Edição:Adriana Pavlova | Fotos: Douglas Lopes e Gabi Lino
Programação reuniu especialistas do Brasil e do exterior para discutir segurança pública a partir dos territórios e da produção cidadã de dados
A abertura do segundo dia do 3º Congresso Internacional Falando Sobre Segurança Pública na Maré foi marcada por uma imagem simbólica: estendida no palco, a camisa de escola de Marcus Vinícius, adolescente de 14 anos morto durante uma operação policial na própria Maré Zona Norte do Rio de Janeiro, em 2018.

A peça remete ao episódio em que o jovem, atingido a caminho da escola, questionou antes de morrer: “Ele não me viu com a roupa de escola, mãe?”. Ao longo do dia, o congresso, organizado pela Redes da Maré, reuniu pesquisadores, ativistas e representantes de organizações da sociedade civil na Areninha Cultural Herbert Vianna, na Maré, para discutir Segurança Pública a partir da produção de dados, do acesso à justiça e dos impactos da violência armada nas vidas e nos territórios.
Dados, território e acesso à justiça marcam primeira mesa do dia
A primeira mesa foi dedicada ao lançamento do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré – dados 2025, com a série histórica de monitoramento de 2016 a 2025, e à apresentação da nota técnica sobre barreiras de acesso à justiça, reunindo integrantes da equipe do projeto De Olho na Maré, da Redes da Maré.
Ao apresentar o boletim, Luiz Carlos Junior, da equipe do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré, destacou que a iniciativa surge da necessidade de sistematizar dados diante de um cenário contínuo de violações. “Se deixar para o Estado fazer, ele não vai fazer bem, não vai fazer direito”, afirmou.
O levantamento reúne uma década de monitoramento e aponta padrões nas operações policiais. “O que existe não são casos isolados e sim repetições”, disse Luiz. Na apresentação dos dados mais recentes, Lucilda Cavalcante, também da equipe do De Olho na Maré, destacou impactos diretos no cotidiano, como invasões de domicílio e interrupções de serviços. “A operação começa no meio do dia, com escola cheia de alunos”, afirmou.
Durante a mediação, Samira Bueno, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ressaltou a disputa em torno da legitimidade desses dados. “Não é só sobre esconder informação, é sobre não legitimar o trabalho de vocês”, disse. Já Aristênio Gomes, também da equipe do De Olho na Maré, apontou que os dados evidenciam a dimensão estrutural da violência e seus efeitos. “A violência também causa silêncio”, afirmou.
A nova edição do “Boletim Direito à Segurança Pública na Maré – dados 2025", com a série histórica de dez anos de monitoramento de dados de confrontos dos grupos civis armados e de operações policiais no território pode ser acessada aqui neste link.
A mesa também apresentou a nota técnica construída em parceria com a PUC-Rio. Moniza Rizzini, da área de Incidência Política da Redes da Maré, destacou o papel da produção de dados na incidência política, enquanto a advogada da Redes da Maré Marcela Cardoso apontou os obstáculos enfrentados por familiares de vítimas. “O sistema de justiça não acolhe essas famílias”, disse. Encerrando o debate, Fernanda Pradal afirmou que o desafio está na implementação das normas existentes: “Não é mais sobre criar leis, é sobre fazê-las virar realidade”.
Arquitetura forense e produção de evidências marcam segunda mesa
A segunda mesa do dia discutiu o uso da arquitetura forense e de metodologias visuais na investigação de violações de direitos, reunindo Paula Marujo, da Agência Autônoma, Ashkan Cheheltan, da Forensic Architecture, e Flávia Palladino, do Projeto Mirante. As apresentações destacaram como ferramentas espaciais, imagens e reconstruções digitais podem ser utilizadas para produzir evidências e disputar narrativas em contextos de violência.Paula Marujo apresentou os fundamentos da arquitetura forense, definida como uma abordagem que utiliza mapas, modelagens e análises espaciais para reconstruir cenário e tornar visíveis situações de violência. Segundo ela, a metodologia permite transformar fragmentos, como vídeos, fotos e registros dispersos, em evidências articuladas, capazes de estabelecer relações de causa e responsabilização.
Na sequência, Ashkan Cheheltan apresentou investigações conduzidas em diferentes contextos, incluindo casos de violência racial e atuação policial. A partir da análise de documentos, vídeos e reconstruções tridimensionais, ele mostrou como é possível confrontar versões oficiais e identificar falhas ou omissões em investigações conduzidas pelo Estado. Um dos pontos destacados foi a necessidade de investigações independentes diante de possíveis vieses institucionais.
Encerrando a mesa, Flávia Palladino trouxe exemplos de casos acompanhados no Brasil e ressaltou as limitações enfrentadas no contexto local, marcado pela ausência ou baixa qualidade de perícias. Segundo ela, muitas investigações partem da escassez de informações, exigindo a reconstrução dos cenários a partir de registros produzidos por moradores e familiares. “A violência sempre deixa vestígios e é com a esperança de conseguir detectá-los que nós fazemos o trabalho”, afirmou.
Conflitos armados e violência de Estado em perspectiva internacional
A terceira mesa reuniu Shayma Nader Albess, da Universidade de Antuérpia, Stephanie Savell, da Universidade de Brown, e John Erick Caicedo Angulo, da Cormepaz Buenaventura, para discutir como dinâmicas de violência de Estado e conflitos armados se articulam em diferentes contextos globais.
Shayma Nader Albess apresentou o contexto palestino a partir da noção de colonialismo e controle territorial, destacando que “o que estamos vivendo e percebendo não é uma guerra convencional, não é um conflito interno, mas um regime colonial a longo prazo”. Segundo ela, a fragmentação do território e a militarização do espaço operam como mecanismos de controle sobre a vida cotidiana e sobre a própria possibilidade de organização política da população.
Na sequência, Stephanie Savell abordou os impactos das guerras lideradas pelos Estados Unidos e defendeu a ampliação das formas de mensuração de seus custos. “É importante ter um total de mortes, não importa quem é o perpetrador da violência”, afirmou, ao destacar a necessidade de considerar também os efeitos indiretos dos conflitos, como a destruição de infraestrutura e seus impactos na saúde e nas condições de vida.
Encerrando a mesa, John Erick Caicedo Angulo trouxe a experiência de Buenaventura, na Colômbia, e criticou leituras que responsabilizam populações vulnerabilizadas pela violência. “O problema não são os jovens de Buenaventura, o problema não são as mães que têm educado mal seus filhos”, rebateu, ao defender que é preciso olhar para fatores estruturais mais amplos, como as dinâmicas econômicas e os interesses que incidem sobre os territórios.
Grupos de trabalho consolidam propostas para incidência em políticas públicas
A parte da tarde foi dedicada aos Grupos de Trabalho (GT), que reuniram organizações da sociedade civil, representantes de equipamentos públicos, moradores e pesquisadores na construção coletiva de propostas voltadas à incidência em políticas públicas.
No grupo sobre o enfrentamento da violência de gênero, as propostas destacaram a necessidade de ampliar serviços especializados para atendimento de mulheres nas favelas, com formação continuada de profissionais e articulação intersetorial entre diferentes órgãos. Também foram apontadas a criação de redes locais de enfrentamento ao feminicídio e a inclusão de debates sobre violência e masculinidades em espaços educacionais e na atenção básica.
Já o grupo sobre segurança pública e sistema de justiça enfatizou medidas de controle e transparência das ações policiais, como o monitoramento efetivo de agentes em operações, a autonomia das perícias e o acesso público a dados sobre gastos e resultados. Entre as propostas, também apareceram a desmilitarização das polícias, o fortalecimento de provas produzidas pela sociedade civil e o fim da justiça militar, em casos de violações de direitos humanos.

No eixo de saúde mental, os debates apontaram a necessidade de qualificar o atendimento a vítimas de violência de Estado, com formação de profissionais para escuta especializada e fortalecimento de redes interdisciplinares de cuidado. A atenção básica foi destacada como ponto central para articulação desse atendimento, envolvendo diferentes serviços e equipamentos públicos.
Por fim, o grupo sobre sistema socioeducativo e justiça racial destacou a ampliação de políticas de acesso à educação e cuidado para adolescentes e jovens, incluindo a criação de mais vagas em creches, a garantia de formação continuada antes, durante e após o cumprimento de medidas socioeducativas e o monitoramento das trajetórias desses jovens no período pós-medida.
Interseccionalidade e experiências de vida encerram o segundo dia
A última mesa do dia reuniu Francisco Silva (Fiocruz), Fernanda Telles (empreendedora da Maré), Luna Ribeiro (Justiça Global) e Muna AnNisa Aikins (Each One Teach One), com mediação de Lia Maria Manso Siqueira (Redes da Maré), para discutir como gênero, raça e território atravessam a experiência da violência e a construção de políticas públicas de segurança. A mediação destacou a necessidade de “aterrar o debate sobre segurança pública” a partir dessas dimensões, conectando vivências e estruturas.
Abrindo a mesa, Francisco Silva refletiu sobre masculinidades e violência, defendendo a necessidade de romper com padrões que associam masculinidade à agressividade. “A gente não está falando de biologia, a gente está falando do social”, afirmou, ao criticar explicações que naturalizam a violência masculina. Ele também destacou que a maior parte das mortes violentas envolve homens, especialmente homens negros, e apontou a urgência de construir outras referências: “que tipo de homem você quer ser?”.
A partir da própria trajetória, Fernanda Telles abordou os desafios de ser uma travesti negra e empreendedora na Maré, relatando episódios de violência, exclusão e ausência de acesso a direitos. “Eu denuncio a quem?”, questionou, ao falar sobre os limites concretos do acesso à justiça. Ela também destacou as barreiras para permanência e crescimento, mesmo diante de iniciativas próprias, e afirmou: “eu existo”, ao defender o direito de permanecer e construir sua trajetória no território.
Na sequência, Luna Ribeiro trouxe a perspectiva da pesquisa em segurança pública para discutir como racismo e gênero estruturam a própria lógica das políticas. Ela criticou abordagens que tratam essas dimensões como recortes separados, destacando que “não é somar identidades, tudo isso junto vira uma nova coisa”, ao explicar como raça, gênero e território se articulam na forma como a violência é produzida e vivida. Para a pesquisadora, essas dimensões não são complementares, mas constitutivas da própria organização da segurança pública.
Encerrando a mesa, a queniana Muna AnNisa Aikins apresentou o contexto da Alemanha, onde trabalha, e chamou atenção para a forma como discursos políticos constroem determinados corpos como ameaça. “Não é sobre segurança, é sobre governar o espaço através da raça”, afirmou, ao discutir como políticas públicas podem reforçar desigualdades em vez de enfrentá-las.
O 3º Congresso Internacional Falando Sobre Segurança Pública na Maré é uma realização da Redes da Maré em parceria com o Projeto InfoCitizen, da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, a Cátedra Patrícia Acioli do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Instituto Galo do Amanhã e a Open Society Foundations.

Programação segue com debates sobre política de drogas, meio ambiente e mídia
O terceiro e último dia do congresso, nesta quarta-feira (25), dá continuidade às discussões com foco na relação entre segurança pública e outros campos estruturantes, como política de drogas, impactos ambientais e o papel da mídia na construção de narrativas sobre violência. Veja a programação completa aqui.

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