Comitiva com equipe da Redes da Maré e lideranças das associações de moradores vai a Brasília em encontros com ministérios para defender prioridades do território e fortalecer a participação da Maré na formulação de políticas públicas
Por Lia Maria Manso Siqueira*
A ação política feita nas favelas segue fluxos que não cabem na definição tradicional do que é incidência política. Dito isso, como influenciar políticas públicas e decisões institucionais em prol dos direitos de populações de favela a partir da experiência de mobilização comunitária, produção de conhecimento e participação social do Conjunto de Favelas da Maré?
Há mais de 30 anos a Maré é um bairro. O nono mais populoso da cidade, formado por 16 sub-bairros. Entretanto, até hoje a Maré é vista em um não-lugar no que tange aos direitos não garantidos. Por isso mesmo, a incidência política de favela precisa ser inventiva e criativa. Nossa tarefa diária é fissurar e transformar estruturas que não coloquem os mareenses como sujeitos de direitos.
Assim, em 2009, surgiu o projeto Maré que Queremos que, de lá pra cá, vem organizando o Fórum das Associações de Moradores, em conjunto com a Redes da Maré, e criando pontes para a incidência por direitos. Uma das muitas perguntas colocadas para o Maré que Queremos consistia em como uma articulação local poderia chegar ao centro do poder nacional e dialogar diretamente com quem toma as decisões sobre os nossos direitos. Buscamos responder a esse desafio e, em maio de 2026, tivemos mais um novo capítulo dessa estratégia, como veremos a seguir.

Criado no início de 2026, o Grupo de Trabalho Técnico (GTT) Maré se reúne em Brasília com representantes do Governo federal para acompanhar demandas prioritárias do Conjunto de Favelas da Maré e fortalecer a implementação de políticas públicas na região
Entre os dias 27 e 29 de maio de 2026, a Comitiva do Maré que Queremos, composta por 19 pessoas, entre representantes das Associações de Moradores da Maré e da Redes da Maré, esteve em Brasília, com o objetivo de articular presencialmente em etapa decisiva das atividades do Grupo de Trabalho Técnico (GTT) para políticas públicas na Maré, bem como para incidir diretamente sobre os ministérios estratégicos para atender as demandas territoriais mapeadas pelo Fórum de Associações de Moradores em 2023 e focos do trabalho do GTT Maré.
Foram três dias intensos, nos quais 12 representantes das 16 associações do Conjunto de Favelas da Maré se integraram a sete representantes da Redes da Maré, para levar demandas orientadas por conhecimento crítico produzido a partir do que se vive no território. Para muitos de nós, toda a experiência era nova, de entrar em um avião a entrar no Palácio do Planalto. E para todos nós era única a oportunidade de juntar presencialmente as presidências de associações dos sub-bairros da Maré com quem pensa a política pública para o Brasil.
A programação foi estruturada para que cada reunião contribuísse com um aspecto específico da estratégia de incidência. Em vez de apresentar reivindicações isoladas, a comitiva levou uma agenda integrada, articulando diferentes áreas do governo federal em torno de um objetivo comum: agir sobre as seis prioridades, entre as 80 demandas principais identificadas pelo território no “Caderno de Respostas: Demandas das Associações de Moradores da Maré”, publicado em 2024, visando fortalecer as ações e orçamento para que elas cheguem, efetivamente, no Conjunto de Favelas da Maré.
A atuação do Maré que Queremos em Brasília para a reunião do GTT Maré refletiu um dos principais aprendizados acumulados pelo Fórum de Associações de Moradores, desde sua criação, em 2009. Ao longo desse percurso, as associações consolidaram, junto da Redes da Maré, uma metodologia baseada na identificação coletiva de problemas, na produção de diagnósticos, na definição compartilhada de prioridades e no acompanhamento sistemático das respostas do poder público.
Entre 2023 e 2024 aprendemos que podemos ter longo alcance a partir da articulação territorial para atrair políticas públicas e afastar intervenção de forças armadas. Marcam esse caminho o "Caderno de Respostas às Demandas das Associações de Moradores do Conjunto de Favelas da Maré", pela primeira vez utilizado para dar retorno às reivindicações territoriais de uma favela; e a criação de instância institucional de monitoramento e participação social para o Conjunto de Favelas da Maré, o GTT Maré. Agora, com a Comitiva do Maré que Queremos indo à Brasília, fortalecemos nossa incidência política, que consegue, de fato, se aproximar do centro de decisões sobre planejamento, orçamento, infraestrutura, educação, direitos e acesso à justiça. Nas palavras da coordenadora da área de incidência da Redes da Maré, Lidiane Malanquini, “construir pautas e prioridades para a Maré junto com o governo federal, pensando como os investimentos em políticas públicas chegam para o território, é um marco histórico para a ampliação de direitos da população mareense.”

Representantes das associações de moradores da Maré e da Redes da Maré participaram de agendas de incidência política em Brasília entre os dias 27 e 29 de maio de 2026
As agendas foram planejadas para dialogar diretamente com as seis prioridades definidas pelo Fórum das Associações de Moradores e apresentadas ao GTT Maré, ainda em abril de 2026. São elas: a ampliação do Novo PAC para todas as favelas da Maré; a implantação de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no território; a criação de um Conselho Tutelar na Maré; a construção de um Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia na Maré; a implementação de espaços de cuidado para pessoas com deficiência; e a instalação de um núcleo da Defensoria Pública Estadual na Maré.
Para além da reunião do próprio GTT Maré, nos reunimos com Ministério do Planejamento e Orçamento, Ministério das Cidades, Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ministério da Saúde, Ministério da Educação e Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Em cada ministério, apresentamos e justificamos as prioridades relacionadas às suas competências, embasamos as reivindicações por meio de dados e conhecimento territoriais, bem como destacamos recomendações para elaboração e fortalecimento das políticas públicas para a Maré.
O diálogo com o Ministério do Planejamento e Orçamento ilustra essa estratégia. A pauta apresentada não se limitou à reivindicação de novos investimentos. A comitiva descreveu as demandas, embasadas em dados, e realizou recomendações para que sejam incorporadas aos instrumentos nacionais de planejamento e possam ser monitoradas por marcadores hábeis que indiquem a efetiva territorialização do orçamento.
Entre os meses de junho e julho de 2026, o governo federal lançará o relatório preliminar do GTT Maré com a consolidação de ações e políticas para Maré, e com os próximos encaminhamentos. O Maré que Queremos seguirá monitorando e incidindo sobre os referidos desdobramentos do grupo.

Comitiva do projeto Maré que Queremos em Brasília, que reuniu o Grupo de Trabalho Técnico (GTT) Maré e ministérios estratégicos para avançar em demandas prioritárias das favelas da Maré
A experiência do Maré que Queremos deixa evidente o potencial das favelas em co-protagonizar a formulação e monitoramento de políticas públicas, bem como sua criatividade para a elaboração de tecnologias sociais capazes de fortalecer a democracia.
*Lia Maria Manso Siqueira é advogada e analista de incidência política da Redes da Maré
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