Legenda: A diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, e Nísia Trindade, então presidente da Fiocruz, em Seminário da Campanha Vacina Maré, em 2022, no auditório Bio Manguinho, na Fiocruz. Foto © @Dougloppes
A Redes da Maré como uma instituição da sociedade civil que atua para incidir na garantia de direitos para as populações de favelas e periferias vem a público manifestar preocupação sobre a continuidade das iniciativas para esses segmentos, após a saída da ministra Nísia Trindade.
Nísia Trindade foi a primeira mulher à frente do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz. Dos 29 presidentes que a Fiocruz já teve, Nísia é a única socióloga numa lista onde 23 são médicos. Sem dúvida, sua formação e trajetória acadêmica fizeram diferença em sua gestão, conduzida também por um olhar atento às demandas de favelas e periferias. Sua tese de mestrado, “O Movimento de Favelados do Rio de Janeiro: Políticas do Estado e Lutas Sociais” reconstitui as lutas sociais que ocorreram em favelas do Rio de Janeiro. É sob essa ótica que gostaríamos de falar de Nísia. Queremos lembrar e honrar o legado que ela construiu para a promoção da saúde nas favelas contando um pouco da nossa experiência no conjunto de favelas da Maré.
De 2017 a 2023, à frente da Fiocruz, Nísia colocou as favelas como ponto de atenção da instituição. Manteve uma relação estreita com as favelas ao seu redor. Essa aproximação foi essencial para que, no início da pandemia, a Redes da Maré pudesse, por exemplo, buscar o apoio da Fiocruz e, com isso, organizar no conjunto de favelas da Maré projetos de enfrentamento à pandemia da covid-19. A iniciativa Conexão Saúde, que garantiu testagem, teleatendimento e isolamento domiciliar para os moradores, foi fundamental na mitigação dos efeitos da pandemia.
Importante enfatizar que, após a intervenção do projeto, a taxa de letalidade caiu 77% na região das favelas da Maré*, salvando muitas vidas. Com a liderança de Nísia, foi possível criar na sequência o projeto Vacina Maré, que teve como impacto a vacinação em massa de 36 mil moradores da Maré em apenas quatro dias, imunizando 100% da população com a primeira dose e, posteriormente, 93% da população adulta, com a segunda dose.

Também sob a gestão de Nísia, a instituição lançou um edital de financiamento para organizações comunitárias atuarem no combate à covid-19. Dessa iniciativa nasceu o Plano de Saúde Integral das Favelas, que hoje conta com 146 organizações de favelas e periferias financiadas pela Fiocruz, promovendo projetos de saúde e formando uma rede de colaboração nesses territórios.
Nísia Trindade levou esse olhar atento e respeitoso com os territórios periféricos ao ocupar o Ministério da Saúde. Criou uma assessoria inédita, a assessoria especial em Saúde nos Territórios de Periferias, liderada pelo médico sanitarista Valcler Rangel, responsável por articular com todas as pastas do Ministério da Saúde respostas às demandas dos territórios de favela e periferia.
Dessa articulação surgiu a parceria com a Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI), coordenada por Ana Estela Haddad, e que permitiu a implantação do projeto Saúde Digital nas unidades básicas de saúde da Maré, trazendo inovação, acesso e tecnologia para dentro do território. Além disso, foi por meio do Ministério da Saúde que se articulou o documento Caderno de Respostas, entregue a oito ministérios, de suma importância para a representatividade do território no endereçamento de demandas para a construção de políticas públicas.
Esses são apenas alguns dos feitos e legados que Nísia Trindade deixa ao Ministério da Saúde para a saúde nas favelas e periferias. Esperamos que essa mudança não impacte na continuidade das ações destinadas a esses territórios. Nísia, além de exemplar profissional, é uma pessoa extremamente sensível. Temos certeza de que Nísia segue na luta pelo Sistema Único de Saúde e pela Saúde nas Favelas. Por tudo isso, a Redes da Maré expressa sua profunda gratidão à ex-ministra e sempre parceira.

Redes da Maré
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro de 2025
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