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Julho e o território das pretas

Jéssica Pires

Fórum das Mulheres Negras da Maré participa da 12ª Marcha Estadual das Mulheres Negras do Rio de Janeiro

O Julho das Pretas de 2026 foi encerrado com um encontro que reuniu milhares de mulheres negras na 12ª Marcha Estadual das Mulheres Negras do Rio de Janeiro. Ativistas, coletivos, organizações e lideranças ocuparam o Posto 2 de Copacabana em mais uma mobilização em defesa do bem viver das mulheres negras. Entre elas, um grupo articulado pelo Fórum das Mulheres Negras da Maré marcou presença e levou para a marcha as pautas construídas no território. Esta foi a segunda participação organizada pelo Fórum das Mulheres Negras da Maré na mobilização estadual. 

A 12ª Marcha Estadual das Mulheres Negras do Rio de Janeiro também celebrou o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela. Com o tema "Mulheres negras do estado do Rio de Janeiro, em defesa da democracia, contra o racismo, por reparação e bem viver", a mobilização reuniu mulheres em defesa da justiça racial e no enfrentamento ao racismo estrutural, ao sexismo e a todas as formas de violência. 

Outro destaque da 12ª Marcha foi a defesa da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 27/2024, que inclui na Constituição Federal o direito à igualdade racial e às políticas de ação afirmativa. A mobilização também defendeu a criação do Fundo Nacional de Reparação Econômica e Promoção da Igualdade Racial, financiado por recursos públicos e por doações e indenizações de empresas historicamente vinculadas à escravidão. 

 

 

 

"A participação das mulheres negras da Maré na Marcha reafirma a força da organização política construída dentro do nosso território. Essa veia política de buscar, mobilizar, fazer marchas, como a que realizamos pedindo um basta contra violência e reunimos mais de 5 mil pessoas, em 2017. E antes mesmo, com o trabalho feito pela Chapa Rosa. Levamos para Copacabana a experiência de luta que já desenvolvemos na Maré e mostramos que nossa presença é para incidir politicamente, reivindicar direitos e fortalecer políticas públicas para as mulheres negras das favelas. Também é uma oportunidade de compartilhar o conhecimento produzido pelas mulheres da Maré, que hoje é referência para muitos outros territórios. Cada marcha fortalece nossa voz e amplia a visibilidade da nossa luta", pontua Vania Silva, liderança comunitária da Maré, integrante do Fórum das Mulheres Negras da Maré.

Julho das pretas

O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha foi criado em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana. A data foi reconhecida pela ONU no mesmo ano como um marco da luta contra as opressões de gênero e raça.

No Brasil, a Lei nº 12.987/2014 instituiu o 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza de Benguela foi uma importante liderança quilombola do século XVIII, no atual estado de Mato Grosso. À frente do Quilombo do Quariterê, resistiu à escravidão por cerca de 20 anos e tornou-se símbolo de força, liderança e liberdade para o povo negro.

Já o Julho Negro é uma articulação mais recente, construída por movimentos de favelas, periferias e familiares de vítimas da violência do Estado. Surgido a partir da luta contra o racismo e a militarização dos territórios, o movimento dialoga diretamente com as pautas do Julho das Pretas, fortalecendo uma agenda comum em defesa dos direitos humanos.

Nossos passos vêm de longe

A Maré é um território negro e feminimo. Das mais de 140 mil pessoas que vivem aqui, mais de 62% são pessoas negras. Nós mulheres somos mais de 50% e lideramos mais de 45% dos lares. Essa liderança das mulheres da Maré na luta por direitos em seus lares e território é antiga, conhecida e reconhecida. Ela resultou em marcos importantes para o desenvolvimento do Conjunto de Favelas da Maré e em diferentes formas de organização e mobilização social, entre elas a própria criação da Redes da Maré. 

Neste ano, a Chapa Rosa — movimento histórico de mulheres criado na Nova Holanda — completa 42 anos. O grupo protagonizou a luta por direitos básicos, especialmente pelo acesso ao saneamento e à água potável. Em 1984, tornou-se a primeira chapa eleita por voto direto para a Associação de Moradores da Nova Holanda, presidida por nossa diretora, fundadora e liderança Eliana Sousa Silva. Celebrar esses 42 anos é reconhecer uma mobilização que gerou frutos fundamentais para a história da Maré e para a atuação da Redes da Maré. 

Fórum das Mulheres Negras da Maré

A metodologia da Redes da Maré parte do fortalecimento da memória do território para construir ações que contribuam para melhorar a qualidade de vida de quem vive aqui. É desse compromisso que surgem iniciativas que articulam as dimensões de raça, gênero e território.

Em 2025, vivemos momentos muito importantes nesta caminhada, como a Primeira Conferência Livre de Raça e Gênero, a participação de três delegadas da Maré na Conferência Nacional de Políticas para Mulheres e o Festival Mulheres do Mundo, o WOW Rio, realizado pela primeira vez no Conjunto de Favelas da Maré. Um resultado concreto desses encontros foi a criação do Fórum das Mulheres Negras da Maré.

 

O Fórum reúne mulheres negras de diferentes favelas do território: tecedoras da Redes da Maré e organizações parceiras, mães de vítimas da violência, jovens, ativistas e lideranças locais que acreditam no potencial de mobilização e de transformação de realidades que pode ser gerado por mulheres negras reunidas e organizadas.

Outro marco de 2025 foi a participação de mais de 50 mulheres da Maré na Marcha das Mulheres Negras realizada em Brasília, em novembro. Na ocasião, o Fórum elaborou a Carta das Mulheres Negras da Maré pela Reparação e pelo Bem Viver, documento que reúne reivindicações concretas para garantir direitos e promover o bem viver das mulheres negras que vivem nas favelas.

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