Data: 30 de julho de 2026
Elaboração: Observatório de Clima e Saúde (ICICT/Fiocruz) e Redes da Maré
Na tarde e no início da noite de 29 de julho de 2026, o município do Rio de Janeiro foi atingido por ventos intensos associados à atuação de um sistema de alta pressão sobre o Sudeste do Brasil e o oceano, em interação com o avanço de uma frente fria pelo Atlântico Sul. Essa combinação favoreceu o aumento da velocidade dos ventos, especialmente na faixa litorânea do estado. Na Base Aérea do Galeão, foram registradas rajadas de até 105 km/h.
O episódio provocou queda de árvores e galhos, interrupções no fornecimento de energia elétrica, danos a estruturas urbanas e situações de risco em diferentes regiões da cidade. Na Maré, moradores e equipes da Redes da Maré também registraram impactos no território, como destelhamentos, instabilidade no fornecimento de energia, além de outros danos à infraestrutura local.
Esta nota técnica reúne informações produzidas pelo Observatório de Clima e Saúde (Icict/Fiocruz) e pela Redes da Maré, combinando previsões e avisos meteorológicos, dados da estação meteorológica instalada na Maré e registros comunitários realizados durante o evento. O objetivo é compreender como esse episódio se desenvolveu, quais impactos provocou no território e como o monitoramento climático em favelas pode contribuir para fortalecer a prevenção, a comunicação de riscos e a adaptação às mudanças climáticas.
2.1 Alertar Saúde
Na manhã do dia 29 de julho, o sistema AlertAr Saúde, do Observatório de Clima e Saúde (Icict/Fiocruz), já indicava a previsão de aumento da velocidade média dos ventos no município do Rio de Janeiro. Com base em dados do modelo Copernicus CAMS, a previsão apontava, às 9h, que o pico da velocidade média do vento ocorreria por volta das 19h, com valor estimado de 23,4 km/h.
É importante destacar que essa previsão se refere à velocidade média dos ventos e não contempla as rajadas, que costumam atingir valores mais elevados. Ainda assim, o aumento da velocidade média é um indicativo da possibilidade de ocorrência de ventos mais intensos ao longo do período.
A figura 1 apresenta o mapa do vento previsto para as 19h do dia 29 de julho. Cores azuis mais claras indicam valores mais altos da velocidade do vento. As partículas brancas representam a velocidade e direção do vento.
2.2 Avisos meteorológicos
O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) emitiu um aviso meteorológico à meia-noite do dia 29 de julho sobre ventos costeiros severos, com validade das 10h às 23h59 do mesmo dia. O alerta indicava:
Intensificação dos ventos nas regiões litorâneas, com possibilidade de movimentação de dunas de areia sobre construções na orla.
O AlertaRio, da prefeitura municipal, emitiu aviso meteorológico de vento moderado a forte às 14h, com validade das 16h às 23h59min do dia 29 de julho. O Centro de Operações do Rio (COR) colocou a cidade em Estágio 2 de atenção às 16h50min.
O gráfico abaixo apresenta avisos meteorológicos emitidos pelo INMET em 2026 que englobavam o Rio de Janeiro, até a data do dia 29 de julho. Pode-se observar que já foram emitidos diversos avisos meteorológicos para o Rio de Janeiro este ano, incluindo mais recentemente avisos sobre ventos costeiros, tempestades e baixa umidade do ar.

Legenda: Avisos meteorológicos emitidos pelo INMET em 2026 para o Rio de Janeiro.
Fonte: Observatório de Clima e Saúde e Redes da Maré.
Em 2026, o Observatório de Clima e Saúde (Icict/Fiocruz) e a Redes da Maré instalaram uma estação meteorológica na Casa das Mulheres, equipamento da Redes dedicado à promoção dos direitos das mulheres, à equidade de gênero e ao fortalecimento da autonomia feminina por meio de ações de acolhimento, formação, cultura, saúde e geração de renda.
A estação registra, a cada cinco minutos, dados como temperatura, chuva, qualidade do ar e velocidade do vento. Trata-se da primeira estação meteorológica e de monitoramento permanente da qualidade do ar instalada em uma favela do Rio de Janeiro, um marco importante para ampliar a produção de dados sobre as condições climáticas em territórios populares.
Em geral, as estações meteorológicas estão instaladas em aeroportos, parques, praças ou outros espaços abertos, seguindo critérios técnicos voltados à padronização das medições. Embora fundamentais para o monitoramento em escala regional, esses equipamentos nem sempre conseguem captar as particularidades do microclima de áreas densamente ocupadas, como as favelas, onde a disposição das construções, a circulação do ar e os materiais utilizados nas edificações influenciam diretamente as condições ambientais.
A estação da Maré contribui justamente para preencher essa lacuna, produzindo dados sobre o território onde a população vive e permitindo compreender melhor como os fenômenos meteorológicos se manifestam em um contexto urbano marcado por alta densidade populacional e construtiva.
No dia 29 de julho, durante o evento de ventos intensos, a estação registrou uma rajada de aproximadamente 42 km/h às 16h31. Os dados mostram um aumento significativo tanto da velocidade média do vento quanto das rajadas entre 16h30 e 18h, período em que os ventos se intensificaram na cidade.

Valores de vento e rajada registrados na estação meteorológica da Maré
Fonte: Observatório de Clima e Saúde e Redes da Maré.
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Estação meteorológica instalada na Maré na casa das Mulheres da Maré
A Maré é um bairro localizado entre a Avenida Brasil, a Linha Vermelha e a Linha Amarela, às margens da Baía de Guanabara. O território reúne 15 favelas distribuídas em uma área de aproximadamente 4 km² e apresenta características que evidenciam sua complexidade urbana e social.
De acordo com o Censo Maré (2019), se fosse um município, a Maré seria o 21º mais populoso do estado do Rio de Janeiro e teria uma população maior do que a de cerca de 96% dos municípios brasileiros. Na Região Metropolitana, ocuparia a 12ª posição entre os 21 municípios.
Além da elevada concentração populacional, o território abriga uma ampla rede de equipamentos públicos, incluindo 49 escolas públicas, seis unidades de Atenção Primária à Saúde e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Esses números revelam a complexidade da gestão de um território com dimensões e demandas semelhantes às de muitos municípios brasileiros.
A Maré também apresenta características sociodemográficas que reforçam a importância de políticas públicas voltadas para a adaptação às mudanças climáticas: 51% da população é composta por mulheres, 45% dos domicílios são chefiados por mulheres, 62,1% dos moradores se autodeclaram pretos ou pardos e 51,9% da população tem menos de 30 anos.
Esses indicadores mostram que compreender como eventos meteorológicos extremos afetam a Maré é fundamental para fortalecer estratégias de prevenção, reduzir vulnerabilidades e orientar políticas públicas mais adequadas à realidade das favelas.
Os dados registrados pela estação meteorológica da Maré devem ser interpretados considerando as características do território onde ela está instalada. Diferentemente das estações convencionais, geralmente localizadas em áreas abertas para reduzir a influência de obstáculos como árvores e edifícios, a estação da Maré está inserida em um ambiente urbano densamente ocupado.
A proximidade entre as construções, as ruas estreitas, as diferentes alturas das edificações e os materiais utilizados nas moradias alteram a circulação do ar, produzindo bloqueios, canalizações, turbulências e variações locais na direção e na intensidade dos ventos. Além disso, superfícies como concreto, cerâmica e telhas metálicas absorvem calor ao longo do dia e o liberam durante a noite, influenciando o microclima e a dinâmica das massas de ar.
Por isso, os dados registrados na Maré não devem ser comparados diretamente aos de estações instaladas em áreas abertas. As diferenças entre as medições não representam erro ou menor qualidade da informação, mas refletem contextos físicos distintos.
A principal contribuição da estação é medir as condições atmosféricas no ambiente onde a população efetivamente vive. Enquanto as estações oficiais caracterizam o fenômeno em escala regional, a estação comunitária oferece uma leitura territorializada da exposição aos eventos climáticos, contribuindo para compreender vulnerabilidades e fortalecer estratégias de adaptação.
A observação comunitária complementa os sistemas convencionais de monitoramento ao registrar danos e interrupções vivenciados pela população, ampliando a compreensão sobre os efeitos dos eventos climáticos extremos nos territórios.
Durante o episódio de ventos intensos de 29 de julho, moradores e equipes da Redes da Maré registraram destelhamentos, danos em coberturas de residências, deslocamento de tampas de caixas d'água, queda de árvores e galhos, interrupções no fornecimento de energia elétrica e instabilidade nos serviços de internet e telefonia.
Na Maré, a falta de energia também pode comprometer o abastecimento de água. Parte das moradias depende diretamente da pressão da rede e muitas utilizam bombas elétricas para abastecer caixas d'água, especialmente em construções com mais de um pavimento.
Embora não tenham sido identificados danos estruturais relevantes nas unidades de saúde e as escolas estivessem em período de férias, os registros evidenciam a vulnerabilidade da infraestrutura urbana e habitacional diante de eventos climáticos extremos.
Em territórios populares, impactos como destelhamentos, interrupções no abastecimento de água, energia e internet e danos às moradias raramente são registrados de forma sistemática. Por isso, os registros produzidos por moradores, em articulação com a Redes da Maré, a estação meteorológica e o AlertAr Saúde complementam os sistemas oficiais e ajudam a compreender como um mesmo fenômeno climático produz efeitos distintos em diferentes territórios.
A integração entre monitoramento meteorológico e observação comunitária fortalece a produção de conhecimento sobre a realidade local, contribui para aprimorar protocolos de prevenção e resposta e apoia estratégias de adaptação climática mais conectadas às necessidades das comunidades.
Ventos intensos podem produzir efeitos diretos sobre a saúde, principalmente por meio de traumatismos causados pela queda ou pelo deslocamento de árvores, telhas, placas, estruturas metálicas e outros objetos. Também aumentam o risco de acidentes durante deslocamentos, contato com fios elétricos, quedas e danos em edificações vulneráveis.
Os efeitos indiretos incluem interrupções de energia elétrica, comprometimento da conservação de alimentos e medicamentos, dificuldades de funcionamento de unidades e equipamentos públicos, redução da mobilidade e aumento da insegurança em áreas com infraestrutura precária. Pessoas idosas, crianças, pessoas com deficiência, indivíduos com doenças crônicas e moradores de habitações mais frágeis podem ser afetados de forma mais intensa.
A redução desses riscos depende da articulação entre previsão meteorológica, manutenção urbana, comunicação de risco e redes locais de informação. Os avisos precisam chegar à população com antecedência, em linguagem acessível e com orientações compatíveis com a realidade do território. A presença de uma estação meteorológica na Maré e a mobilização de redes comunitárias ampliam a capacidade de reconhecer rapidamente situações de risco e registrar seus impactos.
Eventos de ventos intensos fazem parte da variabilidade natural do clima e podem resultar da interação entre diferentes sistemas meteorológicos. Um episódio isolado, por si só, não permite estabelecer uma relação direta com as mudanças climáticas. Essa avaliação depende do monitoramento contínuo das condições meteorológicas e da análise de séries históricas por equipes especializadas.
Ao mesmo tempo, as mudanças climáticas alteram as condições da atmosfera e dos oceanos nas quais esses fenômenos se desenvolvem. Embora seus efeitos sobre ventos extremos ainda apresentem maior incerteza regional do que aqueles observados para ondas de calor e chuvas intensas, o planejamento urbano e a vigilância em saúde precisam considerar a possibilidade de eventos com impactos cada vez mais relevantes.
Os riscos não dependem apenas da intensidade do fenômeno meteorológico, mas também das características e vulnerabilidades de cada território. Na Maré, a elevada densidade construtiva, a proximidade entre edificações e as desigualdades de acesso à infraestrutura podem ampliar os impactos desses eventos.
Nesse cenário, o monitoramento meteorológico realizado na Maré, articulado aos alertas oficiais e aos registros comunitários, fortalece a capacidade de reconhecer situações de risco, documentar seus impactos e orientar ações de prevenção, resposta e adaptação às mudanças climáticas.
O evento de 29 de julho de 2026 demonstra a importância de combinar previsão meteorológica, observação local e registros comunitários. Os sistemas oficiais e os modelos de previsão permitem antecipar e caracterizar o fenômeno em escala municipal, enquanto a estação da Maré mostra as condições do vento no ambiente em que a população efetivamente vive.
As medições realizadas em um território urbano densamente ocupado não substituem as observações de estações meteorológicas convencionais. Elas acrescentam uma dimensão complementar e essencial: a exposição real dos moradores. Quando associadas a fotografias, vídeos e relatos, essas informações permitem compreender não apenas a intensidade do evento, mas também seus impactos concretos sobre a saúde, a moradia, a mobilidade e o acesso a serviços.
A parceria entre o Observatório de Clima e Saúde e a Redes da Maré fortalece uma forma de vigilância que integra conhecimento científico, infraestrutura de monitoramento, participação social e ciência cidadã. Essa articulação pode melhorar a comunicação de risco, orientar medidas preventivas e apoiar respostas mais rápidas e territorialmente adequadas diante de futuros eventos meteorológicos extremos.
REFERÊNCIAS
ALERTAR SAÚDE. Previsões e produtos emitidos para o período do evento. Disponível em: https://shiny.icict.fiocruz.br/alertarsaude/.
BRASIL. Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Avisos meteorológicos para o município do Rio de Janeiro. Disponível em: https://avisos.inmet.gov.br/.
BRASIL. Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN). Alertas e boletins referentes ao período analisado. Disponível em: https://www.gov.br/cemaden/.
SISTEMA ALERTA RIO. Dados e boletins meteorológicos do município do Rio de Janeiro. Disponível em: https://alertario.rio.rj.gov.br/.
GALEAZZI, C. H.; CORBELLA, O.; DRACH, P. O mar virou sertão? Um estudo sobre as ilhas de calor no Complexo da Maré. O Social em Questão, Rio de Janeiro, v. 23, n. 48, p. 267-293, 2020.
REDES DA MARÉ; INSTITUTO CLIMA E SOCIEDADE (ICS). Respira Maré: diagnóstico sobre ilhas de calor e qualidade do ar nas 16 favelas da Maré. Rio de Janeiro: Redes da Maré, 2023.
REDES DA MARÉ. Censo Populacional da Maré. Rio de Janeiro: Redes da Maré, 2019. Disponível em: https://www.redesdamare.org.br/media/downloads/arquivos/CensoMare_WEB_04MAI.pdf.
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