Cooperação, produção de evidências e incidência política estão no centro da estratégia da nova Rede para fortalecer a Educação de Jovens e Adultos no Brasil
A Redes da Maré passa a integrar a Rede EJA e Inclusão Produtiva, articulação nacional lançada no dia 7 de julho, em Brasília, que reúne 16 organizações da sociedade civil, instituições de pesquisa e organismos multilaterais para fortalecer a Educação de Jovens e Adultos (EJA). A iniciativa tem como objetivo atuar coletivamente pela garantia do direito à educação e à inclusão produtiva de jovens, adultos e idosos, articulando capacidades, produzindo conhecimento e incidindo em políticas e práticas para ampliar oportunidades e enfrentar desigualdades educacionais.
Além da Redes da Maré, integram a articulação organizações como Fundação Roberto Marinho, Ação Educativa, UNICEF, UNESCO e Fundação Itaú – Itaú Educação e Trabalho. A composição completa da Rede está disponível em www.redeeja.org.br. A proposta é construir uma agenda permanente de mobilização para ampliar o acesso, a permanência e a conclusão da educação básica por jovens, adultos e idosos em todo o país.
Ao integrar essa articulação, a Redes da Maré leva para o debate nacional a experiência acumulada na garantia do direito à educação em territórios populares, onde a interrupção dos estudos está diretamente relacionada a processos históricos de desigualdade social, racismo, violência e negação de direitos.
Durante a abertura do evento, Rosalina Soares, superintendente de Conhecimento da Fundação Roberto Marinho, defendeu a Educação de Jovens e Adultos como prioridade das políticas públicas e alertou para os impactos da descontinuidade de programas voltados à modalidade.
Para Rosalina, uma sociedade em constante transformação precisa garantir oportunidades permanentes de aprendizagem. "Precisamos nos mobilizar, independentemente dos governos, para garantir a continuidade das políticas de educação", afirmou.
Essa compreensão da educação como um direito ao longo da vida também orienta a atuação da Redes da Maré, que há anos desenvolve iniciativas voltadas à retomada da escolarização de jovens, adultos e idosos no território.
Educação como direito e transformação nos territórios
Desde 2018, em parceria com a Fundação Roberto Marinho, a organização desenvolve o projeto Educação de Jovens e Adultos (EJA), que já formou mais de 600 estudantes moradores do Conjunto de Favelas da Maré. A iniciativa oferece oportunidades para que jovens, adultos e idosos moradores da Maré retomem sua trajetória escolar em uma proposta pedagógica construída a partir das experiências de vida dos estudantes e dos desafios cotidianos relacionados ao trabalho, à renda, ao cuidado com a família e às desigualdades que marcam os territórios populares.
Mais do que possibilitar a conclusão da educação básica, o projeto compreende a EJA como uma estratégia de reparação da histórica ausência do direito à educação vivida por milhares de pessoas. A partir dessa perspectiva, busca fortalecer a autonomia, ampliar a participação cidadã e criar condições para que os estudantes construam novos projetos de vida, reconhecendo que garantir esse direito também significa enfrentar as barreiras que dificultam a permanência na escola.
É essa experiência construída ao longo de quase uma década que a Redes da Maré levou ao debate nacional durante o lançamento da Rede EJA e Inclusão Produtiva. A organização participou da programação do evento, representada por Alessandra Pinheiro, coordenadora do Eixo Educação, e Andréia Martins, diretora da instituição, que integrou a mesa de encerramento ao lado de Roberto Catelli, coordenador da Unidade de Educação de Jovens e Adultos da Ação Educativa. O debate reuniu uma síntese das discussões do encontro e apontou caminhos para fortalecer a incidência da Rede EJA e Inclusão Produtiva na construção de políticas públicas voltadas à garantia do direito à educação.



“Ao longo do nosso trabalho, de mais de duas décadas no território, a gente foi, nos últimos anos, entendendo que participar de redes nacionais também era fundamental, porque favelas e periferias sintetizam várias questões sociais do país. Para a Redes da Maré, é fundamental estar nesses espaços e trazer esse olhar do território”, disse Andréia durante o encerramento do evento.


Para ilustrar o impacto da EJA na vida de quem teve o direito à educação interrompido, Andréia compartilhou a trajetória de Paulo Ricardo Santos, de 42 anos, conhecido como Papa. Aos 23 anos, Paulo Ricardo interrompeu os estudos e passou mais de uma década em situação de rua, enfrentando a dependência química. A retomada da escolarização aconteceu depois de começar a frequentar o Espaço Normal, projeto da Redes da Maré de acolhimento da população em situação de rua e de usuários de drogas. Ali, encontrou o estímulo para se inscrever numa turma de EJA desenvolvida pela Redes da Maré em parceria com a Fundação Roberto Marinho. Após concluir a educação básica, tornou-se redutor de danos no próprio Espaço Normal, enquanto também integra o Curso Pré-Vestibular da Redes da Maré, para ingressar na universidade e estudar Serviço Social.
Ao compartilhar essa história, Andréia reforçou que ampliar o acesso à EJA significa ampliar oportunidades concretas para que milhares de pessoas reconstruam seus projetos de vida.
Estudo revela desafio histórico para a Educação de Jovens e Adultos (EJA)
O lançamento da Rede também marcou a divulgação do estudo População de 15 anos ou mais fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho: diagnóstico e evidências para políticas públicas, que apresenta um panorama inédito sobre a escolarização da população brasileira. O levantamento mostra que o Brasil tem atualmente 63,9 milhões de pessoas fora da escola sem educação básica completa, o que representa 37,3% da população com 15 anos ou mais. Desse total, 44,7 milhões não concluíram o ensino fundamental e 19,3 milhões pararam antes de completar o ensino médio. O dado evidencia que a evasão escolar também atinge uma geração mais jovem entre 18 e 39 anos, cuja trajetória educacional foi interrompida antes da conclusão da educação básica.


O estudo também mostra que a exclusão educacional reproduz desigualdades históricas. Pessoas pretas e pardas representam 63,9% da população fora da escola sem educação básica completa e apresentam taxa de pobreza 1,8 vez maior do que a registrada entre quem concluiu a educação básica. O estudo também estima que a baixa escolaridade representa uma perda anual de R$ 66 bilhões em rendimentos do trabalho para a economia brasileira.
Desigualdades regionais e cobertura
O estudo também evidencia fortes desigualdades territoriais. As regiões Norte e Nordeste concentram os maiores índices de jovens e adultos fora da escola sem educação básica completa, embora áreas do interior do Sudeste e do Centro-Oeste também apresentem alta demanda. Apesar desse cenário, a EJA atende apenas 1,5% da demanda potencial do país, com taxas de cobertura que variam de 0,7% a 4,1% entre os estados de Mato Grosso do Sul e Alagoas, respectivamente.
Relatório aponta caminhos para ampliar o acesso à EJA
As recomendações incluem ações de busca ativa, integração entre educação, assistência social e trabalho, ampliação das condições para conciliar estudo, trabalho e cuidados familiares, além de financiamento permanente da modalidade, especialmente nos territórios com maiores desigualdades educacionais. Para os pesquisadores, ampliar o acesso, a permanência e a conclusão da Educação de Jovens e Adultos é condição fundamental para reduzir as desigualdades e garantir o direito à educação ao longo da vida.
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