Edição: Adriana Pavlova | Fotos: Douglas Lopes e Gabi Lino
A Redes da Maré deu início, nesta segunda-feira (23), ao 3º Congresso Internacional Falando Sobre Segurança Pública na Maré , que acontece até o dia 25 de março, na Areninha Cultural Herbert Vianna, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A programação de abertura foi marcada por atividades com crianças e adolescentes e pela conferência que reuniu especialistas para discutir o papel da geração cidadã de dados na construção de políticas públicas de segurança.
Durante a tarde, foi realizado o Congresso Falando Sobre Segurança Pública com Crianças e Adolescentes na Maré , atividade voltada à rede parceira e ao público infantojuvenil do território. A proposta foi promover um espaço de escuta e reflexão sobre as violências que atravessam o cotidiano nas favelas, a partir das experiências de meninas, meninos e jovens. Confira aqui como foi.
À noite, a abertura oficial do congresso reuniu pesquisadores, representantes de organizações da sociedade civil e especialistas para a conferência “A relevância da geração cidadã de dados para a construção de políticas públicas no âmbito do direito à segurança pública”.
O início dos trabalhos foi marcado pela memória de Marcus Vinicius da Silva, jovem morador da Maré morto aos 14 anos, em 2018, durante uma operação policial, quando se dirigia à escola. A Coordenadora do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré, Tainá Alvarenga, homenageou Marcos e sua mãe, Bruna Silva, incansável na luta pela reparação da violência de Estado nas favelas e periferias da cidade. Ela espera há oito anos que a justiça seja feita.
Participaram da mesa Carolina Grillo (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, GENI/UFF), Marianna Araujo (Fogo Cruzado), Leonardo Melo (Cátedra Patrícia Acioli/UFRJ), Moisés Kopper (InfoCitizen/Universidade de Antuérpia), Mariana Siracusa (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, CESeC) e Samira Bueno (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), com mediação de Tainá Alvarenga.
A edição deste ano do congresso tem como tema central a geração cidadã de dados e a participação da sociedade civil na construção de estratégias para efetivação do direito à segurança pública. Ao longo de três dias, o evento reúne especialistas, ativistas e pesquisadores do Brasil e do exterior em mesas de debate e grupos de trabalho.

Dados como ferramenta política e disputa de narrativa
Um dos pontos centrais do debate foi o papel estruturante dos dados na possibilidade de incidência política. “É muito difícil conseguir pautar uma discussão pública, propor política pública sem se basear em dados”, destacou Carolina Grillo, do GENI/UFF.

Ao mesmo tempo, os participantes chamaram atenção para o caráter político da própria produção de dados. Longe de serem neutros, os números refletem escolhas, prioridades e omissões. “Os números têm essa aparência de neutralidade, de objetividade […] mas eles são sempre construídos”, destacou Grillo, ressaltando que o Estado tende a medir aquilo que lhe interessa quantificar.
Nesse cenário, organizações da sociedade civil atuam tanto para preencher lacunas quanto para tensionar os dados oficiais, como é o caso do Boletim de Segurança Pública da Maré, publicação da Redes da Maré, resultado do projeto De Olho na Maré, de monitoramento de das operações policiais no território, desde 2016. “A produção de dados que não são produzidos pelo Estado […] dá visibilidade para situações que são invisíveis”, afirmou Mariana Siracusa do CESec.
O debate também evidenciou estratégias distintas de incidência. No caso do CESeC, por exemplo, a produção de dados sobre o custo da política de drogas foi apresentada como forma de dialogar com setores da sociedade menos sensibilizados pela dimensão humana da violência, demonstrando o impacto econômico de políticas consideradas ineficazes.
Produção de dados a partir do território
A experiência da Redes da Maré foi apontada como um marco na produção de dados territorializados, não apenas pela quantidade de informações geradas, mas pela forma como esses dados se conectam à vida cotidiana.
“O trabalho que é feito aqui na Maré não é apenas a produção de dados […], mas também a produção de novas formas de ação política, novas formas de existir politicamente”, destacou Moisés Kopper do InfoCitizen.
Essa produção foi descrita como inseparável da experiência vivida nos territórios. Ao registrar operações policiais, interrupções de serviços e impactos sobre a população, os dados deixam de ser abstrações e passam a operar como instrumentos de reivindicação de direitos. Kopper defendeu que esses dados emergem da prática cotidiana e se articulam diretamente com a luta política e com a avaliação de riscos vividos pela população.
A trajetória de organizações como o GENI/UFF também foi apresentada como exemplo de como essa produção coletiva se consolida em rede. A ausência de dados oficiais sobre operações policiais, por exemplo, levou pesquisadores a desenvolverem metodologias próprias, inspiradas em iniciativas como as da Redes da Maré, para mensurar e analisar a atuação do Estado.

Incidência, linguagem e disputa política
Outro eixo central da discussão foi o desafio de transformar dados em incidência política efetiva, tanto no interior do Estado quanto na sociedade.
“Essa mudança não vai vir do Estado”, afirmou Marianna Araujo do Fogo Cruzado, ao defender que a transformação nas políticas de segurança depende da mobilização social e da capacidade de organização coletiva.
Ao mesmo tempo, foi destacado que a incidência passa necessariamente pela disputa de narrativas. Em um contexto marcado pelo medo e pela exaustão social, os dados precisam ser traduzidos e comunicados de forma acessível para ampliar seu alcance.
Para Leonardo Melo da Cátedra Patrícia Acioli/UFRJ, a linguagem ocupa um lugar estratégico. Para além da produção técnica, ele defendeu a necessidade de “disputar o que é segurança pública”, questionando definições consolidadas e propondo novos enquadramentos a partir das experiências das favelas.
Também foi ressaltada a importância de articular diferentes escalas de atuação: pressionar o Estado, ao mesmo tempo em que se amplia o debate público e se constroem novos consensos sociais.
Risco de apagão de dados e papel da sociedade civil
O encerramento da mesa trouxe um alerta sobre a fragilidade da produção de dados no Brasil e a dependência do trabalho realizado por organizações da sociedade civil.
“Se essas organizações […] deixassem de existir, nós teríamos um apagão”, afirmou Samira Bueno, representante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ao destacar a ausência de um sistema nacional consistente, padronizado e contínuo de informações.
A fala apontou que muitos dos dados hoje utilizados no debate público foram inicialmente produzidos pela sociedade civil, antes de serem incorporados, de forma parcial e instável, pelo Estado.
Nesse contexto, a produção coletiva de dados foi descrita como um mosaico, em que diferentes iniciativas se complementam para construir uma leitura mais ampla da realidade, suprindo lacunas e garantindo a continuidade das informações.

Programação segue com lançamento de boletim
Desde sua primeira edição, o congresso busca articular diferentes atores em torno do enfrentamento às violências e da garantia de direitos em favelas e periferias. A iniciativa também destaca a importância da produção de conhecimento a partir dos territórios como ferramenta para influenciar políticas públicas.
A programação segue nesta terça-feira (24) com o lançamento do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré - dados 2025 , que reúne uma década de monitoramento sobre violência no território, além de mesas sobre arquitetura forense, conflitos armados e grupos de trabalho voltados à incidência em políticas públicas. Veja a programação completa aqui.
O 3º Congresso Internacional Falando Sobre Segurança Pública na Maré é uma realização da Redes da Maré em parceria com o Projeto InfoCitizen, da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, a Cátedra Patrícia Acioli do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Instituto Galo do Amanhã e a Open Society Foundations.

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