Doze jovens representantes do conjunto de favelas da Maré participam de projeto idealizado pela coreógrafa Lia Rodrigues no grande evento na cidade de Avignon
Intercâmbios internacionais e trocas artísticas são parte fundamental da história da Escola Livre de Dança da Maré (ELDM), espaço de ensino e aprendizagem no Centro de Artes da Maré (CAM), nascido da parceria da Redes da Maré com a Companhia Lia Rodrigues de Danças. Desde que o grupo de formação continuada de jovens em dança, o Núcleo 2, foi formado, em 2012, já aconteceram 14 experiências de alunos da Maré viajando para o exterior, para trocas de saberes, ou recebendo convidados de fora para intercâmbio carioca. E a mais recente delas está acontecendo justamente agora, durante o Festival de Avignon, na França, um dos grandes eventos mundiais de artes cênicas.
Até o dia 15 de julho, 12 jovens representantes da Escola Livre de Dança da Maré estão entre 54 artistas de todo o mundo escolhidos para o projeto formativo “Transmission Impossible” (“Transmissão Impossível”), definido como um laboratório de arte performática dentro da programação regular do festival francês. A coreógrafa Lia Rodrigues é a diretora artística do projeto bancado pela Fundação Hermès, a mesma apoiadora da Escola Livre de Dança da Maré desde o início dos trabalhos. Na comitiva da Maré, há nove alunos do Núcleo 2 e três ex-alunos com origem no território, que hoje são bailarinos profissionais – Andrey Silva, Luyd Carvalho e Raquel Alexandre.
Nesta “Transmissão Impossível”, os jovens artistas de dança e teatro foram divididos em quatro grupos para que cada um acompanhasse nove peças diferentes da programação do festival, sob mentoria de quatro nomes brasileiros da dança, responsáveis por guiar os debates sobre cada um dos trabalhos assistidos. No grupo dos mentores estão a professora e dramaturgista Silvia Soter, supervisora pedagógica da ELDM; a coreógrafa e professora Dani Lima, a coreógrafa e preparadora corporal Cristina Moura; e o bailarino e coreógrafo Calixto Neto.
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Grupo de alunos do Núcleo 2 que participam do intercâmbio na França:
A proposta é que no final, no dia 15 de julho, cada grupo apresente ao público, no café oficial do Festival de Avignon, algum tipo de criação a partir da experiência de duas semanas de reflexões artísticas, seguindo a ideia de partilha, como explica Silvia Soter: “Cada grupo assiste às nove peças, que geram debates, conversas e reflexões sobre as formas possíveis de partilha dessas obras, já que os demais grupos não as viram. A ideia central nesse projeto é pensar como se comunica o que se assiste, como a gente performa o que se assiste, daí o nome transmissão impossível”, diz Silvia.
O grupo da Maré fez o dever de casa e, durante o primeiro semestre de aulas do Núcleo 2, todos os alunos, inclusive os que não estão na França agora, tiveram encontros com artistas e professores, incluindo Silvia Soter e Dani Lima, sobre apreciação e análise coreográfica de espetáculos, antropologia da dança e até lições práticas de dança contemporânea em inglês, idioma escolhido para o intercâmbio. Além disso, houve apoio psicossocial, como conversas coletivas com a psicóloga Rosana Rapizo e equipe do Instituto de Psicologia da Uerj, parceiros da ELDM. Segundo a coordenadora da ELDM, Karoll Silva, a proposta é que, na volta ao Rio, o grupo que esteve na França também siga trocando com os demais alunos:
“No retorno dos estudantes viajantes, como de costume, faremos alguns encontros para os que os participantes do intercâmbio tenham a oportunidade de passar um pouquinho do aprendizado adquirido na viagem para os alunos que não puderem participar dessa vez, aguardando uma nova oportunidade de intercâmbios futuros”, conta Karoll, ela mesma ex-aluna do N2 e ex-integrante da Lia Rodrigues Companhia de Danças.
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Aula de balé do Núcleo 2
Karoll reforça a importância dos intercâmbios internacionais na metodologia de formação de jovens artistas do Núcleo 2, ressaltando que as experiências são fruto das conexões profissionais e pessoais de Lia Rodrigues, Silvia Soter e do reconhecimento do trabalho da Lia Rodrigues Companhias de Danças no mercado mundial da dança: “Esses intercâmbios são realizados com os integrantes do Núcleo 2 e diferentes projetos artísticos, escolas e companhias de dança do mundo, principalmente da França, ao longo dos anos, mas também da Suíça e até da Noruega. O objetivo é a troca cultural, artística e experiencial dos participantes e a explosão subjetiva de possibilidades que podem eclodir a partir dessas viagens, com novas perspectivas de mundo para nossos alunos”, diz.
O grupo de estudantes do Núcleo 2 para a viagem à França é formado por Arô Canzart, Michelly Silva, Aline Vieira, Samara Alves, Dinara Carneiro, Bento Dias, Jhon Monteiro, Pedro Campello e Vinícius Castro. Entre os bailarinos profissionais, Luyd Carvalho foi formado pela Escola PARTS de dança na Bélgica e hoje é professor da ELDM. Já Raquel Alexandre e Andrey Silva são integrantes da Companhia Lia Rodrigues de Danças desde 2018.
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Aula de dança contemporânea do Núcleo 2
Andrey, morador da Vila dos Pinheiros, chegou à Escola Livre de Dança aos 14 anos e hoje tem 30. Só no último ano, ele dançou 80 vezes o mais recente trabalho da companhia de Lia Rodrigues, “Borda”, em 11 países, sobretudo na Europa. Veterano no grupo de Avignon, Andrey percebe neste encontro a beleza da construção de relações humanas propostas por Lia Rodrigues na metodologia de trabalho:
“Acho que tanto esse projeto quanto a minha trajetória com a Lia traduzem exatamente a ideia de uma metodologia mutante, que marca os trabalhos da ELDM, que está sempre se transformando e se reinventando. Lia consegue fazer isso não apenas na escola e nos processos de criação de seus trabalhos, mas também na maneira como constrói relações e pensa a vida. É um modo de existir baseado na troca, na continuidade e na transformação, onde as pessoas seguem conectadas e em movimento ao longo do tempo”, finaliza.
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