voltar
Da importância de considerar os impactos nas favelas do Rio de Janeiro na avaliação da eficácia de operações policiais

Em uma semana na qual governantes do Estado do Rio de Janeiro celebraram a chamada “maior apreensão de drogas da história do país", moradores de favelas, organizações da sociedade civil e estudiosos da segurança pública seguem chocados com as violências e violações praticadas em nome do combate ao tráfico de drogas. A maneira como as operações acontecem fere o princípio do direito à vida e o respeito à legalidade de uma parte significativa da população do Estado do Rio de Janeiro - e não se sustentam como um método de trabalho eficiente, uma vez que, de forma evidente, não têm trazido redução da violência, da comercialização de drogas e outras ilegalidades.

A ênfase, pelo Estado e pela mídia, na “maior apreensão da história” contrasta com a realidade vivida no território e reforça uma lógica em que moradores de favelas não são tratados como sujeitos centrais da política de segurança. É fato que, ainda que haja apreensão de drogas, não há evidências de maior segurança para a população no território, nem nas demais áreas do Rio de Janeiro, após esta operação, nem na resolução do problema sistemático do combate às redes ilícitas. 

Estudos e dados acumulados sobre operações policiais nas favelas da Maré indicam um padrão: as operações geram impactos imediatos sobre serviços e direitos, mas não produzem mudanças concretas e estruturais sobre dinâmicas de violência ou na presença de grupos armados ou ainda no volume de drogas em circulação na cidade. As dinâmicas se recompõem rapidamente, evidenciando a baixa efetividade desse modelo.

Além disso, o foco exclusivo nas favelas ignora que os mercados ilícitos operam em redes amplas, que extrapolam esses territórios. A apreensão de cargas, mesmo volumosas, não altera estruturalmente essas engrenagens e reforça um modelo centrado na atuação letal em áreas periféricas e com alta densidade populacional. Isso reforça a ideia de que a vida das pessoas que moram em favelas tem menos importância que a de pessoas de outras regiões da cidade. 

Não é admissível que pessoas baleadas não recebam primeiros socorros adequados dentro das favelas, aumentando dramaticamente a letalidade. Não é admissível que as famílias das vítimas não recebam orientações e acolhimento das instituições públicas responsáveis. Não é possível uma política de Estado que naturalize mortos e feridos como “efeitos colaterais” e não zele pelos seus cidadãos, desconsiderando os impactos que este tipo de operação causa na vida cotidiana de mais de 140 mil pessoas.

Nesse contexto, a Redes da Maré acompanha, há mais de 10 anos, de forma sistemática, as operações policiais no território, com equipes em campo, escuta de moradores e apoio a familiares de vítimas dos confrontos recorrentes. O resultado do que é vivido dentro do território compõe o trabalho e também produz dados e evidências, como a publicação anual do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré (leia aqui).

Na última terça-feira, 07 de abril, moradores das favelas da Nova Holanda, Parque União, Rubens Vaz e Parque Maré foram acordados, às 4h49, com mais uma operação policial que ultrapassou 14 horas de duração. Mais uma vez, foram observadas dinâmicas ilegais e bélicas por parte de agentes do Estado - o que não foge à regra quando chamamos a atenção para o fato de, em nome do enfrentamento ao crime, o próprio Estado cometer muitas violações - acontecimento sistemático. 

A operação deixou uma pessoa morta e duas feridas, uma delas em estado grave, e mobilizou mais de 250 agentes, além de blindados e aeronaves. Conduzida sob a justificativa de repressão a roubos e combate a grupos armados, a assessoria da Polícia Militar declarou que serviria para “garantir maior sensação de segurança à população local”.  No entanto, o que se viu foi um território sitiado, com intensos tiroteios, circulação ostensiva de agentes armados e disseminação de medo e incerteza ao longo de todo o dia. Também foi observado pela equipe de campo da Redes da Maré que parte dos agentes não estavam equipados com câmeras corporais, determinação que deveria ser seguida à risca. 

Um homem de 29 anos morreu durante a operação. Dois jovens de 21 anos foram baleados e levados ao hospital. Um deles já foi liberado e está em casa. Nenhuma das vítimas recebeu primeiros socorros adequados: uma foi levada pela polícia ao hospital e morreu, as outras foram socorridas por moradores. A Redes da Maré acompanha, desde o dia da operação, as famílias com equipe especializada e multidisciplinar. 

No mesmo dia, 27 escolas suspenderam atividades, afetando 9.554 estudantes. Serviços de saúde foram interrompidos, com ao menos 370 atendimentos cancelados, além da suspensão de visitas domiciliares. Comércios, projetos sociais e organizações também paralisaram suas atividades ao longo de todo o dia. Não são fatos isolados, já que esta é a sétima operação policial ocorrida na Maré somente este ano, que já deixou seis pessoas mortas. 

É preciso reconhecer que esse modelo de atuação das polícias é a reprodução de ações reativas, de alto custo social, humano e financeiro, e baixa capacidade de transformação do contexto de enfrentamento ao crime. São as populações de territórios de favelas e periferias que arcam com os impactos dessa forma de atuação do Estado, sem que isso se traduza em mais segurança no cotidiano.

Em um contexto de profunda crise política no estado do Rio de Janeiro, em ano eleitoral, a Redes da Maré reitera sua preocupação com a instrumentalização da agenda de segurança pública. O histórico de desrespeito aos direitos e a necessidade de se reconhecer que os cidadãos, independentemente de sua origem, raça, gênero ou local de moradia, precisam receber o mesmo tratamento por parte do Estado é mais que urgente. 

Redes da Maré

Rio de Janeiro, 13 de abril de 2026

Fique por dentro das ações da Redes da Maré! Assine nossa newsletter!