Ações da Redes da Maré em 23 escolas públicas aproximam a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ) do cotidiano escolar e fortalecem a construção de práticas de educação antirracista no território
Racismo, identidade, pertencimento e representatividade são temas que vêm aparecendo cada vez mais nas salas dos professores, nas formações pedagógicas e nas atividades das escolas da Maré. Em um território onde 62,1% da população jovem é negra, segundo o Censo da Maré de 2013, e onde a rotina escolar frequentemente é atravessada por impactos diversos da desigualdade, como a violência armada, a precariedade na infraestrutura e o racismo ambiental, educadores têm buscado transformar esses temas em debate no dia a dia da aprendizagem.
Esse movimento ganhou força nos últimos dois anos com a implementação da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ), criada pelo Ministério da Educação (MEC) em 2024. Desde então, a Redes da Maré participa da construção de uma experiência piloto de territorialização da política, em articulação com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (SECADI/MEC), a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ) e a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-Rio).
Na prática, a Redes da Maré atua na ponte entre as diretrizes nacionais e a realidade das escolas da Maré, articulando gestores, educadores e redes de ensino para identificar desafios, construir estratégias e fortalecer práticas de educação para as relações étnico-raciais no território. Atualmente, a iniciativa envolve 23 escolas públicas da Maré.
Desafios para transformar a política em prática em território de favelas
Fazer com que a educação antirracista esteja presente no cotidiano escolar passa pela formação dos profissionais da educação, pelo acesso a materiais pedagógicos e pela incorporação do tema no planejamento escolar. Na Maré, esses desafios se cruzam com questões históricas do território. Escolas que enfrentam interrupções de aulas provocadas pelas operações policiais, comunidades impactadas pela violência armada e equipes pedagógicas que lidam diariamente com múltiplas demandas precisam, ao mesmo tempo, encontrar espaço para construir novas práticas educativas.

Introdução à Educação para as Relações Étnico-Raciais com professores da EDI Maria Amélia Castro Belfort (2024)
É nesse contexto que o projeto Articulação com as Escolas, desenvolvido pela Redes da Maré, aproxima a PNEERQ do cotidiano das escolas do território. Nas formações contínuas, professores, coordenadores e gestores compartilham experiências e discutem caminhos para incorporar temas como racismo, inclusão, diversidade e desigualdades educacionais ao cotidiano escolar.
Introdução à Educação para as Relações Étnico-Raciais com estudantes do Colégio Estadual Bahia (2024)
Fernanda França, mulher preta, cria da Maré e articuladora da Redes da Maré que atua diretamente nas formações realizadas junto às equipes escolares, observa uma mudança na forma como esses debates vêm sendo recebidos. "Tenho percebido uma receptividade crescente. Muitos educadores enxergam esses encontros como espaços importantes de formação e troca. Frequentemente, compartilham experiências de discriminação, silenciamento ou descobertas sobre sua própria identidade racial. Isso mostra que falar de educação antirracista também é falar de trajetórias de vida”, afirma.
Entre as experiências que mais a marcaram está a de uma educadora que, após participar de uma formação, revisou os materiais utilizados em sala de aula e percebeu a ausência de referências negras nas atividades propostas aos estudantes. A partir dessa reflexão, passou a buscar novos conteúdos e a desenvolver práticas que valorizassem a história e as contribuições da população negra.

Introdução à Educação para as Relações Étnico-Raciais com professores da Escola Municipal Genival Pereira de Albuquerque (2024)
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Formação sobre Racismo Ambiental com professores da EDI Cleia Santos de Oliveira (2026)
Desde o início da implementação da PNEERQ no território, a Redes da Maré participa da articulação com as escolas públicas e redes de ensino para aproximar as diretrizes da política da realidade da Maré. Como parte dessa estratégia, a Redes indicou Juliana Ângelo, professora da rede estadual, para atuar como Agente de Governança Local da PNEERQ. Desde então, Juliana acompanha o processo nas escolas estaduais, dialoga com gestores e professores e ajuda a transformar as diretrizes da política em ações concretas no território. Para ela, um dos principais desafios é garantir que a educação sobre as relações étnico-raciais esteja presente durante todo o ano letivo, e não apenas em datas específicas do calendário escolar: “O meu papel tem sido estar próxima das escolas, ouvir gestores e professores, acompanhar o que já está sendo feito e ajudar para que essas ações ganhem continuidade e não sejam apenas iniciativas pontuais.”
Juliana avalia que as escolas têm avançado na valorização das identidades negras e no enfrentamento do racismo. No entanto, a violência armada e as constantes interrupções das aulas ainda dificultam a continuidade desse trabalho.
Para Lara Vilela, coordenadora-geral de Educação para as Relações Étnico-Raciais (SECADI/MEC), a participação de organizações do território é fundamental para que a política chegue às escolas de forma conectada às realidades locais. Segundo ela, parcerias com organizações como a Redes da Maré ajudam a traduzir as diretrizes nacionais para os diferentes contextos do país. "Precisamos de pessoas que vivem essas realidades para nos apoiar na implementação da política. São parceiros essenciais para pensar a implementação, o acompanhamento e a continuidade da PNEERQ”, concluiu.
Segundo Joana Oscar, gerente de relações étnico-raciais (GERER/SME-Rio), a articulação construída na Maré tem contribuído para aproximar a secretaria das escolas do território. “A parceria com a Redes da Maré é primordial e também um diferencial! Por serem uma potência imersa no território, nos auxiliam a atender as unidades escolares, voltando os olhares para ‘dentro’ e não para fora da comunidade”, afirma.
Embora previstos nas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, o ensino das histórias e culturas afro-brasileira, africana e indígena ainda ocorre de forma desigual nas redes de ensino, muitas vezes restrita a ações pontuais.
Segundo o MEC, as desigualdades raciais na educação permanecem evidentes em indicadores como acesso à creche, permanência na escola, conclusão do ensino médio e desempenho educacional. “Há uma desigualdade persistente entre estudantes brancos e negros. Quando observamos a população de 15 a 17 anos, vemos que, embora tenha havido crescimento na permanência e na conclusão do ensino médio para todos os grupos, os estudantes brancos continuam apresentando índices mais elevados de acesso e conclusão dessa etapa em comparação aos estudantes negros”, afirma Lara Vilela, da SECADI/MEC.

Articulação com as Escolas - EDI Azoilda Trindade (2026)
A experiência na Maré mostra que a articulação entre políticas públicas, redes de ensino e sociedade civil é fundamental para transformar diretrizes em práticas concretas em territórios periféricos e racializados, garantindo sua efetivação no cotidiano escolar.
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