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Tecedores da Redes da Maré participaram de intercâmbio com o Fundo Jequi, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais

Kelly Marques*

O intercâmbio entre a Redes da Maré e o Fundo Jequi, durante quatro dias, em julho de 2026, foi uma experiência profundamente enriquecedora, marcada pela troca de conhecimentos, afetos e diferentes formas de construir transformação social a partir dos territórios. Ao longo dos dias de visitas, ficou evidente que, embora os contextos sejam distintos, uma periferia urbana, que é o caso da Maré, e o campo no Vale do Jequitinhonha, os desafios e os sonhos compartilhados aproximam as organizações, que apostam na potência das comunidades e no protagonismo de seus moradores.

 

A iniciativa integra o Programa Transformando Territórios - TT, do IDIS, que fortalece e conecta fundos comunitários de diferentes regiões do Brasil, promovendo a troca de experiências, a consolidação institucional e a construção coletiva de soluções para os desafios enfrentados pelos territórios. A Redes da Maré participa do programa como Fundo Comunitário da Maré, reafirmando seu compromisso com o fortalecimento da filantropia comunitária e com a mobilização de recursos voltados ao desenvolvimento local. Nesse contexto, o intercâmbio com o Fundo Jequi representou uma oportunidade valiosa para conhecer práticas inspiradoras, compartilhar aprendizados e estreitar laços entre iniciativas que acreditam na transformação social construída a partir das próprias comunidades.

O primeiro dia da viagem de intercâmbio da equipe da Redes formada por mim e por Maurício Dutra, coordenador do Eixo Direitos Urbanos e Socioambientais, foi marcada por experiências que evidenciaram a potência da organização comunitária e a capacidade dos territórios de construírem soluções a partir de seus próprios saberes. A visita à Associação dos Condutores de Coronel Murta, na Serra do Elefante, mostrou como o turismo de base comunitária pode ser uma estratégia de desenvolvimento local, geração de renda e preservação ambiental. Ao valorizar a paisagem, a história e a cultura da região, a iniciativa fortalece o sentimento de pertencimento dos moradores e demonstra que cuidar do território também significa reconhecer seus potenciais. 

Em seguida, conhecemos o Projeto Ser Criança que foi, sem dúvida, uma das experiências mais marcantes do intercâmbio. Mais do que conhecer uma metodologia de trabalho, foi possível vivenciar uma concepção de infância baseada no brincar, na autonomia, na convivência, na imaginação e no direito de viver cada etapa do desenvolvimento sem pressa. No Jequitinhonha, a infância parece acontecer em um tempo diferente. As crianças ocupam os espaços com liberdade, experimentam a natureza, criam coletivamente e constroem relações permeadas pelo afeto e pela curiosidade. 

 

 

 

A valorização do brincar, da criatividade e das múltiplas formas de aprender também encontra eco no Dedo de Gente, que reconhece a potência das expressões artísticas e culturais como ferramentas de formação, geração de renda e fortalecimento da identidade da juventude do Vale. Para quem vive em uma grande metrópole como o Rio de Janeiro, onde a violência armada, a insegurança e a aceleração da vida urbana frequentemente interrompem o direito ao brincar, observar crianças vivendo plenamente sua infância provoca reflexões profundas. O Ser Criança lembra que garantir direitos não significa apenas oferecer acesso à escola ou à saúde, mas assegurar tempo, espaço, afeto e liberdade para que as crianças possam simplesmente ser crianças.

No segundo dia, conhecemos o Projeto de Jiu-Jítsu, que utiliza o esporte como ferramenta de inclusão, formação cidadã e fortalecimento de crianças e adolescentes. Muito além da prática esportiva, a iniciativa promove disciplina, respeito, autocuidado e construção de perspectivas para o futuro. Conhecemos também o  projeto de Robótica Sustentável. A iniciativa demonstra como ciência, tecnologia e sustentabilidade podem caminhar juntas ao despertar em crianças e jovens a curiosidade, o pensamento crítico e a criatividade por meio da construção de soluções utilizando materiais reutilizados. Assim como ocorre nas iniciativas de educação científica e tecnológica desenvolvidas na Maré, o projeto mostra que o acesso ao conhecimento pode ser transformador quando parte da realidade dos próprios territórios, estimulando as novas gerações a compreender que também podem criar, inovar e contribuir para enfrentar os desafios sociais e ambientais de suas comunidades.

O encerramento do dia, no Cinema de Araçuaí, reuniu diferentes expressões da cultura e da economia popular. A apresentação da Economia Popular Solidária evidenciou como o trabalho coletivo fortalece pequenos empreendedores, valoriza os saberes locais e amplia as possibilidades de geração de renda. Em seguida, a peça As Valentes  trouxe para o grupo histórias de resistência, memória e protagonismo feminino, reafirmando a cultura como instrumento de transformação social. Assim como acontece na Maré, a arte se apresenta como um espaço de encontro, reflexão e fortalecimento das identidades coletivas, capaz de mobilizar comunidades e produzir novas formas de enxergar o território.

 

 

 

A visita ao Quintal da Neide revelou a potência dos saberes populares como patrimônio vivo das comunidades. O espaço demonstra que conhecimentos tradicionais, práticas de cuidado, cultivo, alimentação, medicina popular e modos de viver constituem uma riqueza coletiva que precisa ser preservada e compartilhada entre gerações. Essa mesma valorização da memória esteve presente na visita ao Museu de Araçuaí, que evidencia como preservar histórias, objetos, narrativas e manifestações culturais é também fortalecer identidades e garantir que as futuras gerações conheçam suas origens. 

 

Entre todos os momentos vividos, o dia no Sítio Maravilha permanecerá em destaque na memória. A caminhada, a roda de conversa e o contato com a natureza proporcionaram uma experiência de desaceleração pouco comum para quem vive em um grande centro urbano. O silêncio, a paisagem, o tempo compartilhado e a simplicidade das atividades revelaram que o cuidado também acontece quando criamos espaços para respirar, escutar e fortalecer vínculos entre as pessoas.

Mas talvez o aspecto mais marcante de todo o intercâmbio tenha sido o calor humano do povo mineiro. Em cada encontro fomos recebidos com uma generosidade que ultrapassava a hospitalidade. A comida preparada com tanto carinho, os cafés compartilhados, as longas conversas e a disposição permanente para acolher fizeram com que nos sentíssemos parte daquele lugar. Em Minas Gerais, o afeto parece ser uma linguagem cotidiana, presente na forma de cozinhar, de receber, de ensinar e de construir relações.

Ao mesmo tempo em que compartilhamos experiências da Maré, também voltamos transformados. O intercâmbio reafirmou que inovação social não depende do tamanho do território ou da quantidade de recursos disponíveis, mas da capacidade de mobilizar pessoas, fortalecer vínculos, valorizar os saberes locais e construir soluções coletivas enraizadas na realidade de cada comunidade.

Levar para a Maré a memória do Jequitinhonha é levar também a lembrança de um território onde o tempo corre em outro compasso, onde o afeto faz parte da metodologia de trabalho, onde a infância é respeitada, os jovens são protagonistas, os saberes populares são reconhecidos e a memória coletiva é tratada como patrimônio. Mais do que uma agenda de visitas, o intercâmbio foi uma experiência de aprendizagem mútua, inspiração e fortalecimento de laços que certamente continuará produzindo frutos!

 

*Kelly Marques é gestora  de Captação de Recursos e Relacionamento Institucional da Redes da Maré

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