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Entrevista Mariana Aleixo • Há 16 anos, Maré de Sabores transforma comida em trabalho, autonomia e direito

No aniversário do projeto, a coordenadora Mariana Aleixo fala sobre a construção de uma identidade gastronômica mareense, a formação política e profissional de mulheres faveladas e a importância de reconhecer a alimentação como parte da memória, da economia e da garantia de direitos na Maré

 

Por Lara Machado | Edição: Adriana Pavlova  | Foto Douglas Lopes

 

Mariana Aleixo é a coordenadora do Casa das Mulheres, do Buffet e do projeto Maré de Sabores, que está completando 16 anos e já formou cerca de 1.500 mulheres

 

Coordenadora da Casa das Mulheres da Maré e do Buffet e projeto Maré de Sabores, Mariana Aleixo (38) construiu a sua relação com a gastronomia no Parque Maré, entre as receitas da avó Maria, o comércio dos pais e as refeições que reuniam familiares e vizinhos. Formada em Gastronomia, iniciou a carreira nas cozinhas dos hotéis Copacabana Palace e Fasano, mas foi no território onde nasceu que passou a desenvolver outra perspectiva sobre a profissão: a comida como memória, trabalho, autonomia e garantia de direitos.

Essa visão está na origem do Maré de Sabores, criado há 16 anos pela Redes da Maré, a partir de oficinas de gastronomia para moradoras da Maré. Atualmente sediado na Casa das Mulheres da Maré, o projeto já formou cerca de 1.500 mulheres, entre cozinheiras, empreendedoras e merendeiras, articulando qualificação profissional e debates sobre gênero, divisão do trabalho, segurança alimentar e autonomia econômica.

Uma das frentes dessa atuação é o Buffet Maré de Sabores, negócio de impacto social formado por mulheres que passaram pelo processo de formação. O serviço transforma essa formação em trabalho e renda e, ao mesmo tempo, leva a gastronomia mareense para outros espaços da cidade, em eventos sociais, corporativos, institucionais, culturais e universitários. Ao longo da trajetória do projeto, já foram consolidadas cerca de 400 experiências de geração de renda. Desde 2021, o Buffet também participa, em articulação com o Eixo de Direito à Saúde da Redes da Maré, da produção de refeições para ações humanitárias no território. Nesse período, foram produzidas e distribuídas mais de 400 mil refeições para pessoas em situação de maior vulnerabilidade. 

O trabalho ganhou reconhecimento dentro e fora da Maré. Em 2022, Mariana integrou a lista internacional 50 Next, que reúne jovens lideranças apontadas como responsáveis por transformar o futuro da gastronomia. O destaque considerou especialmente a atuação do Maré de Sabores durante a pandemia, quando o projeto participou da produção e distribuição de refeições pela campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus.

A comida ocupa lugar central na formação do território. Está nas tradições nordestinas, na relação histórica com a pesca na Baía de Guanabara, nas memórias familiares e na economia local. Dos 3.182 empreendimentos mapeados no território, 1.118 estão ligados à alimentação, segundo o Censo de Empreendimentos, produzido pela Redes da Maré (2014). Essa força também deu origem ao Comida de Favela, festival realizado pela Redes da Maré com patrocínio do BNDES, que transformou a Maré em circuito gastronômico e chega à quarta edição em outubro de 2026. Neste ano, o festival foi indicado ao World Culinary Awards como melhor festival culinário da América Latina.

Nesta entrevista, Mariana Aleixo fala sobre a construção de uma gastronomia mareense, o protagonismo das mulheres, os desafios enfrentados por quem trabalha com alimentação no território e a comida como instrumento de memória, autonomia e garantia de direitos.

 

Redes da Maré - Como a comida passou a ocupar um lugar central na sua trajetória?

Mariana Aleixo - A escolha de fazer faculdade de Gastronomia fala muito da hospitalidade familiar. Minha avó Maria era uma grande cozinheira. Ela preparava alimentos para o comércio do meu avô, mas também fazia da comida um espaço de sociabilidade e convivência. Cresci em um lugar onde a comida, além de alimentar, acolhia e organizava.

Também sempre tive uma coisa forte de experimentação. Era aquela criança que queria comer tudo, principalmente o que as outras não queriam. A alimentação me dava acesso a culturas e lugares que eu não conhecia. Nossa família não frequentava restaurantes, e eu via a gastronomia como uma possibilidade de conhecer outras referências.

Hoje, percebo que a alimentação também carregava uma ideia de status e uma ideia de ascensão social. Atualmente, a gente consegue se organizar socialmente a partir do que há de positivo em ser favelado. Mas, quando eu era adolescente, existia uma tentativa de esconder nossa origem, não se queria carregar os estigmas associados à favela.

 

RdM - Como a experiência em grandes cozinhas influenciou a criação do Maré de Sabores?

MA - No primeiro semestre da faculdade, fui trabalhar no Copacabana Palace. Eu estava encantada e tive acesso a ingredientes e técnicas que nunca tinha conhecido.

Trabalhava com um colega morador do Parque União, que segue até hoje cozinheiro do hotel. Ele me ensinou confeitaria francesa e italiana. Eu perguntava por que ele não empreendia na Maré. Ele dizia que não se ganhava dinheiro trabalhando na Maré. Meu pai era empreendedor do território, então eu tinha outra referência.

Depois, trabalhei no Fasano e percebi que, mesmo tendo faculdade, as grandes oportunidades dependem de redes de apoio e contatos que não chegam da mesma maneira para todas as pessoas.

Comecei a equilibrar o trabalho em cozinha com a pesquisa acadêmica. A Redes da Maré identificou uma demanda por qualificação profissional em gastronomia, e eu comecei a dar aulas. Foi nesse processo que o Maré de Sabores começou a se organizar. A conexão entre a cozinha e a Maré tem uma dimensão familiar, mas também é uma construção política.

 

RdM - Existe uma gastronomia especificamente mareense?

MA - Estamos construindo uma identidade local e entendendo o que diferencia a gastronomia mareense. A Maré tem uma forte presença nordestina, com a qual me identifico porque minha família é paraibana, além da memória da pesca na Baía de Guanabara e das histórias das pessoas removidas de outras partes da cidade.

A pergunta é: se somos um povo gastronômico, como constituímos essa gastronomia e posicionamos nossa identidade na cidade? Não se trata apenas de ensinar técnicas, mas de fazer com que as pessoas reflitam sobre o ato de comer, a memória, o território e o que significa ser mulher.

Juntar a Maré com a comida é uma forma de nos fortalecermos identitariamente como mareenses. A alimentação está no cotidiano e na sociabilidade do território e permite discutir cultura, pertencimento e segurança alimentar.

 

RdM - O que diferencia o Maré de Sabores de um curso convencional de gastronomia?

MA — O espaço da cozinha é político. Usamos a alimentação como uma forma de politizar as mulheres, para que compreendam os papéis sociais determinados pelo gênero, considerando também os recortes racial, territorial e do mundo do trabalho.

O Maré de Sabores antecede a abertura da Casa das Mulheres, em 2016, e está ligado a uma história muito mais antiga de organização das mulheres pela garantia de direitos na Maré. As participantes têm aulas de gastronomia e de gênero e sociedade. O trabalho aparece como possibilidade de renda, mas também amplia o repertório para que elas possam construir autonomia financeira, romper ciclos de violência e questionar a ideia de que cozinhar é uma obrigação exclusivamente feminina.

Essa formação também se desdobra no Buffet Maré de Sabores, que funciona como espaço de prática profissional e geração de renda para mulheres que passaram pelo projeto. O buffet atende eventos dentro e fora da Maré e trabalha com cardápios que valorizam preparações artesanais e receitas ligadas à memória alimentar do território, marcada, entre outras referências, pela forte presença da cultura nordestina. 

Existe uma contradição: no espaço doméstico, cozinhar é considerado uma obrigação das mulheres. Quando a cozinha se torna profissional, elitizada e ocupa espaços de poder, são os homens que aparecem. Já nas funções mais mal remuneradas, as mulheres continuam sendo maioria. Precisamos ocupar esses espaços e reconhecer como profissional um conhecimento historicamente produzido pelas mulheres.

 

RdM - Como a autonomia econômica das mulheres transforma o território?

MA - Dos 1.118 empreendimentos de alimentação identificados pelo Censo de Empreendimentos da Maré, 39% foram declarados como liderados por mulheres. Mas, muitas vezes, o homem aparece como responsável pelo negócio, embora sejam as mulheres que estejam cozinhando, gerenciando e sustentando o empreendimento. A presença feminina provavelmente é maior do que os dados revelam.

As formações ajudam essas mulheres a reconhecer o papel de liderança que já exercem. Isso também contribui para construir negócios mais comunitários, democráticos e solidários, comprometidos com a segurança alimentar e o fortalecimento do território.

A autonomia financeira é fundamental para o rompimento de ciclos de violência. Quando as mulheres conquistam essa autonomia, também criam formas de empreender que podem produzir circuitos mais seguros e cuidadosos para a Maré.

 

RdM - Por que a formação de merendeiras é importante?

MA - A merendeira é uma agente de segurança alimentar. Ela está no cuidado direto da criança que, muitas vezes, tem a alimentação da escola como a única refeição do dia.

A alimentação escolar é uma política pública, mas a merendeira é quem a executa ao produzir a comida. Um dos papéis das formações é fazer com que essas profissionais dimensionem o lugar estruturante que ocupam ao alimentar cerca de 20 mil estudantes das unidades educacionais da Maré.

O ato de cozinhar vai muito além do trabalho cotidiano. É um ato político porque garante uma necessidade diária. As merendeiras dão continuidade a uma história de mobilização das mulheres pela criação de creches, escolas e outros direitos fundamentais no território.

 

RdM - Quais são os principais desafios enfrentados por quem empreende com alimentação na Maré?

MA - A Maré criou um ecossistema empreendedor para atender às próprias necessidades. O setor de alimentação dá conta de serviços, entretenimento e lazer e responde à identidade e às demandas dos moradores.

Ao mesmo tempo, existem dificuldades de abastecimento. A logística de entrega é afetada pelas operações policiais, e os empreendedores muitas vezes precisam buscar pessoalmente produtos na Ceasa ou em mercados atacadistas para vendê-los por preços acessíveis. Eles absorvem custos maiores e trabalham com margens menores.

Também há dificuldades de formalização, financiamento e formação. Os empreendimentos precisam acessar políticas de investimento, capital semente e acompanhamento continuado. É necessário reconhecer a economia da Maré como uma economia potente, ligada às diferentes formas de celebrar e viver no território.

 

RdM - Como cultura alimentar e segurança alimentar estão conectadas?

MA - O Maré de Sabores nasceu como um processo de formação, mas a garantia de segurança alimentar passa pelo acesso à renda. Quando as pessoas têm renda, conseguem escolher o que comer.

Preservar a cultura alimentar da Maré é uma forma de garantir segurança alimentar. Estamos disputando com grandes indústrias que modificam hábitos e substituem refeições tradicionais por produtos ultraprocessados, muitas vezes mais baratos.

Quando não abrimos mão das referências nordestinas, da memória das pessoas removidas de outras favelas e da relação com a pesca e as tradições indígenas, fortalecemos o ambiente alimentar. A memória e a cultura ajudam os moradores a fazer escolhas possíveis dentro dos recursos disponíveis.

 

RdM - De que forma o Comida de Favela leva essa discussão para a cidade?

MA — O Comida de Favela é uma disputa pelo direito à cidade. Colocamos a experiência gastronômica da Maré dentro da perspectiva do Rio de Janeiro. Convidamos os moradores do território a conhecerem e acessarem um festival gastronômico onde moram, assim como as pessoas de fora, para ocupar esse espaço e fortalecer os estabelecimentos locais.

Durante os circuitos, o público não apenas visita bares e restaurantes. A mediação apresenta o território, sua cultura alimentar e as histórias dos empreendedores. É uma forma de letramento sobre a Maré impulsionada pela comida.

O festival também mostra que esses empreendimentos produzem renda, dignidade e oportunidades, mas não recebem os mesmos investimentos destinados a outros polos gastronômicos da cidade. Queremos dar visibilidade a esse impacto e criar outro imaginário sobre a Maré.

 

RdM - O que representa a indicação ao World Culinary Awards?

MA - Estamos concorrendo na categoria de melhor festival culinário da América Latina. Decidimos inscrever o Comida de Favela para dar visibilidade ao trabalho, porque projetos de favela que atuam em um setor tão elitizado quanto a gastronomia nem sempre recebem o reconhecimento correspondente à experiência acumulada.

Queremos afirmar que, dentro da gastronomia brasileira, existe a comida mareense. A premiação pode projetar o trabalho para espaços que ainda não acessamos e convocar o setor gastronômico a refletir sobre seu papel na construção de uma rede de proteção alimentar.

A gastronomia também permite que a Maré ocupe os cadernos de economia, cultura e alimentação e amplie o olhar da sociedade sobre o território. Ninguém pode falar sobre a gastronomia mareense melhor do que os próprios mareenses.

 

RdM - Que futuro você imagina para a gastronomia da Maré?

MA - Vamos compreender melhor esse futuro com a atualização do Censo de Empreendimentos. No levantamento anterior, foram identificados 3.182 negócios. Hoje, estimamos que existam cerca de 5 mil.

Imagino uma cultura alimentar que contribua para formar hábitos mais saudáveis e uma economia que fortaleça o indivíduo e todo o território. Para isso, precisamos de formação, organização dos empreendedores e políticas públicas que reconheçam a cadeia produtiva e o potencial econômico da Maré.

Os empreendimentos existem, a nossa gastronomia existe e a nossa ancestralidade existe. O que estamos fazendo é colocar essa experiência no debate público e disputar que os direitos garantidos a outras partes da cidade também sejam garantidos para a Maré.

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