voltar
Último dia do Congresso de Segurança Pública na Maré tem discussão sobre disputa de narrativas, política de drogas e papel da mídia

Lara Machado

Edição: Adriana Pavlova | Fotos: Gabi Lino e Patrick Marinho

Debates abordaram produção de conhecimento nas favelas, impactos da guerra às drogas e desafios da democracia no campo da segurança pública

 

“Que numa próxima edição este encontro possa acontecer na rua, no espaço que é de todos”, disse o arquiteto e urbanista colombiano Juan S. Fernández, do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq. Futuro do Insper-SP, no último dia do 3º Congresso Internacional Falando Sobre Segurança Pública na Maré. A proposta de esperança veio acompanhada da experiência de Medellín, cidade que deixou de ser uma das mais violentas do mundo a partir da ocupação do espaço público, da participação dos moradores e do investimento em educação e cultura nos territórios. 

 

A fala marcou o terceiro e último dia do congresso realizado pela Redes da Maré, nesta quarta-feira (25), reunindo, na Areninha Cultural Herbert Vianna, pesquisadores como Fernández, além de comunicadores, organizações e moradores da Maré, para discutir política de drogas, controle territorial e disputa de narrativas. Ao longo da programação, os debates evidenciaram os limites do modelo atual de segurança pública e reforçaram a centralidade dos territórios na produção de conhecimento e na construção de alternativas. Veja os destaques da quarta-feira.

 

Produção de dados nas favelas ganha centralidade na disputa por narrativas e políticas públicas

A mesa “Conhecimento em disputa: produção cidadã, território e segurança pública” avaliou que a produção de dados nas favelas é, antes de tudo, uma disputa política sobre narrativas e poder. Como apontado na mediação, o desafio atual não é apenas produzir informações, mas compreender “quem controla o sentido público desses dados e como falar de forma efetiva para todos os públicos que a gente quer alcançar”, de modo a transformá-los em políticas públicas e evitar seu uso para reforçar a própria violência de Estado.

A pesquisadora Thaís Cruz (IESP-UERJ, WikiFavelas, InfoCitizen) reforçou que essa produção parte dos próprios territórios e não é algo novo, mas, historicamente, invisibilizado. “A geração cidadã de dados é para contar as nossas trajetórias, mas também contar narrativamente a realidade das favelas e como isso se transforma em uma ferramenta política de denúncia e de acesso a direitos”, afirmou, ao destacar também as lacunas dos dados oficiais e a necessidade de registrar experiências que não aparecem nas estatísticas estatais.

Na mesma direção, Bruno Souza (Instituto Decodifica) chamou atenção para a ausência de indicadores básicos e para a necessidade de produzir dados que dialoguem com a realidade local. “Se o Estado não sabe quantas pessoas moram nesse local, como é que vai ter política pública adequada para todos?”, questionou, ao relatar experiências de produção de dados no Jacarezinho, Zona Norte do Rio. Já Carlos Nhanga (Instituto Fogo Cruzado) enfatizou o papel da comunicação nessa disputa, defendendo que “dados e tecnologia são instrumentos para democratizar a percepção da segurança pública” e que é preciso construir narrativas que evidenciem os impactos das operações para além dos números oficiais.

As falas também evidenciaram os limites e riscos do uso das tecnologias. Pablo Nunes (CESeC) apontou que “essas tecnologias não são neutras”, sendo alimentadas por dados que produzem padrões e reforçam mecanismos de controle, enquanto Lidiane Malanquini, da área de Incidência Política da Redes da Maré, apontou que, nos territórios, a própria produção de dados já configura incidência política. “A produção de dados está intrinsecamente ligada à mobilização do território”, afirmou, ao defender que reconhecer a favela como produtora de conhecimento é parte central da disputa por políticas públicas e legitimidade. 

 

Política de guerra às drogas reforça desigualdades raciais, amplia violência e reorganiza mercados ilegais

Na abertura da mesa “Guerra às drogas, controle territorial e impactos humanos e ambientais”, o mediador Aristênio Gomes, da Redes da Maré, situou o debate a partir de uma perspectiva histórica, ao afirmar que “a gente não pode falar sobre um tema tão caro [...] sem falar sobre o período da escravidão nesse país”. Para ele, as atuais políticas de segurança pública e controle territorial nas favelas estão enraizadas em processos históricos de racialização e desigualdade, sendo fundamentais para compreender a persistência da violência no presente.

O sociólogo Luiz Eduardo Soares, da Cátedra Patrícia Acioli da UFRJ, destacou a permanência de um modelo de segurança pública marcado pela violência e pela ineficácia. “Nós vivemos num país profundamente brutal, racista, pátria do genocídio de jovens negros”, afirmou. Segundo ele, a política de drogas tem ampliado o encarceramento em massa e fortalecido organizações criminosas, já que o sistema prisional funciona como espaço de recrutamento: “nós investimos bilhões [...] ampliando as forças das facções pela mediação do sistema prisional”.

A partir da experiência em Heliópolis, João Victor Cruz, da UNAS e do projeto De Olho na Quebrada, afirmou que a chamada guerra às drogas opera, na prática, como uma política de controle sobre populações específicas. “A guerra às drogas não é a guerra às drogas, a guerra é contra uma população que é o povo preto, favelado”, disse. Ele também destacou como a atuação policial incide sobre manifestações culturais e reorganiza os territórios.

A pesquisadora Ingri Bøe Buer, da Universidade de Manchester, problematizou o uso do conceito de guerra, propondo a definição de uma “guerra estatal, necropolítica e performativa”. Para ela, a violência promovida pelo Estado se concentra em territórios específicos e não enfrenta suas causas estruturais: “essa guerra não resolve nada [...] mas produz essa imagem de ação”, afirmou, ao destacar o caráter simbólico e político das operações.

A pesquisadora Rebeca Lerer, das organizações Sinal de Fumaça e Intersecção, ampliou o debate ao destacar a dimensão econômica e ambiental da política de drogas. “A proibição estabeleceu um sistema econômico inovador, resiliente, corrupto, extrativista e transnacional”, afirmou. Segundo ela, a repressão se concentra nos territórios periféricos enquanto os lucros circulam globalmente, conectando a guerra às drogas a dinâmicas econômicas mais amplas e a impactos socioambientais.

Por fim, o pesquisador Juan S. Fernández, do Insper, trouxe a experiência de Medellín, na Colômbia, para discutir alternativas à violência estatal. Ao relembrar o contexto da cidade, afirmou que era preciso uma resposta coletiva: “ou fazemos algo juntos como sociedade, ou não fazemos nada”. Segundo ele, a transformação passou por políticas de urbanismo social, com foco na ocupação do espaço público, na educação e na participação social como caminhos para reduzir a violência e fortalecer a vida nos territórios.

 

Mídia, memória e disputa de narrativas no centro do debate democrático

Encerrando o congresso, a mesa “A democracia em jogo no mundo: o papel da mídia nos debates sobre segurança pública e Direitos Humanos” debateu a comunicação como eixo central das disputas políticas em torno da segurança pública. Na abertura, a mediadora e jornalista Jéssica Pires, da Redes da Maré, situou o debate como uma reflexão sobre quem controla e distribui as narrativas produzidas ao longo dessas disputas, especialmente em um contexto atravessado por desigualdades e violência.

A jornalista Thaís Bilenky, do podcast A Hora (UOL), defendeu que a cobertura de segurança pública precisa ir além das estatísticas oficiais e incorporar os impactos concretos das operações nos territórios. “Existe o rastro que fica depois de uma operação policial”, afirmou, ao destacar traumas, violações e interrupções da vida cotidiana que não aparecem nos dados. Ela também apontou que a pauta da segurança pública passou a exigir uma abordagem mais ampla, conectada a disputas políticas e econômicas, e alertou para sua recorrente instrumentalização no debate eleitoral.

A pesquisadora queniana Nanjala Nyabola, da Universidade de Stanford, enfatizou o papel do jornalismo como produção de memória é elemento fundamental para o equilíbrio democrático. Ao relatar episódios de censura em seu país, apontou que nem sempre o impacto do jornalismo é imediato: “pode não ser sempre chamativo, pode não ser sempre grande, mas manter esse espaço na memória e nos arquivos é um trabalho essencial”. Para ela, esse esforço é central para garantir que vidas e violências não sejam apagadas e para reequilibrar uma democracia em que interesses de Estados e corporações têm se sobreposto aos dos cidadãos.

Em diálogo com esse cenário, o comunicador Raull Santiago, do Instituto Papo Reto, destacou a potência e os limites da comunicação produzida a partir das favelas. Ao relatar sua atuação durante a Chacina no Complexo do Alemão e no Complexo da Penha que deixou 121 mortos, explicou como a articulação entre moradores, redes sociais e imprensa foi decisiva para dar visibilidade às violações. “Eu tinha um celular, uma internet e algumas pessoas que me seguem. E é o que a gente tem. Vamos comunicar!”, afirmou, ao descrever a mobilização que ajudou a localizar vítimas e pressionar por respostas. Ao mesmo tempo, ele alertou para a fragilidade desse trabalho diante da desinformação e da criminalização: “A linha é muito tênue”, disse, ao relatar como sua atuação foi distorcida por narrativas falsas. Para ele, a comunicação comunitária amplia a capacidade de denúncia e articulação nos territórios, mas ainda enfrenta desigualdades estruturais, especialmente no controle das plataformas digitais.

Já o jornalista Bernardo Mello Franco, do jornal O Globo, defendeu o papel do bom jornalismo na fiscalização do poder e na produção de informação de interesse público, destacando que muitas denúncias só vêm à tona a partir do trabalho contínuo de apuração. Ao citar investigações recentes, afirmou que esses casos só se tornam públicos porque “alguns jornalistas passam dias e noites lendo Diário Oficial, pesquisando fontes, correndo atrás de entrevistados”. Para ele, esse tipo de trabalho é fundamental para revelar abusos e fortalecer a democracia, ao mesmo tempo em que deve ser tensionado por novas vozes e perspectivas.



 

Articulação internacional sobre produção cidadã de dados continua na Fiocruz

Após três dias de intensos debates, o 3º Congresso Internacional Falando Sobre Segurança Pública na Maré foi encerrado com um show aberto ao público da cantora Azula Cristina. Artista travesti negra, nascida em Bangu e criada na Baixada Fluminense, Azula apresentou um repertório que transitando entre jazz, MPB, samba e R&B, com composições sobre memória, afeto, resistência e cuidado.

A programação do congresso consolidou um espaço de articulação entre sociedade civil, pesquisadores e comunicadores, reunindo diferentes perspectivas sobre segurança pública, produção de dados e garantia de direitos. Houve mesas, grupos de trabalho e atividades com participação de moradores, reforçando o papel dos territórios na construção de conhecimento e na formulação de propostas. A cobertura dos dias anteriores pode ser acessada aqui: segunda (23) e terça (24).

O 3º Congresso Internacional Falando Sobre Segurança Pública na Maré foi uma realização da Redes da Maré em parceria com o Projeto InfoCitizen, da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, a Cátedra Patrícia Acioli do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Instituto Galo do Amanhã e a Open Society Foundations.

Dando continuidade ao tema da geração cidadã de dados, será realizada, na Fiocruz, nos dias 26 e 27 de março, a conferência “Produzindo Dados Tornando Experiências Visíveis: Práticas de Quantificação e Intercâmbios Metodológicos Sul-Norte”, com entrada gratuita. O encontro reúne pesquisadores e organizações do Brasil e de outros países para aprofundar o debate sobre metodologias, produção de dados e seus impactos na incidência em políticas públicas, ampliando o intercâmbio internacional sobre o tema. Veja a programação completa aqui.

 

 

Fique por dentro das ações da Redes da Maré! Assine nossa newsletter!