos de vítimas da violência do Estado. O ato tem apoio da Cátedra Patrícia Acioli da UFRJ, Mães de Manguinhos, Justiça Global e Conectas.

“Já são oito anos sem justiça e eu sigo sem ter resposta sobre quem atirou no meu filho Marcus Vinícius. Durante esses anos, eu e minha família enfrentamos muitas barreiras na investigação, que até hoje não chegou a lugar nenhum. A mesma polícia que estava na operação que matou o Marcus é que fez a investigação. Isso não faz sentido. Eu acredito que, se no Rio de Janeiro tivesse uma perícia independente, o caso já teria avançado”, lamenta Bruna.

Naquele dia de 2018, quando Marcus Vinícius foi atingido na lombar por um tiro de fuzil, a operação era comandada pela Delegacia de Combate às Drogas (DECOD), com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) e outras delegacias, todas ligadas à Polícia Civil do Rio de Janeiro.

De acordo com o monitoramento da Redes da Maré, foi registrada a utilização de pelo menos um helicóptero da Polícia Civil, usado como plataforma de tiro, além de blindados da Força Nacional. Marcus Vinícius, alvejado na rua, não foi a única vítima: uma pessoa foi morta dentro de uma casa e outras cinco foram mortas, com indícios de execução, em outra residência.

No dia seguinte, a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) realizou uma perícia no local do crime. Trata-se de uma delegacia vinculada à Polícia Civil do Rio de Janeiro, a mesma polícia responsável pela operação policial que vitimou Marcus Vinícius.

Após a saída de Cláudio Castro (PL) do governo do Rio de Janeiro, em março de 2026, o governador em exercício, o desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) Ricardo Couto, trouxe à tona esta pauta que está sendo levantada há tempos: a autonomia total para a perícia criminal do Rio, hoje subordinada à Secretaria de Polícia Civil.

A autonomia da perícia também foi tema da ADPF 635, a ADPF das Favelas, no Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, os ministros se manifestaram sobre a importância da autonomia técnica, científica e funcional das perícias como condição essencial para que as investigações conduzidas pelo Ministério Público possam ser efetivas.

Segundo a Associação Brasileira de Criminalística (ABC) e a Defensoria Pública, por anos o Rio vive o atraso de não ter uma perícia criminal autônoma – na contramão de uma tendência nacional, atrás de outras 19 unidades federativas, que já têm perícias autônomas desvinculadas da Polícia Civil ou com autonomia administrativa e financeira.

“Existe uma intencionalidade em não se investigar os crimes que acontecem nas favelas e periferias durante a ação policial. São corpos que, de certa forma, são lidos socialmente dentro de uma lógica de sujeição criminal. São pessoas que não são vistas como cidadãos, são vistas como criminosos. Isso começa já no registro de ocorrência, quando a polícia sai na frente para dar a sua versão do que aconteceu, criando a narrativa que lhe é conveniente. Na prática, a polícia sustenta uma lógica da criminalização dos moradores, em todas essas pontas, do registro de ocorrência à investigação”, destaca a advogada da Redes da Maré, Marcela Cardoso.

A morte de Marcus Vinícius durante uma operação policial na Maré comandada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro não é um caso isolado. Mais recentemente, em 26 de novembro de 2025, três homens foram mortos numa operação na região da Vila dos Pinheiros — Bruno Paixão, Bruno Silva e Fabiano Conceição — e nenhuma das mortes passou por perícia de local.

No caso do vendedor de queijo Bruno Paixão, cuja kombi de trabalho foi alvejada, seu corpo ficou desaparecido por muitas horas até que a família tivesse notícia do paradeiro dele. Já o motorista Wilton Cipriano, morador do Morro do Timbau, foi alvejado duas vezes numa operação emergencial em 12 de fevereiro de 2026, quando somente os agentes da Polícia Civil atiraram, segundo informações de testemunhas e da própria família. Houve demora para que fosse levado ao hospital pelos policiais, perdeu muito sangue e acabou morrendo por conta da falta de socorro mais urgente.

Moradores reprovam o atual modelo de operações policiais

A violência armada dos policiais não se sustenta como um método de trabalho eficiente, já que não traz redução da violência e, muitas vezes, viola os direitos dos moradores.

Segundo a pesquisa Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?, realizada este ano nas favelas do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Conjunto de Favelas da Maré e Rocinha, a percepção sobre as operações policiais é majoritariamente negativa.

Os dados mostram que 73% dos moradores discordam das ações realizadas nesses territórios, enquanto 91% afirmam que há excessos e ilegalidades por parte da polícia. A rejeição ao modelo atual também é ampla: 92% desaprovam a forma como essas ações são conduzidas, e 95% consideram que elas não contribuem para aumentar a segurança das famílias.

O estudo lança luz sobre a vivência e a opinião daqueles que são os principais atingidos pelo modelo atual de operação policial, centrado no enfrentamento bélico, entendendo suas percepções e sentimentos, pontos de crítica e desejos de mudanças para que não se percam mais vidas como a do estudante Marcus Vinícius.

Sobre o ato Levante Maré por Justiça

Data: 20 de junho de 2026 (sábado)

Horário: 15h

Ponto de encontro: Clínica da Família Adib Jatene, Avenida Bento Ribeiro Dantas, s/n, Vila dos Pinheiros.

Trajeto: Saída da Clínica da Família Adib Jatene, caminhada pela Rua B1 até o espaço cultural Pontilhão (Rua Praia de Inhaúma, nº 911, embaixo da Linha Amarela).

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