Maré de Escrevivências reúne 15 participantes para leituras compartilhadas de obras de Conceição Evaristo e Dona Rosinha
Com um livro em mãos, cada participante lê um trecho em voz alta. Ao fim do capítulo, o grupo interrompe a leitura para conversar sobre o que ouviu e relacionar a narrativa às próprias experiências. Essa é a dinâmica dos encontros do Maré de Escrevivências, Clube de leitura da Casa Preta da Maré da Redes da Maré realizado em parceria com a Biblioteca Popular Escritor Lima Barreto.

A iniciativa reúne 15 pessoas para a leitura compartilhada de duas obras da literatura negra brasileira. O primeiro ciclo, iniciado em agosto, é dedicado a Olhos d’água, de Conceição Evaristo. Entre 5 de outubro e 9 de novembro, o grupo se volta para Memórias do meu quilombo, de Dona Rosinha. Os encontros são presenciais e gratuitos, e cada participante recebe os dois livros.
O clube nasceu da proximidade entre a Casa Preta e a Biblioteca Lima Barreto, equipamentos da Redes da Maré localizados no mesmo quarteirão, na Nova Holanda. Para Pâmela Carvalho, historiadora, educadora, gestora cultural e pesquisadora na Casa Preta da Maré, a leitura é parte da formação antirracista desenvolvida pelos dois espaços.
Durante a pandemia de Covid-19, as equipes distribuíram livros junto com cestas básicas e refeições para famílias da Maré. A experiência mostrou que, mesmo em um período marcado por necessidades urgentes, o acesso à cultura também precisava integrar as respostas construídas no território.
“As pessoas precisam se alimentar de comida, mas também precisam se alimentar de cultura. A partir dessa experiência, fizemos uma reflexão sobre a importância de fomentar a leitura, entendê-la como instrumento de educação antirracista e garantir o acesso ao livro”, explica Pâmela.
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A distribuição dos exemplares permanece como parte central da proposta. O livro não é apenas o material usado durante os encontros: passa a circular nas casas e entre familiares e vizinhos. Para alguns participantes, representa também o primeiro volume que chega à estante de casa.
“Muitos jovens e outras pessoas que participam recebem o primeiro livro a partir do clube de leitura. Para a gente, isso tem sido muito importante”, afirma.
Leitura em voz alta amplia participação
Os encontros duram cerca de duas horas e são mediados atualmente pela jornalista e mestranda em Comunicação, Literatura e Contemporaneidade da PUC-Rio Yasmin Santos. No primeiro dia de cada ciclo, a mediadora apresenta o livro e os integrantes falam sobre si, para que o grupo comece a se conhecer. Depois, a leitura é dividida por capítulos ou por uma quantidade determinada de páginas.
Os trechos são lidos em voz alta, em sistema de rodízio. A dinâmica permite que pessoas com diferentes níveis de familiaridade com a leitura acompanhem as obras e participem das conversas.
“Se a pessoa não consegue ler, ela escuta. Ela pode acompanhar toda a narrativa e a discussão a partir da leitura oral. Também recebe o livro para ter esse material, compartilhar com a família e, em algum momento, conseguir lê-lo”, diz Pâmela.
A leitura coletiva também desloca o livro de uma experiência individual para uma construção compartilhada. Ao fim de cada capítulo, os participantes comentam as passagens que despertaram interesse, incômodo ou identificação. No primeiro encontro deste ciclo, as apresentações já fizeram as histórias pessoais entrarem na conversa: integrantes compartilharam vivências que poderão dar origem a exercícios de escrita.

A atividade se relaciona com o conceito de Escrevivência desenvolvido por Conceição Evaristo, no qual a escrita parte de experiências individuais e coletivas de pessoas negras. Ao fim dos ciclos, o clube costuma propor uma produção inspirada nas leituras e nos debates.
“Já surgiram pequenas exposições e outros encontros. Pensamos nesse processo de leitura e em como ele pode produzir outros trabalhos e processos de continuidade”, conta Pamela.
Livros ajudam a pensar a Maré
A escolha das obras é feita por meio de uma curadoria que busca variar gêneros e níveis de complexidade. A equipe também procura aproximar escritores conhecidos de autores com menor circulação, criando pontes entre diferentes trajetórias da literatura negra.
Neste ano, a seleção priorizou mulheres negras cujas histórias dialogam com territórios populares. Olhos d’água reúne contos sobre personagens atravessados pela pobreza, pelo racismo e por diferentes formas de violência. Já Memórias do meu quilombo recupera lembranças de Dona Rosinha sobre a comunidade quilombola onde viveu.
A aproximação entre os livros não transforma a Maré em cenário automático das narrativas. O que o clube propõe é que os participantes leiam as obras a partir de suas próprias referências, reconhecendo aproximações, diferenças e questões sobre a forma como territórios negros são representados.
“Pensamos em Conceição Evaristo, um dos maiores nomes da literatura negra e brasileira, e em Dona Rosinha, que é menos conhecida. Percebemos uma ligação entre os dois livros a partir da escrita dessas mulheres. Essas narrativas também nos ajudam a ler o nosso território”, afirma Pamela.
A leitura de Dona Rosinha será usada para discutir as relações entre quilombos e favelas. A reflexão parte do pensamento da historiadora Beatriz Nascimento, que estudou os quilombos como formas de organização e continuidade da população negra. “O livro de Dona Rosinha nos ajuda a discutir essa relação entre quilombo e favela”, resume Pamela.
A aproximação entre os dois territórios não apaga suas diferenças. Ao contrário, permite investigar como experiências de organização, memória e resistência aparecem em contextos distintos e como podem contribuir para a leitura da própria Maré.
Ao fim de cada ciclo, os integrantes são convidados a produzir uma atividade relacionada às leituras. Outros percursos já deram origem a pequenas exposições e novos encontros. “A gente pensa como esse processo de leitura pode produzir também outros produtos e outros processos de continuidade”, diz Pamela mirando para outros futuros.
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