O encontro promovido pela Temporary Art Platform (TAP) aconteceu no dia 11 de setembro, na Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM); a organização esteve nos dois principais debates do dia compartilhando sobre a ‘análise forense comunitária’ e os impactos das operações policiais no território da Maré
No dia 11 de setembro, a Redes da Maré apresentou duas mesas no festival ‘Não serei o ovo que você quebra: sobre o nascimento, o corpo e as evidências que ele carrega’ promovido pela TAP (Temporary Art Platform) em parceria com o Instituto Comadre, integrado ao festival internacional Evidence, do Center for Human Rights and the Arts (Bard College). A participação da organização foi voltada em compartilhar a experiência de desenvolver a análise forense comunitária no território da Maré e falar sobre os impactos da violência estatal durante as operações policiais.

O evento foi realizado na Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. O dia 11 foi voltado exclusivamente a refletir sobre violência de Estado, justiça e maternidade em duas mesas de debate, aproximando a metodologia da Arquitetura Forense — usada para investigar casos de violência armada em territórios populares — das experiências de maternar em contextos marcados pela desigualdade e pela ausência do poder público. A data reuniu pesquisadores, ativistas, mães e sobreviventes da violência de Estado.
“Há quase 30 anos, a Redes da Maré constrói essa atuação de base comunitária no território. Esse trabalho tem como confluência a organização do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça (DSPAJ), um dos cinco estruturantes da organização, desenvolvido por uma equipe multidisciplinar que segue realizando movimentos para entender quais estratégias podem ser usadas para a efetivação do direito à segurança pública e do acesso à justiça da população residente no conjunto das 15 favelas da Maré”, explica Tainá Alvarenga coordenadora do Eixo DSPAJ.
Antes de se iniciarem as mesas, os pesquisadores Arthur Viana, Affonso Dalua, Felipe Souza e Julio Cesar, do projeto Maré Por Justiça, do Eixo DSPAJ, e a parceira do projeto Natasha Neri falaram brevemente sobre a experiência de desenvolver a pesquisa enquanto também moradores da Maré e com suas vidas atravessadas pela mesma violência a qual pesquisam. Em seguida, exibiram a vídeo-investigação “Maré por Justiça – Maiara Oliveira”. O material faz parte do projeto Construindo ferramentas para a pesquisa forense: a produção de dados e evidências e a atenção psicossocial em situações de graves violações aos direitos humanos no Rio de Janeiro, realizado pela Redes da Maré em parceria com o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) e o Projeto Mirante, com apoio do Ministério da Igualdade Racial.
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A primeira mesa, ‘A análise forense comunitária como instrumento para a reparação de vítimas da violência armada’, discutiu os caminhos e as barreiras de acesso à justiça a partir do caso de Maiara Oliveira, jovem moradora da Maré atingida por um disparo de fuzil aos quatro meses de gestação, em 2020, durante uma operação policial. A investigação da Arquitetura Forense foi mobilizada para reconstituir como ela foi atingida e vem sendo levada ao sistema de justiça como possibilidade de reparação. Participam Maiara Oliveira (Maré), a professora e Subprocuradora-Geral de Justiça de Direitos Humanos e Proteção à Vítima (MP-RJ) Patrícia Mothé Glioche Béze, o doutor em Direito Público e procurador (MPF) Júlio Araújo Junior e a investigadora visual Flávia Palladino, com mediação de Marcela Cardoso (Redes da Maré).
“Tenho essa equipe (da Redes da Maré) como minha família, foi gratificante ver eles falando sobre o projeto e o trabalho que realizamos juntos para chegar ao resultado do vídeo que vocês assistiram. Eu participei junto com eles para a minha história chegar até aqui, então pra mim é um grande dia porque foi um trabalho difícil. Eu sou vítima do Estado, uma sobrevivente, e é muito difícil ter força para falar sobre tudo. Como uma sobrevivente, estar aqui é um milagre porque eu tomei um tiro de fuzil 762 que tirou a vida do meu bebê, da minha filha, mas eu estou aqui porque eu quero respostas e justiça”, destacou Maiara Oliveira em sua fala.
A segunda mesa, ‘Desafios do maternar: os impactos da violência na vida de mulheres e mães na cidade, parte da ideia de que maternar’ focou o debate na experiência social, política e territorial, atravessada pelas desigualdades de gênero, raça e classe. Reunindo a doutora Honoris Causa e parteira Marilanda Lima, Jacklline Oliveira (mãe de Kathlen Romeu), Ana Paula Oliveira (do coletivo Mães de Manguinhos) e Bruna Silva (do coletivo Mães da Maré), com mediação de Isabel Barbosa (Casa das Mulheres da Redes da Maré).
“Eu me chamo Bruna Silva, sou moradora do conjunto de favelas da Maré, sou mobilizadora do território, sou ativista, defensora dos direitos humanos e, acima de tudo, eu sou a mãe do Marcus Vinícius. Um jovem que foi assassinado a caminho da escola em uma operação policial em 2018 na Maré. O Estado matou o meu filho, eu e minha família enfrentamos barreiras na justiça há 8 anos, mas eu não vou deixar de lutar”, iniciou Bruna Silva em sua participação na mesa junto a outras mães vítimas da violência estatal em ações das polícias do Rio de Janeiro.
No fim do dia, o evento contou com um interlúdio performático ‘Orquestrar o acaso’, oferecido por Anna Costa e Silva, e uma sessão de cinema com a exibição de dois filmes: Regarde, elle a les yeux grands ouverts (na tradução literal: Observe, ela tem olhos bem abertos) do francês Yann Le Masson e Why I Never Became a Dancer (na tradução literal: Por que nunca me tornei dançarina) da britânica Tracey Emin.
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