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Ato para lembrar morte de Marcus Vinícius e outras vítimas de operações policiais reúne centenas de pessoas em caminhada pelas ruas da Maré

Adriana Pavlova I Fotos Patrick Marinho

Cenas de emoção e força de mães e familiares de mortos em ações policiais marcam o Levante Maré por Justiça organizado pela Redes da Maré e parceiros 

O sábado dia 20 de junho de 2026 não foi um dia qualquer na Maré. Mulheres cujas vidas são dedicadas a lutar por justiça mostraram que unidas são ainda mais fortes. Organizado pela Redes da Maré para marcar os oito anos da morte do menino Marcus Vinícius durante uma operação policial, o ato Levante Maré por Justiça foi um grande cortejo pelas ruas da Vila dos Pinheiros em homenagem às vítimas de ações policiais na favelas da Maré, mas também em outras comunidades da cidade. O ato teve apoio da Cátedra Patrícia Acioli da UFRJ, Mães de Manguinhos, Justiça Global e Conectas.

Numa tarde de céu azul, cerca de 300 pessoas caminharam ao som de músicas e palavras de pedido de justiça, sendo saudadas por moradores em suas casas. À frente do grupo, Bruna Silva, mãe de Marcus Vinícius, simbolizava a dor e a fortaleza de mães e familiares que seguem sem resposta pela violência cometida pelo próprio Estado e, mesmo assim, não esmorecem. Desde a concentração, por volta das 15h, em frente à Clínica da Família Adib Jatene, até o ponto final da caminhada, no Pontilhão, Bruna pegou o microfone do carro de som algumas vezes para lembrar a morte do filho, voltando da escola, de uniforme e mochila, em 2018, e fez questão de convocar outras mães e familiares de vítimas para darem seus depoimentos. Impossível segurar as lágrimas diante de tantas histórias trágicas de violência que seguem se repetindo em diferentes partes da cidade. 

 

 

“Há oito anos a gente segue sem resposta. Estar aqui nesse primeiro levante é muito importante. Não é só a memória do Marcus, mas de todas as vítimas que vêm sendo tombadas no decorrer dessas operações. O Estado só vem aqui, entra, viola, mata e não responde. O Estado que mata é o mesmo que investiga. Os nossos corpos não podem ser mortos e o Estado não pode matar e não responder. Cada corpo importa, cada vítima tem voz através de seus parentes”, disse Bruna no começo do ato, ao lado da filha Vitória, que segurava a camisa do uniforme manchada de sangue, usada pelo irmão no dia da morte. 

 

 

 

Uma das primeiras a falar foi Ana Paula Oliveira, liderança das Mães de Manguinhos, mãe de Johnatha, rapaz de 19 anos morto por um policial com um tiro nas costas. Ana Paula esteve ao lado de Bruna durante toda a caminhada.

“Hoje não sou eu mas dezenas de mães de outros territórios estão aqui para esse primeiro levante. A partir do momento em que a Bruna consegue se levantar, num dia como esse, diante de tanta dor e tanta saudade, a Bruna levanta todas nós, mães que também tivemos nossos filhos assassinados e seguimos com essa dor com a saudade, mas também a dor da injustiça, a dor da impunidade. Cada vez que o Estado não se movimenta para justiça, as mães se movimentam. As mães não estão só chorando, as mães não estão de braços cruzados, nós estamos nos levantando todos os dias, com muitas dificuldades, mas estamos levantando umas às outras, construindo políticas públicas que realmente nos atendam”, afirmou Ana Paula.

 

 

Um dos momentos mais simbólicos e emocionantes da caminhada pela Vila dos Pinheiros foi na rua B1, quase esquina com a Seletiva, onde Marcus Vinícius foi alvejado na volta da escola. Ali todo o cortejo parou para que novamente fossem feitas homenagens, culminando com cada parente de vítimas das operações soltando balões brancos no céu para lembrar seus queridos. 

De lá, o grupo seguiu até o Pontilhão, onde a Redes da Maré preparou uma estrutura de acolhimento, com cadeiras, lanche e telão. O grupo Jovens Defensoras Populares se pronunciou e depois foram exibidos dois vídeos preparados pela equipe do projeto Maré por Justiça: um sobre a operação policial em 26 de novembro de 2025, quando três homens foram mortos na ação comandada pela Polícia Civil, na região da Vila dos Pinheiros - Bruno Paixão, Bruno Silva e Fabiano Conceição - e nenhuma dessas mortes passou por perícia de local; o segundo, focado no caso de Marcus Vinícius, que também aconteceu numa operação da Polícia Civil. Em dez anos de monitoramento de operações policiais no Conjunto de favelas, a Redes da Maré contabilizou 167 mortos, 16 perícias, 230 feridos e apenas uma denúncia  realizada pelo Ministério Público, como explica a advogada Marcela Cardoso:

 

 

 

“Uma das 16 perícias é a do caso do Marcus Vinícius, que foi morto no território numa operação da Polícia Civil, que é a mesma que investiga os casos e que fez a esse perícia. Depois de oito anos, soubemos que essa perícia foi inconclusiva. Bruna nesse tempo não tem nenhuma resposta sobre o que aconteceu com o filho dela e não teve nenhuma responsabilização dos agentes policiais. A gente resolveu fazer esse ato na Maré para falar dessas mortes e da completa ausência do Estado nessas investigações”, explicou a advogada do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré. 

Entre os familiares das vítimas em operações na Maré que engrossaram o cortejo e terminaram o dia muito emocionados estava a irmã de Bruno Paixão, Renata Paixão, que levou sobrinhos e netos na homenagem ao irmão, que era vendedor de queijo e foi morto em novembro do ano passado. 

“Bruno era muito trabalhador, veio trazer comida para os pedreiros que estavam trabalhando numa quitinete dele, aqui no Pinheiro, foi entrar na kombi na rua e foi fuzilado com um monte de tiros nas costas. Ele não merecia o que os policiais fizeram. Um ato como o de hoje é importante para seguirmos lembrando das vítimas para que a impunidade não se repita. Isso não pode acontecer mais”, disse Renata.

 

 

 

Muito abalados também estavam os filhos e a mulher de Wilton Cipriano, motorista  morador do Morro do Timbau, que foi alvejado em dois lugares do corpo numa operação emergencial em 12 de fevereiro de 2026, quando somente os agentes da Polícia Civil atiraram, segundo informações de testemunhas e da própria família. Houve demora para que fosse levado ao hospital pelos policiais, perdeu muito sangue e acabou morrendo por conta da falta de socorro mais urgente. Ao lado da mãe Carla Gonçalves, o filho Vinicius e a filha Rayssa ostentavam camisetas com a imagem do pai em momentos de alegria.

“Justiça é o que buscamos. No caso do meu pai, assim como nos outros que estão aqui, nada foi feito pelo Estado até agora”, resumiu Rayssa com os olhos cheios de água. 

Pouco depois ela receberia um abraço forte de Bruna Silva, mostrando que a solidariedade entre os familiares de vítimas da violência do Estado não resolve a falta de respostas mas acolhe:

“Vocês não estão sozinhos. A gente tem a gente. Põe a memória dele para fora, porque temos que ter forças para seguir”, disse Bruna, reafirmando que a luta continua.

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