No mês do meio ambiente, um dos coordenadores do Eixo Direitos Urbanos e Socioambientais, Everton Pereira, explica como a produção de conhecimento a partir da favela fortalece a justiça climática e impulsiona transformações no território
Por Lara Machado | Edição: Andréa Blum
O Dia Mundial do Meio Ambiente, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1972, celebrado em 5 de junho, convidava governos, organizações e cidadãos a refletirem sobre os impactos das mudanças climáticas e os caminhos para construir cidades mais justas e sustentáveis. Recentemente, com a crise batendo na porta, as medidas para lidar com os impactos lançam mão de conceitos ainda mais urgentes, como mitigação e resiliência. As favelas e territórios periféricos estão sofrendo ainda mais as consequências, e muitas vezes passam invisíveis às medidas que poderiam reduzir perdas e salvar vidas.
No Conjunto de 15 favelas da Maré, a mobilização comunitária coloca as necessidades dos moradores em pauta e convida universidades e governo a promoverem em conjunto as soluções. Ilhas de calor, alagamentos frequentes, baixa arborização, poluição do ar e problemas históricos de saneamento são intensificados pelas mudanças climáticas, mas aqui são objetos de estudo, geração cidadã de dados e bússola na busca de soluções possíveis.
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Em entrevista especial ao site da Redes da Maré, Everton Pereira, um dos coordenadores do Eixo Direitos Urbanos e Socioambientais da instituição, conta sobre a produção de dados socioambientais na Maré e a construção de soluções desenvolvidas junto aos moradores. Criado no Parque União, foi aluno e depois professor do Curso Pré-Vestibular, projeto que o instigou a cursar Geografia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisador de campo do Censo Maré, realizado pela Redes da Maré com moradores em 2013, uma referência de produção cidadã de dados, Pereira conta que foi seu avô, Manoel Pereira da Silva, quem lhe deu o espírito político do trabalho para a comunidade, quando o então eletricista organizava o fornecimento de energia elétrica pelas ruas das favelas.
Nesta conversa, Pereira fala sobre a urgência da pauta climática nas favelas, o papel fundamental dos dados produzidos no território e por que a mobilização comunitária é, por si só, um método tão importante quanto qualquer inovação tecnológica. Ele também comemora o selo de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil recebido, recentemente, pelo projeto EcoClima. Leia abaixo.
Redes da Maré - Como começou sua relação com a geografia e com as questões urbanas?
Everton Pereira - Eu sempre fui curioso para entender por que as coisas são assim e não de outra maneira. Minha mãe foi doméstica por um tempo, e eu ia para a casa dos patrões dela de vez em quando. Sempre me batia essa curiosidade: por que onde minha mãe trabalhava, em casas na Ilha do Governador ou na Barra da Tijuca, as coisas funcionavam e, na Maré, eram diferentes? Eu era questionador e não achava natural esse tipo de coisa. O pré-vestibular da Redes da Maré também foi um marco importante na minha formação, não só acadêmica, mas na criação de uma identidade mareense. Bons professores traziam muito o contexto social para dentro das aulas. E tem também minha trajetória familiar. Meu avô foi uma pessoa muito ativa politicamente na Maré. Meu pai sempre contava histórias de como ele ajudava as pessoas, de como foi presidente da Comissão de Luz e de como, a partir da habilidade de eletricista, ofertava esse conhecimento para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Acho que ele nem tinha essa noção na época, mas já fazia isso nas décadas de 1960 e 1970. Acredito que a geografia veio muito a partir dessas experiências.
RdM - Como é a percepção da população sobre os impactos ambientais no cotidiano da Maré?
EP - Apesar de as pessoas viverem os problemas ambientais, a pauta acaba ficando em segundo plano. O morador de favela e periferia não percebe isso como algo urgente, porque tem que resolver outras coisas mais imediatas, como a segurança alimentar e a saúde. E ainda se olha para isso como se fosse algo pro futuro, como se ainda houvesse tempo. Mas eu acho que o futuro chegou e é agora. Muitos desses impactos ainda serão sentidos de forma intensa e estamos buscando lidar com soluções de resiliência climática.


EP - Porque as mudanças climáticas estão aí, vamos ter cada vez mais chuvas intensas e cada vez mais calor extremo. Não adianta fingir que isso não vai acontecer. A questão é como a gente desenvolve ações na Maré para preparar o território para ser mais resiliente. E não se trata de resiliência individual, é a resiliência do território para que passe por eventos cada vez mais extremos e sinta o mínimo possível dos seus impactos. Não temos poder de decisão sobre as mudanças climáticas globais, não vamos fazer uma ação na Maré que impeça que as chuvas aconteçam ou que o planeta aqueça. Então o nosso papel é pensar como o território pode estar mais preparado para lidar com isso.
RdM - Por que é estratégico que a favela produza seus próprios dados?
EP - A produção de dados proprietários e territorializados é fundamental para pensar a Maré que a gente quer. E não estou falando só de dados socioambientais, mas de qualquer dado importante. Quando participei do Censo Maré, eu não fazia ideia de que ele seria, de alguma maneira, propulsor da construção de escolas na Maré. E foi. A gente precisa se conhecer melhor, e para poder pautar qualquer mudança e melhoria para a Maré, precisamos dos dados, para demonstrar que existimos e quais são nossas necessidades para esses espaços. Por exemplo, o nosso projeto mais recente, Tecendo Soluções, foi selecionado em um edital do Ministério das Cidades, da Secretaria Nacional de Periferias, justamente por conta da nossa experiência e do conhecimento territorial que temos. A gente não diz só que a Maré é mais quente. A gente diz onde é mais quente e quantos graus é mais quente, em média. Não à toa ganhamos um Prêmio de Tecnologia Social com o Censo Maré e, agora, o selo com o nosso projeto EcoClima, ambos da Fundação Banco do Brasil.


EP - Os diagnósticos são fundamentais para entender o tamanho do problema e saber o que é necessário para resolvê-lo. A gente não diz só que a qualidade do ar é ruim porque as pessoas têm problemas respiratórios, mas a gente pesquisa e coleta dados para saber onde tem mais concentração de gases poluentes, e produz intervenções de melhoria. Vou dar dois exemplos. A partir do nosso projeto Respira Maré, apresentamos dados para a Fundação Parques e Jardins, responsável pelo processo de arborização da cidade, e conseguimos plantar mudas na Nova Maré, a principal ilha de calor da Maré e onde a qualidade do ar é péssima. Sobre a medição das temperaturas, os dados oficiais não dão conta das nossas demandas. A cidade do Rio de Janeiro tem estações meteorológicas, mas nenhuma delas estava dentro da Maré. Conseguimos implementar uma na Casa das Mulheres, em parceria com a Fiocruz, e vamos ter em breve dados territorializados.


RdM - Como a geração cidadã de dados contribui para políticas públicas ambientais mais justas?
EP - Ela provoca e subsidia o poder público. Também mostra que é possível. Existe muito o discurso de que a violência do território não deixa as coisas acontecerem, não deixa ter serviços públicos, não deixa instalar uma estação meteorológica. A gente mostra que é possível. Quando fizemos o Censo, a Maré não constava na cartografia oficial da cidade. A gente foi lá e fez. Para a Prefeitura do Rio, não há nenhum ponto de alagamento dentro da Maré. Mas, se você frequenta a Maré em um dia de chuva média, vê uma série de ruas que alagam com muita facilidade. A gente está produzindo dados que a Prefeitura não mede. E, como não mede, não reconhece que existe um problema.
RdM - A questão ambiental muitas vezes é reduzida a uma abordagem técnica. É possível vê-la como mobilização e garantia de direitos?
EP - As pessoas acham que a coisa pronta, como o telhado verde, é a solução. Na verdade, o telhado verde é resultado de um processo. O processo é o que importa. A metodologia que organizamos a partir do EcoClima - e que seguimos reproduzindo - é a composição de diagnóstico, formação e intervenção. Fazer o diagnóstico é a geração de dados e, ao mesmo tempo, um processo formativo para a juventude e de escuta dos moradores. Quando decidimos implementar o telhado verde no Rubens Vaz foi porque ali havia mais pessoas reclamando de calor e acreditando que não havia solução. O ponto de chegada não é o telhado verde, é o envolvimento, o engajamento, o processo de educação ambiental, a possibilidade de discutir com o morador. E quem dialoga, vai a campo e monta o projeto são as lideranças de jovens que são formados nos nossos projetos. Estamos criando multiplicadores da temática socioambiental no território.
RdM - O EcoClima recebeu o selo de Tecnologia Social pela Fundação Banco do Brasil, em maio. Este reconhecimento reforça quais características do trabalho?
EP - Reforça que estamos no caminho certo, criando um método consistente, que fortalece toda a comunidade. É perigoso cair na ideia de que a tecnologia vai resolver tudo, como se fosse surgir uma solução pronta para os problemas ambientais e ninguém precisasse se implicar com as questões. É ótimo ter tecnologia, inclusive para pensar na despoluição da Baía de Guanabara e soluções para reduzir o calor. Mas existem tecnologias que são ancestrais. O engajamento comunitário, o fomento de ideias e soluções baseadas nas necessidades locais e na natureza. Outro dia, eu vi uma árvore de painel fotovoltaico e pensei: por que criar um negócio caro desse se era só plantar uma árvore? A árvore vai dar sombra, melhorar o ar e produzir vapor d'água para a atmosfera. A natureza já tem as tecnologias. Temos que fazer uso dela. Essa é a tecnologia.

RdM - Que contribuição a experiência da Maré pode oferecer para outros territórios?
EP - Acho que tudo que a gente faz, no fim das contas, é sobre mobilização. Ao fazer diagnósticos temos a oportunidade de conversar com o morador, que passa a refletir sobre a questão ambiental. Outro ponto importante é que temos buscado implementar soluções baseadas na natureza que sejam simples, baratas e fáceis de reproduzir. Sempre falo que um telhado verde não vai resolver o problema socioambiental da Maré, mas 200 telhados verdes já começam a colocar a gente em outro lugar, de escala e de impacto mensurável. As tecnologias são importantes, mas também como exemplos e ações concretas. O mais importante é mostrar que é possível construir soluções adaptadas à realidade das favelas. E isso passa sempre pela mobilização.
Saiba mais:
https://www.redesdamare.org.br/media/downloads/arquivos/AN%C3%81LISES_Justica_Climatica_.pdf
https://www.redesdamare.org.br/media/downloads/arquivos/DIAGNOSTICO_SOCIOAMBIENTAL_ECO.pdf
https://www.redesdamare.org.br/media/downloads/arquivos/PLANO_DE_AC%CC%A7AO_-_ECOCLIMA.pdf
https://www.redesdamare.org.br/media/downloads/arquivos/Cartilha_IlhasdeCalor_Ecoclima.pdf
https://www.redesdamare.org.br/media/downloads/arquivos/FolderRespiraMareMAPAS.pdf
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