Atividade realizada em parceria com a Secretaria Especial de Inclusão (SEI-Rio) reuniu tecedores e tecedoras para discutir inclusão, capacitismo, diagnóstico, educação e redes de apoio
Em alusão ao Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado em 21 de setembro, o Eixo Educação da ONG Redes da Maré promoveu, no dia 22 de setembro, a palestra “Neurodiversidade, Autismo e Práticas Pedagógicas”, realizada pela Secretaria Especial de Inclusão (SEI-Rio). O encontro, que aconteceu no prédio central da Redes da Maré, na Nova Holanda, reuniu 40 tecedores e tecedoras para discutir temas como neurodiversidade, inclusão, capacitismo, diagnóstico e práticas pedagógicas, além dos desafios enfrentados por pessoas neurodivergentes, suas famílias e profissionais que atuam com crianças, adolescentes e adultos. A atividade também destacou a importância da informação, do cuidado e das redes de apoio na construção de práticas inclusivas.


Palestra sobre “Neurodiversidade, Autismo e Práticas Pedagógicas”
Aline Regina Alves de Sousa, coordenadora da Bebeteca, assistente social, conselheira titular do CMDCA-Rio e mãe atípica, foi a primeira a falar, destacando a importância de trazer a discussão para o território e compartilhar experiências vivenciadas no atendimento às famílias da Maré. Aline ressaltou que o aumento da procura por atendimento relacionado ao autismo e a outras deficiências tem mobilizado diferentes iniciativas no território. “Nós recebemos muitas mulheres, mães solos, moradoras de favela, que têm essas demandas por seus filhos”, relatou. Para ela, essa realidade tem provocado uma reorganização das formas de atuação e apoio às famílias.
Informação também é uma forma de cuidado
Carla Martins, psicóloga e coordenadora do projeto SEI Incluir Territórios Sociais, apresentou a atuação da Secretaria, criada em 2024 com uma perspectiva socioeducativa. Por meio de rodas de conversa, palestras e oficinas realizadas nos territórios, o projeto aborda temas como autismo, capacitismo, neurodiversidade e política do cuidado.

Carla Martins, psicóloga e coordenadora do projeto SEI Incluir Territórios Sociais, apresentando a SEI-Rio e a equipe
a equipe
Carla explicou que a proposta é atuar tanto com as “chamadas famílias atípicas”, quanto com a sociedade em geral, ampliando o acesso à informação e contribuindo para uma compreensão mais ampla das diferentes formas de existir e de se relacionar com o mundo.
A coordenadora do projeto SEI também ressaltou que a secretaria não atua como mediadora direta de demandas como acesso a tratamento pelo SISREG ou disponibilização de profissionais de apoio nas escolas. A proposta, segundo Carla Martins, é ampliar a informação sobre essas demandas e fortalecer a compreensão da sociedade sobre os direitos e as necessidades dessas famílias.
O psicólogo Edmar do Carmo, integrante da equipe da SEI-Rio, conduziu a discussão sobre neurodiversidade. Para ele, uma das primeiras questões a serem enfrentadas é a tendência de interpretar o comportamento do outro a partir das próprias referências. “Uma boa informação também é uma forma de cuidar”, afirmou.


Edmar do Carmo, psicólogo e técnico responsável do projeto SEI Incluir Territórios Sociais, conduzindo o debate
A partir dessa perspectiva, Edmar apresentou a neurodiversidade como a existência de diferentes formas de funcionamento neurológico. Além disso, chamou a atenção para o risco de transformar características e comportamentos em rótulos ou diagnósticos sem a devida investigação.
Neurodiversidade para além do diagnóstico
Neurodiversidade não é um diagnóstico ou uma doença, mas um conceito relacionado às diferentes formas de funcionamento neurológico. Este foi o conceito chave ao longo das conversas no encontro. O debate também abordou a importância de evitar a banalização de diagnósticos e de compreender que uma avaliação adequada envolve observação, profissionais de diferentes áreas e acompanhamento.
Segundo Edmar do Carmo, o diagnóstico não deve ser entendido como um fim, mas como um caminho para compreender necessidades e possibilidades de suporte.
O autismo foi discutido a partir da necessidade de considerar os diferentes níveis de suporte e as particularidades de cada pessoa. A palestra também abordou outras condições relacionadas ao neurodesenvolvimento e à aprendizagem, como dislexia, disgrafia e dificuldades de coordenação motora, destacando a importância de um olhar atento para os sinais apresentados por crianças e adolescentes.
Nesse contexto, a escola ocupa um lugar importante. Os palestrantes do evento destacaram que professores e equipes pedagógicas, por acompanharem as crianças de maneira próxima e cotidiana, podem perceber mudanças ou dificuldades que nem sempre são identificadas inicialmente pela família.
O olhar da escola, no entanto, não deve substituir uma avaliação especializada. A identificação de possíveis sinais precisa ser acompanhada de escuta, diálogo com a família e encaminhamentos adequados.
O papel da educação e do olhar cuidadoso
A relação entre neurodiversidade e educação atravessou diferentes momentos da palestra. Para os palestrantes, reconhecer que cada pessoa tem seu próprio ritmo não significa deixar de oferecer suporte, acompanhamento e oportunidades de desenvolvimento.
O desafio está em compreender o que cada pessoa precisa para desenvolver suas necessidades e potencialidades, sem impor como referência um padrão único de desempenho como referência.
Essa perspectiva também se relaciona ao enfrentamento do capacitismo. Em vez de partir da ideia de que existe algo que precisa ser “consertado” no outro, a proposta apresentada foi construir ambientes capazes de acolher diferentes formas de aprender, de se comunicar, de interagir e de participar.
Cuidado também para quem cuida
A sobrecarga das famílias, especialmente das mulheres, também esteve presente durante todo o debate. Mães e cuidadoras frequentemente concentram responsabilidades relacionadas ao acompanhamento, aos atendimentos, à escola e à garantia de direitos de crianças e adolescentes com deficiência.
Nesse contexto, falar em inclusão também significa falar sobre rede de apoio e cuidado de quem cuida. A palestra chamou atenção para a importância de perguntar não apenas quais são as necessidades da criança ou do adolescente, mas também de quem acompanha a família, de quem oferece suporte. É preciso uma escuta cuidadosa para saber as condições da pessoa cuidadora.
Para a equipe da SEI-Rio, a construção de uma sociedade inclusiva depende da participação de diferentes atores — famílias, escolas, profissionais, serviços públicos e comunidade — e passa pela disposição de reconhecer o outro em sua singularidade.
Inclusão como construção coletiva
A atividade reforçou que construir parcerias no território é fundamental para ampliar conhecimentos, qualificar o cuidado e contribuir para o atendimento às pessoas neurodivergentes e suas famílias. Para a Redes da Maré, a formação com a Secretaria Especial de Inclusão (SEI-Rio) integra esse esforço de troca e construção conjunta: ao mesmo tempo em que a organização aprimora sua atuação, compartilha experiências e aprendizados do território que podem contribuir para pensar caminhos de aperfeiçoamento das políticas públicas.
Nesse sentido, falar sobre neurodiversidade é também discutir direitos, autonomia, dignidade e participação social. Mais do que identificar diferenças, o desafio é construir condições para que cada pessoa possa desenvolver suas potencialidades e exercer seus direitos, respeitando seus tempos, necessidades e diferentes formas de estar no mundo.
A iniciativa amplia a circulação de informações e fortalece a articulação entre território, famílias, profissionais e poder público, contribuindo para qualificar práticas de cuidado e educação inclusiva.
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