« voltar   13.08.2026
Redes da Maré participa de debates sobre memória, dados e justiça na II Mostra Patrícia Acioli

Thayssa Rios

Representantes da organização apresentaram experiências de geração cidadã de dados, monitoramento de operações policiais e arquitetura forense desenvolvidas a partir da Maré

 

Experiências desenvolvidas na Maré para produzir dados sobre segurança pública, documentar violações de direitos e buscar caminhos de acesso à justiça estiveram no centro de duas mesas da II Mostra Patrícia Acioli – Testemunhos e acervos: construindo Justiça pela Memória, no dia 11 de agosto. Realizado no Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Flamengo, o evento reuniu pesquisadores, organizações da sociedade civil, artistas, gestores públicos e defensoras e defensores de direitos humanos.

 

 

Pesquisadores, representantes de organizações da sociedade civil, defensoras e defensores de direitos humanos e outros participantes da II Mostra Patrícia Acioli, realizada na UFRJ | Foto: Michele Gomes.

 

A Redes da Maré participou das mesas “Arte, arquitetura e memória” e “Geração cidadã de dados”, apresentando metodologias construídas a partir da experiência do território, como o monitoramento de operações policiais realizado pelo projeto De Olho na Maré e o uso da arquitetura forense na investigação de casos de violência armada.

Organizada pela Cátedra Patrícia Acioli, ligada ao Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ, a Mostra chegou à segunda edição com uma exposição imersiva de fotografias e áudios sobre a trajetória da juíza Patrícia Lourival Acioli. Assassinada em 2011, aos 47 anos, Patrícia ficou conhecida pela atuação no enfrentamento à violência policial, às milícias e a organizações criminosas. A exposição recebeu o público logo na entrada do evento e apresentou aspectos de sua trajetória e de sua atuação em defesa dos direitos humanos e do acesso à justiça.

 

 

Instalação da II Mostra Patrícia Acioli recupera imagens e registros da trajetória da juíza, conhecida pela atuação no enfrentamento à violência policial, às milícias e a organizações criminosas.

 

Produção de dados e busca por justiça

Na mesa “Arte, arquitetura e memória”, realizada pela manhã, a coordenadora do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré, Tainá Alvarenga, apresentou parte da atuação desenvolvida pela organização durante operações policiais e a produção de dados sobre os impactos dessas ações na vida dos moradores.

“Há quase 20 anos, a Redes da Maré está realizando movimentos para entender quais estratégias podem ser usadas para a efetivação do direito à segurança pública e do acesso à justiça da população residente no conjunto das 15 favelas da Maré”, afirmou Tainá.

Entre as iniciativas apresentadas esteve o De Olho na Maré, que completou dez anos em 2026. O projeto acompanha operações policiais e seus impactos no território e sistematiza informações que subsidiam pesquisas e ações de incidência política.

A série histórica referente ao período entre 2016 e 2025, apresentada na 9ª edição do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré – Dados 2025, contabilizou 231 operações policiais, 160 mortes e 1.538 registros de violências e violações de direitos na Maré.

“O monitoramento do De Olho na Maré mostra que, das 160 mortes, somente 16 tiveram perícia de local e só uma resultou em denúncia pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. O trabalho que a gente realiza sobre a violência e a ausência de investigação pode ser impulsionado no sentido de tentar mitigar esses efeitos, e nós fazemos isso a partir da produção de conhecimento. Hoje, além de produzir, nós levamos os resultados para as instâncias públicas que deveriam dar respostas para a população sobre as investigações e o acesso à justiça”, explicou.

 

 

Na mesa “Arte, arquitetura e memória”, a Redes da Maré apresentou experiências de produção de dados, monitoramento de operações policiais e busca por acesso à justiça construídas a partir da atuação no território | Foto: Michele Gome

 

Tainá também apresentou o acompanhamento realizado pela Redes da Maré no caso de Maiara Oliveira. Em 27 de outubro de 2020, aos 19 anos e grávida, Maiara foi atingida por um tiro de fuzil durante uma operação da Polícia Civil que afetou seis das 15 favelas da Maré. Ela permaneceu 40 dias internada, perdeu o bebê e ainda convive com sequelas físicas e emocionais decorrentes dos ferimentos.

Cinco anos depois, o caso permanece sem solução. A ausência de perícia no local e as dificuldades para esclarecer as circunstâncias do disparo levaram a Redes da Maré a incorporar ferramentas de arquitetura forense à investigação, reconstruindo em três dimensões a dinâmica da operação para produzir novas evidências.

Durante a mesa, foi exibida a vídeo-investigação “Maré por Justiça – Maiara Oliveira”. O material faz parte do projeto Construindo ferramentas para a pesquisa forense: a produção de dados e evidências e a atenção psicossocial em situações de graves violações aos direitos humanos no Rio de Janeiro, realizado pela Redes da Maré em parceria com o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) e o Projeto Mirante, com apoio do Ministério da Igualdade Racial.

 

 

Vídeo-investigação “Maré por Justiça – Maiara Oliveira” foi exibida durante a Mostra e apresentou o uso da arquitetura forense para reconstruir as circunstâncias da operação policial em que a jovem foi baleada, em 2020

 

O que pensam os moradores sobre as operações policiais

À tarde, o debate continuou na mesa “Geração cidadã de dados”. A pesquisadora da Cátedra Patrícia Acioli/UFRJ e da Redes da Maré Camila Barros Moraes apresentou a trajetória do De Olho na Maré e a experiência de produção sistemática de dados sobre segurança pública no território.

Na mesma mesa, Arthur Döring, pesquisador do Raízes em Movimento, apresentou resultados da pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”, realizada no Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Conjunto de Favelas da Maré e Rocinha.

Segundo o levantamento, 73% dos moradores entrevistados discordam da realização de operações policiais com confronto armado nesses territórios. Outros 91% afirmam que há excessos e ilegalidades por parte da polícia, percepção compartilhada inclusive por 85% das pessoas que apoiam a realização das operações. A pesquisa aponta ainda que 92% desaprovam a maneira como essas ações são conduzidas e 95% consideram que elas não aumentam a segurança das famílias.

“O estudo lança luz sobre a vivência e a opinião daqueles que são os principais atingidos pelo modelo atual de operação policial centrado no enfrentamento bélico, já que, historicamente, no Brasil, há uma longa tradição de se colocar as favelas no centro do debate público sem levar em conta o ponto de vista de seus moradores”, destacou Arthur.

 

A Redes da Maré também esteve presente em outros momentos da programação. O coffee break do evento foi preparado pelo Buffet Maré de Sabores, iniciativa de geração de trabalho e renda formada por mulheres que passaram pelos processos de formação do projeto Maré de Sabores.

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