“Uma caixa mágica”. É assim que as crianças do Espaço de Desenvolvimento Infantil (EDI) Maria Amélia Castro e Silva Belford, na Nova Holanda, chamam a composteira instalada no terreno da unidade escolar. Criada como protótipo dentro do projeto Ecoclima, do eixo Direitos Urbanos e Socioambientais (Dusa) da Redes da Maré, a experiência ganha agora uma nova etapa na antiga Ação Comunitária do Brasil (ACB), na sede da Redes da Maré na Vila do João. A proposta é a mesma: transformar o que para alguns era lixo em vida. Além de beneficiar o território, o objetivo é convidar os moradores a serem protagonistas de todo o processo, da coleta dos resíduos orgânicos até o composto final.
Como funciona


Na composteira, cascas de frutas e legumes e restos de alimentos são misturados a folhas secas, grama descartada ou serragem. A decomposição dessa mistura dá origem a um adubo natural, rico em nutrientes, e também a um biofertilizante líquido. O processo leva tempo, pois segue o ciclo da natureza, mas o resultado beneficia a todos.
Da caixa d’água ao composto

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A organização é de Andrea Barreto, coordenadora de formação do projeto CliMaré. O trabalho começou em janeiro, com o reaproveitamento de uma caixa d’água de 500 litros que estava sem uso no espaço. Pedras do tipo brita foram aplicadas como camada filtrante no fundo. A ideia surgiu de trocas com um grupo de composteiros do Rio de Janeiro, no qual a equipe conheceu o trabalho do coletivo Chié do Entra, formado por mulheres do Recife, que realiza a gestão de resíduos orgânicos em parceria com o Shopping Recife. Barreto ressalta que nada começou do zero: “Não inventamos a roda”.
A caixa d’água permite tratar até 200 quilos de resíduos orgânicos. A primeira retirada de composto foi feita em maio e, em agosto, teve início o trabalho em uma segunda caixa. “Tudo começou com o desejo de sensibilizar os alunos do Curso Preparatório para o Sexto Ano, da Redes da Maré, que estudam no local, a partir de uma oficina de montagem de composteira com garrafa pet, mobilizando-os para a formação de agentes mirins, em um sistema ecopedagógico”, comenta.
Composteira é conscientização
Ao andar pelo território, é possível ver a quantidade de resíduos orgânicos descartados no lixo comum ou em áreas impróprias, o que causa impacto negativo ao meio ambiente. Barreto quer reverter esse quadro. “É necessário pensar como a Educação Ambiental pode apoiar essa transformação, fazendo com que os resíduos sejam aproveitados como insumo e reduzindo o volume destinado de forma incorreta ou mesmo enviado a aterros sanitários”, defende.
Para ela, as crianças que circulam diariamente pelo espaço da antiga ACB são agentes multiplicadores. “Basta um trabalho de sensibilização contínuo e atividades lúdicas que tragam a temática. Também temos no espaço mulheres que participam dos cursos oferecidos e vêm conhecer o local. O eixo Dusa desenvolve suas ações em temáticas de sustentabilidade, e a compostagem conecta as pessoas, traz movimento e deixa o espaço mais vivo”, afirma.
A compostagem também abre caminho para discutir outras soluções, como o reaproveitamento dos resíduos sólidos e a segurança alimentar. “Tudo isso trabalhando o amor à terra, o cuidado consigo e com o outro. Esperamos que esse espaço seja um lugar de experimentação de possíveis Soluções Baseadas na Natureza (SBN) e também de cuidado como um todo, de reconexão com a natureza”, completa.
O verde como prioridade

A sede da Redes da Maré na Vila do João lembra os antigos quintais, onde a natureza é prioridade. “Temos um local onde a biodiversidade tem aumentado, com a presença de borboletas, abelhas, plantas medicinais e flores. A horta e a compostagem são dois instrumentos interligados que fecham o ciclo: resíduos orgânicos transformados em insumo retornam para nutrir o solo na produção de hortaliças, em uma interação do espaço”, detalha a coordenadora.
O próximo passo é mostrar aos moradores que é possível ter uma pequena composteira em casa, usando baldes reaproveitados de dez litros com tampa. “Com um processo contínuo de sensibilização, formação sobre o tema e engajamento da população, é possível colocar em prática uma solução para um dos grandes problemas do território: a má gestão de resíduos sólidos”, destaca. Barreto acredita que, com educação transformadora, sensibilização e multiplicação, é possível transformar o território.
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